O banqueiro discreto

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Joseph Safra, que morreu de causas naturais em 10 de dezembro de 2020, aos 82 anos, deixando o posto de homem mais rico do Brasil e de maior banqueiro do mundo no ranking da Forbes

Seu José, como era chamado pelos mais próximos, era um empresário reservado e distante dos holofotes, apesar da envergadura de seus negócios e das generosas somas que destinava à filantropia: o banqueiro raramente concedia entrevistas ou circulava em público – com exceção de eventos culturais e de jogos do Corinthians, time que angariava sua total devoção. Debilitado pelo mal de Parkinson, doença que também acometeu seus irmãos Edmond e Moise, Joseph passou parte de seus últimos anos de vida ainda mais recolhido na Suíça, ao lado da esposa Vicky, sua companheira desde 1969.

A discrição, no entanto, só ajudou a intensificar o interesse por sua trajetória empresarial, que colocou o banco da família entre as maiores instituições financeiras da América Latina e inscreveu o sobrenome Safra no panteão dos grandes banqueiros mundiais.

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O talento bancário já estava no DNA de Joseph Safra, que nasceu em Beirute, no Líbano, em 1938, como caçula dos nove filhos (quatro homens e cinco mulheres) de Jacob e Esther Safra. Joseph e os irmãos eram integrantes da quarta geração de um clã de banqueiros que iniciou as atividades durante o Império Otomano. Criado em meados dos anos 1800 em Alepo, na Síria, o Safra Frères & Cie fazia empréstimos e câmbio entre moedas de países da Ásia, Europa e África a mercadores que se movimentavam em caravanas de camelos entre o Ocidente e o Oriente.

Nos anos 1920, depois da Primeira Guerra Mundial, Jacob se mudou de Alepo para Beirute, onde fundou o Jacob Safra Maison de Banque. Desde criança seu filho caçula já o acompanhava (chegou a trabalhar de mensageiro).

Busca de refúgio

Os Safra deixaram o Líbano nos anos 1950, durante a criação do Estado de Israel e devido à crescente instabilidade na região. Integrante de uma família judia sefardita, Jacob temia a hostilidade aos judeus e a eclosão de uma terceira guerra mundial. Por isso, decidiu migrar com mulher e filhos em busca de um país mais seguro e tranquilo para viver. Em 1953, acabou desembarcando em São Paulo, cidade que protagonizava um boom econômico e já abrigava uma grande colônia sírio-libanesa.

Joseph, no entanto, seguiu para a Inglaterra para completar os estudos. Tinha 14 anos. Passou ainda pelos Estados Unidos e pela Argentina antes de desembarcar no Brasil, em 1962. Juntou-se então ao pai e ao irmão Moise na instituição financeira fundada por eles dois anos depois de se instalar na capital paulista. Àquela altura, o irmão Edmond já se estabelecia no exterior, criando sua própria trajetória empresarial.

Com a morte do pai, em 1963, os irmãos assumiram o banco brasileiro. Em 1967, compraram o Banco Nacional Transatlântico, dando origem ao Banco de Santos. Nos anos seguintes, vieram outras aquisições, como o Banco das Indústrias. Em 1972, o grupo resultante foi oficialmente renomeado Banco Safra SA.

Estreia na Forbes

Com uma gestão conservadora, a instituição fez fama no mercado por sua solidez. Foi essa característica que atraiu para as fileiras do banco as tropas de afortunados que escolhiam a instituição como porto seguro para seu dinheiro. Com o crescimento das cifras, Joseph e Moise fizeram sua estreia na lista mundial dos bilionários da Forbes no ano 2000, com uma fortuna conjunta de US$ 3 bilhões. Em 2006, Joseph passou a figurar sozinho no ranking, depois de comprar a parte do irmão no grupo, que já incluía o Banco Safra, o Safra National Bank of New York, nos EUA, e o Banque Safra-Luxembourg, na Europa. A transação, de valor não revelado, unificou os negócios dos irmãos e encerrou um embate que vinha desde a morte de Edmond, em um trágico incêndio em Mônaco, em 1999.

Sob o comando de Joseph, o grupo Safra não apenas encorpou sua musculatura como fez movimentos ousados, como a compra do banco suíço Sarasin, em 2012, logo depois da crise global que varreu alguns gigantes financeiros do mercado. A aquisição, por US$ 1,12 bilhão, dobrou o volume de recursos sob sua gestão.

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Imóveis e bananas

Outra jogada surpreendente veio em 2014, quando Safra comprou a americana Chiquita Brands International, uma das maiores produtoras mundiais de bananas, em sociedade com o brasileiro José Luís Cutrale – outro empresário discretíssimo. O negócio de US$ 1,3 bilhão fez os Safra ampliarem sua diversificação, iniciada nos anos 1980 com a compra de uma fatia da empresa de celulose Aracruz.

No fim dos anos 1990, Safra também participou da criação da empresa de telefonia celular BCP, que se tornou a segunda maior do setor no Brasil. Resultado de sociedade com a BellSouth, a companhia acabou vendida para a América Móvil em 2003.

Depois dos negócios financeiros, um braço importante do grupo são os investimentos imobiliários. O conglomerado da família é dono de mais de uma centena de grandes imóveis ao redor do globo, alguns deles emblemáticos, como um prédio comercial na Madison Avenue, em Nova York, adquirido por US$ 285 milhões. Há ainda o Gherkin Building, de Londres, comprado em 2014 por US$ 1,15 bilhão.

Um dos mais famosos imóveis de Joseph Safra, no entanto, fica no bairro Morumbi, em São Paulo. A mansão que serviu de residência ao banqueiro é uma das maiores do Brasil. Segundo registros da prefeitura de São Paulo, o palacete ocupa um terreno de 11 mil metros quadrados e soma 130 cômodos distribuídos em cinco andares, com IPTU de cerca de R$ 1 milhão. Recheada de obras de arte, a residência foi palco de luxuosos jantares, sempre vetados a paparazzi.

Filantropia

Na mesma proporção de seus negócios, Joseph Safra era conhecido pelas generosas doações a causas sociais, médicas e culturais. Ajudou a financiar a construção e reforma de hospitais, creches, museus e templos religiosos. Financiou a construção de sinagogas e foi um dos maiores doadores dos hospitais Albert Einstein e Sírio-Libanês, em São Paulo.

A longa lista de instituições beneficiadas incluía ainda associações beneficentes como a Fundação Dorina Nowill para Cegos, a Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer, a Associação de Assistência à Criança Deficiente e a Apae. Durante a pandemia, o banco doou cerca de R$ 40 milhões a hospitais e Santas Casas para a compra de ventiladores pulmonares.

Grande amante das artes, ele doou esculturas de Rodin, Aristide Maillol e Camille Claudel à Pinacoteca de São Paulo e o manuscrito original da Teoria da Relatividade de Albert Einstein ao Museu de Israel, em Jerusalém. Por meio do Instituto J.Safra, também patrocina artistas brasileiros.

Sucessão

Desde o início dos anos 2000, Joseph Safra vinha preparando sua sucessão. Os herdeiros Jacob, Alberto e David já estavam à frente dos negócios do banco, que gerencia ativos da ordem de R$ 233 bilhões. O primogênito Jacob comanda os negócios internacionais do grupo, com sede na Suíça. Isso inclui o J. Safra Sarasin, o Safra National Bank of New York e os empreendimentos imobiliários fora do Brasil.

Já as operações brasileiras eram divididas entre Alberto e David. O último, o caçula dos quatro filhos do banqueiro, assumiu em 2010 como membro do Conselho de Administração, além de comandar o banco de investimentos e a área de pessoa física. Alberto cuidava da área de clientes corporativos até 2019, quando deixou o grupo para tocar outro projeto.

Entre os quatro filhos de Safra com a mulher Vicky, apenas Esther não trilhou os passos da família no mercado financeiro. Casada com o banqueiro Carlos Dayan, do banco Daycoval, ela é diretora da escola judaica Beit Yaacov, em São Paulo. Os quatro herdeiros já detêm cotas de acionistas no Banco Safra, segundo documentos regulatórios. Além dos filhos, Joseph Safra deixou 14 netos.

Reportagem publicada na edição 83, lançada em dezembro de 2020

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