Os impactos da exposição online na autoimagem

Alguns pacientes nos trazem a foto dos seus rostos ‘filtrados’ como referência do resultado esperado, o que é muito perigoso, porque jamais podemos prometer que o paciente irá ficar como se vê no filtro

Dra. Letícia Nanci
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Segundo um estudo publicado na revista Journal of Applied Sport Psychology, a gratidão ajuda a aumentar a autoestima

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Nunca passamos tanto tempo expostos às nossas próprias imagens como agora. Segundo dados do estudo Digital 2022: Global Overview Report, o brasileiro passa, em média, 10 horas e 19 minutos por dia online. Não bastasse a exposição nas redes sociais – em que nos vemos em imagens editadas, retocadas e com filtros –, a pandemia nos trouxe um fenômeno chamado Dismorfia de Zoom, em alusão ao aplicativo de videochamadas.

Um grupo de dermatologistas da Harvard Medical School identificou que a câmera dos computadores distorce alguns traços do nosso rosto, pois fica num ângulo e proximidade que dificilmente se reproduz na vida real. Ou seja, aquele rosto que vemos durante a reunião online não é o nosso rosto de verdade. Muitos dos defeitos que passaram a nos incomodar sequer existem.

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A grande questão é: se a gente passa horas encarando esse reflexo distorcido, como conseguimos nos convencer de que tudo aquilo que estamos vendo e odiando não precisa ser alterado? Não conseguimos, e a pesquisa de Harvard comprova isso. Durante a pandemia, houve um aumento de 56,7% na busca por procedimentos estéticos nos EUA, com destaque para botox, preenchimentos faciais e tratamentos a laser; mais de 85% dessas buscas foi motivada pelas chamadas de vídeo. Mais de sete mil mulheres foram entrevistadas nesse estudo e 71% alegaram ansiedade em relação ao retorno das atividades presenciais por conta das suas insatisfações estéticas; três a cada 10 participantes pretendia recorrer aos procedimentos estéticos antes de encarar as pessoas ao vivo novamente.

Estamos presenciando uma fase em que nós, dermatologistas, temos que orientar essas mulheres que devemos fazer os tratamentos visando à melhora da saúde da pele, pensando tanto no rejuvenescimento como na prevenção, e esquecer esses padrões de beleza que nos assombram.

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Um estudo da Academia Americana de Cirurgiões Plásticos revelou que a motivação de 55% das pessoas que fizeram rinoplastias em 2017 foi o desejo de sair melhor em selfies. No Brasil, 20% dos jovens entre 15 e 25 anos realizaram a cirurgia conhecida como bichectomia pela vontade de ver o rosto mais fino nas selfies, e os procedimentos mais buscados nos consultórios são baseados nos filtros do Instagram: rinoplastia, preenchimento dos lábios, na região do blush e na mandíbula. Alguns pacientes nos trazem a foto dos seus rostos “filtrados” como referência do resultado esperado, o que é muito perigoso, porque jamais podemos prometer que o paciente irá ficar como se vê no filtro.

Vocês sabem que defendo uma beleza individualizada e natural, preservando as características únicas daquele paciente, sem grandes transformações ou exageros. Diante de qualquer procedimento estético é preciso que exista um alinhamento de expectativas em relação ao resultado esperado e, se for necessário, um acompanhamento multidisciplinar com setores da psiquiatria e da psicologia para entender se existem questões maiores de autoimagem, além de diminuir a ansiedade desse paciente, o que irá melhorar a sua qualidade de vida.

Dra. Letícia Nanci é médica do Hospital Sírio-Libanês, médica responsável pela Clínica Dermatológica Letícia Nanci; membro efetivo da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD); da American Academy of Dermatology (AAD) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCD).

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

Artigo publicado na edição 96 da revista Forbes, de abril de 2022.

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