Bilionário do mundo dos brinquedos aposta no crescimento do plástico biodegradável

GettyImages/ South China Morning Post
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Francis Choi Chee-ming aposta nos plásticos biodegradáveis para ganhar mais mercado também na área de brinquedos

Brinquedos são divertidos para a maioria, mas para o bilionário de Hong Kong Francis Choi Chee-ming são negócios sérios. Ele afirma que a Early Light International, empresa de capital fechado, é a maior fabricante de brinquedos do mundo. O segmento é a base de sua riqueza, mas agora seu patrimônio líquido de US$ 6,6 bilhões é baseado em uma variedade de negócios, todos sob a Early Light, como serviços automotivos, educação, desenvolvimento de propriedades e varejo de joias e relógios.

Sua mais recente diversificação é o plástico verde. Nos últimos dois anos, o magnata de 73 anos investiu US$ 100 milhões de seus próprios fundos na construção de uma moderna fábrica de resina bioplástica de cinco andares em Shaoguan, China. O edifício abrigará uma joint venture que ele estabeleceu com uma empresa dos EUA para fabricar plásticos ecológicos, baseados em um bioplástico chamado NuPlastiQ. A produção está prevista para começar ainda neste ano.

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Até agora, a pandemia não diminuiu esse novo empreendimento ou os outros negócios de Choi. No início de abril, ele diz que suas fábricas na China (em Shenzhen e Shaoguan) não tiveram casos de Covid-19 e que seus trabalhadores são principalmente residentes locais. “Felizmente, não temos casos suspeitos ou confirmados de Covid-19”, diz Choi, presidente da Early Light. O bilionário diz que nenhum pedido existente foi cancelado até agora.

Choi sobreviveu a muitas crises desde a fundação da Early Light, em 1972, quando tinha apenas 25 anos. Ele se lembra de noites sem dormir durante a epidemia de Sars em 2003, preocupando-se com a possibilidade de um surto atingir sua equipe, mas isso não aconteceu. Choi não quer correr riscos desta vez, no entanto, e diz que tomou medidas para monitorar a saúde de seus trabalhadores na China.

Sem preocupações com vírus, ele pode avançar a toda velocidade em seu empreendimento de plástico biodegradável. Sentado em seu escritório na sede da empresa em Hong Kong, que o executivo personalizou com um aquário de dez metros e uma cabeça de antílope, Choi segura o que parece ser uma sacola plástica comum.

“Isso será um grande negócio para nós”, disse ele, em entrevista realizada antes da pandemia. O NuPlastiQ usado para fazer esta sacola pode ser misturado com plásticos convencionais para criar brinquedos ou outros itens mais ecológicos. O produto está presente em uma série de caixas ecológicas: é fabricado com amido de planta e não com produtos petroquímicos e pode se decompor naturalmente se descartado em um aterro ou se for deixado submerso em água.

Para criar sinergias, a fábrica fica a poucos passos de seu complexo de fabricação de brinquedos de quase dois milhões de metros quadrados em Shaoguan. Seu parceiro nos EUA na joint venture é a BioLogiQ, com sede em Idaho, empresa na qual Choi também é acionista. A planta de Choi em Shaogaun não apenas fabricará bioplásticos para as instalações de brinquedos ao lado, mas também produzirá outros produtos usando bioplástico, como utensílios de cozinha, móveis e eletrodomésticos.

Embora a aposta de US$ 100 milhões de Choi seja modesta em comparação com seu patrimônio líquido de US$ 6,6 bilhões, é uma boa garantia contra os custos trabalhistas mais altos em toda a China, um aumento de mais de 70% em média na última década. Para combater isso, Choi gastou milhões para automatizar suas fábricas para reduzir os custos de mão-de-obra. Até agora, ele conseguiu reduzir pela metade sua força de trabalho total passando de 80 mil trabalhadores em 2008 para 40 mil. (Por ser uma empresa privada, Choi não revela o quanto está perdendo ou mesmo quais são suas receitas, embora reconheça que suas margens estão encolhendo.)

Choi também está sendo pressionado por sua estratégia de fabricação apenas na China. Em vez de diversificar a produção para as fábricas no sudeste da Ásia, como outros fizeram, ele manteve toda a produção de brinquedos no continente. Choi insiste que esta é a abordagem correta. A mudança para o Sudeste Asiático, ele diz, lembra quando as empresas de Hong Kong, há quatro décadas, transferiram a produção para Taiwan (quando os custos em Hong Kong aumentaram). “Depois de alguns anos, todos voltaram porque Taiwan ficou muito caro e era difícil encontrar mão-de-obra”, diz ele.

Assim, sua aposta bioplástica mata dois coelhos com uma cajadada só. Choi está criando outro fluxo de receita para diversificar ainda mais os brinquedos, e está buscando controlar (e lucrar) com um dos principais custos de seu negócio de brinquedos: o plástico usado para fabricá-los. Fazer mais do que plástico para brinquedos permitirá economias de escala para a instalação. “Estaremos em produção [neste ano] com certeza”. diz seu filho Karson Choi, 34 anos, que é vice-presidente da Early Light. “Quando tudo estiver estável, produziremos em massa.”

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Os bioplásticos são um mercado promissor em crescimento, pois a conscientização ambiental aumenta em todo o mundo. Em 2019, o mercado global de bioplásticos valia US$ 7 bilhões e deve crescer 16% anualmente nos próximos cinco anos, de acordo com a empresa pesquisadora Fortune Business Insights de Pune, Índia. Choi está apostando que será capaz de acompanhar esse crescimento.

“No futuro, o mundo precisa disso [bioplástico]”, diz Choi. A demanda está aumentando para que o plástico verde seja usado em brinquedos com outros produtos. “Um grande número de empresas de brinquedos vem adaptando materiais sustentáveis, não apenas em relação aos brinquedos, mas também à embalagem”, diz Jim Silver, CEO do site de análise de brinquedos TTPM, de Nova York.

Hasbro, Lego e Mattel estão entre as fabricantes de brinquedos que se comprometeram publicamente a produzir com materiais mais ecológicos.

No entanto, o mercado de bioplásticos também é competitivo, com produção de multinacionais como Cargill, Mitsubishi Chemicals do Japão e Total da França. As margens do bioplástico são mais baixas que as dos plásticos tradicionais devido aos custos mais altos para fabricá-los, diz o analista Himanshu Vasisht, da empresa de pesquisa indiana Mordor Intelligence. “Como uma indústria emergente, elas [empresas de bioplástico] quase universalmente perdem dinheiro”, diz Ken Furst, líder de testes de polímeros na empresa de pesquisa Freedonia Group, sediada em Ohio. A lucratividade “depende de uma maior adoção do material ou de grandes contratos com bens de consumo embalados”, diz Furst.

Choi confia que a joint venture será recompensada, apesar de relutar em discutir em detalhes sua vantagem competitiva ou estrutura de custos. Ele diz, no entanto, que seus plásticos baseados em NuPlastiQ podem ser vendidos como produtos premium, devido a uma “fórmula secreta” que os torna superiores à concorrência. Karson Choi também promete que em breve obterá lucros de “dois dígitos” no novo negócio. Seus mercados, afinal, incluem a China continental e o resto da Ásia. “Depois de trazer um negócio para a China, o volume aumenta”, diz Karson.

A parceira de Choi, a BioLogiQ, foi fundada em 2011 pelo empresário de Idaho, Brad LaPray, que permanece como CEO. Choi está planejando essa movimentação desde 2017, quando investiu pela primeira vez na BioLogiQ (sua participação e o valor investido não são divulgados). Choi realizou 18 meses de negociações para lançar a joint venture em Shaoguan. Nos EUA, a BioLogiQ usa amido de batata para produzir o NuPlastiQ, mas para a fábrica na China, diz Karson, o amido pode vir de milho chinês ou tapioca do sudeste asiático. “Precisamos adquirir muito material”, diz ele.

Então, como Choi compara os bioplásticos ao seu negócio de brinquedos? “Estes são brinquedos muito melhores!” ele exclama.

Sobrecarga de brinquedos

Brinquedos para crianças (e para adultos) podem ser encontrados em qualquer lugar dentro e fora do escritório de Choi. Dois Rolls Royce Phantoms e dois Porsches pretos idênticos estão estacionados em frente à sua sede em Hong Kong, perto da fronteira com Shenzhen. Os carros fazem parte de sua frota de 70 modelos. Desde 2005, a Early Light opera uma divisão de serviços automotivos chamada Fastwheel, com sede em Hong Kong, para comercializar e atender carros de alto padrão, como Aston Martins, Ferraris e Lamborghinis.

Choi começou o negócio, diz o filho Karson, porque possuía dois carros à prova de balas e não conseguia encontrar uma oficina especializada para repará-los.

Nascido em Xangai e criado na província de Guangdong, Choi diz que seus pais não podiam comprar o tipo de brinquedo que suas fábricas fazem hoje, então, ele brinca com produtos de gente grande. Pela área da recepção, passando pela Harley Davidson HOG vintage e três estátuas em tamanho natural de guerreiros romanos, está em exibição uma mesa de pingue-pongue envolta em vidro da Olimpíada de Pequim em 2008, forrada com troféus. Subindo uma escada em espiral, o espaço se abre para o escritório acarpetado de Choi. Fotos adornam todas as superfícies.

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Choi aponta para algumas imagens de si mesmo em uma corrida da Nascar, em Phoenix. Ele diz que comprou ações da International Speedway, operadora da Nascar, a US$ 2 por ação, e a vendeu em seu pico de quase US$ 46 por ação. Há uma foto dele com Priscilla Presley e outra com Donald Trump nas corridas. “Ele foi lá comigo, mas não temos negócios juntos”, diz ele. “Apenas assistimos à corrida.” A Early Light mantém uma longa relação comercial com a International Speedway, fabricando camisetas da marca Nascar, parafernália, troféus e carros de corrida em miniatura.

Ele também combina seu amor por barcos com seus negócios imobiliários. Enquanto sua equipe imobiliária procura investimentos residenciais em Melbourne e torres comerciais em Sydney, na Austrália, ele mudou três de seus barcos (sua coleção conta com mais de duas dúzias) para lá. “Eu gosto da Austrália”, diz Choi. “Eu gosto do oceano. Gosto de ir à Gold Coast para pescar.”

Choi ama seus carros e barcos, mas Karson só pensa em relógios.

Ele é o presidente do Unique Timepieces Watches Group de Hong Kong, formalmente conhecido como Halewinner Watches, que vende relógios de alta qualidade em Hong Kong e Macau.

A Early Light adquiriu a empresa por US$ 205 milhões em 2010. “Agora somos o maior varejista de relógios de Macau”, diz Karson.

História do plástico biodegradável

O bioplástico, embora esteja na moda hoje em dia, tem raízes que remontam a mais de um século. Parkesine, o primeiro plástico já fabricado, era um bioplástico e foi inventado em 1856 a partir da celulose encontrada nas plantas. Henry Ford usou material feito de soja para algumas peças de carros na década de 1930. Eventualmente, os petroquímicos substituíram as fontes orgânicas como matéria-prima do plástico. Apenas na década de 1990 foram encontradas novas formas para viabilizar comercialmente os bioplásticos. A demanda por bioplásticos cresceu e, até 2016, havia atingido quatro milhões de toneladas em produção anual, de acordo com a European Bioplastics, um grupo comercial da UE. A maior parte da demanda foi principalmente para sacos e filmes biodegradáveis, copos e recipientes.

O interesse inicial em bioplásticos surgiu da tentativa de encontrar alternativas mais baratas aos plásticos à base de combustíveis fósseis, diz Kent Furst, líder em prática de polímeros do pesquisador americano Freedonia Group. Mas quando os preços do petróleo despencaram com a revolução do gás de xisto em 2015, os custos de produção de plástico caíram com eles. “Os bioplásticos foram deixados de lado enquanto houve um novo investimento maciço em plásticos tradicionais”, diz Furst. No entanto, Furst observa que as novas tecnologias estão reduzindo o custo dos bioplásticos e aumentando a qualidade, tornando as alternativas ecológicas mais competitivas para uso em embalagens e produtos de uso único, como utensílios.

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