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“Vivemos um momento em que escancaramos a importância de olhar para o coletivo”, diz Rodrigo Pipponzi, cofundador da Editora MOL

Integrante da terceira geração da família fundadora da Droga Raia é o quinto entrevistado do Forbes CX Series.

Flavia Camanho
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Formado em administração de empresas, Piponzi decidiu seguir o seu próprio caminho no empreendedorismo e fundou a Editora MOL

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Rodrigo Pipponzi, da terceira geração da família fundadora da Droga Raia, é o quinto entrevistada do Forbes GX Series, uma série comandada por Flavia Camanho Camparini, especialista em governança familiar e estratégia de desenvolvimento humano, fundadora do Flux Institute e professora convidada dos programas do IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa), FBN (Family Business Network) e FIESC (Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina), com apoio da PwC.

Formado em administração de empresas, Piponzi decidiu seguir o seu próprio caminho no empreendedorismo e fundou a Editora MOL, que trabalha com impacto social. Na entrevista, ele fala sobre a importância da autenticidade e do sonho individual. Leia, a seguir, a entrevista na íntegra:

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Flavia Camanho: Quem é você?

Rodrigo Pipponzi: Eu sou Rodrigo Pipponzi, da terceira geração da família fundadora da Droga Raia. Meu avô foi a pessoa que conduziu a Droga Raia desde os anos 80 e a transformou em um grande conglomerado do varejo farmacêutico, que se fundiu com a Drogasil em 2011 e hoje é o grupo Raia Drogasil. Mas a minha história, apesar de se confundir um pouco com a empresa, não foi trilhada ali dentro. Acho que eu sou uma dessas figuras rebeldes dentro do universo de empresas familiares. Muito cedo, eu entendi que, por mais que eu valorizasse aquilo, eu precisava trilhar meu caminho em outro lugar.

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Hoje, sou empreendedor social. Eu fundei um negócio de impacto social chamado Editora MOL, que é uma editora que trabalha em parceria com o varejo. Então, eu nunca deixei o varejo sair da minha vida, mas trabalho com muitas outras redes além da Raia Drogasil. Nosso trabalho é vender produtos editoriais – livros, revistas, calendários – no caixa das redes farmacêuticas por preços acessíveis, revertendo parte do valor para organizações sociais.

É um trabalho que eu executo desde 2007 com a minha sócia Roberta Faria, e que hoje já permitiu que a gente doasse mais de R$ 40 milhões para mais de 100 organizações sociais. Tenho muito orgulho de poder me definir como empreendedor social porque, de alguma forma, eu sempre entendi que podia aproveitar todo o meu legado para olhar para a sociedade.

FM: Como você se percebeu membro de uma família empresária? Quando caiu a ficha de que tinha uma empresa por trás da história da sua família?

RP: Foi muito cedo, porque o contexto da família acompanhou muito o crescimento da empresa. Quando eu nasci, a Raia tinha sete lojas, então era um negócio relativamente pequeno ainda e super familiar. Então, sempre se confundiu de alguma forma. Eu sempre brincava que os almoços de família aos domingos – ou os jantares de segunda-feira, que também eram uma tradição – se confundiam muito com as reuniões de negócio. Muitas vezes a pauta era essa, então esse sempre foi um contexto presente.

FM: Vindo de uma família onde o tema negócios era tão presente, como foi encontrar o seu lugar no mundo?

RP: Avaliando hoje, para mim o processo foi muito natural, apesar de não ter sido tão natural para o resto da família. Quando eu terminei o colégio, decidi fazer administração de empresas. Talvez isso tenha parecido um caminho natural – fazer administração de empresas em um contexto de empresa familiar em crescimento. Mas minha motivação não era essa. Eu queria fazer administração porque talvez aquilo já se conectasse um pouco com o estilo de liderança que eu tinha na adolescência. Sempre fui um cara muito mão na massa e sempre gostei de fazer as coisas e de unir as pessoas em prol de objetivos. Participava de esportes competitivos, como o futebol, então isso fazia parte da minha personalidade e eu entendia que aquela faculdade poderia me preparar para voos fora da empresa.

Depois que eu terminei o colégio e fui prestar a faculdade – fiz a GV aqui em São Paulo – eu tinha isso claro para mim: aquilo poderia ser uma porta para eu realmente pensar o que eu gostaria de fazer. E, ao mesmo tempo, eu tinha uma intuição de que eu não deveria estar dentro do negócio da família. Eu achava que isso ia preservar melhor a minha relação com o meu pai, com os meus primos e, eventualmente, com os meus irmãos se eles entrassem no negócio também. Hoje, parece muito natural, mas na época não foi.

Quando eu estava para terminar a faculdade de administração, resolvi prestar jornalismo. Passei, fiz três anos na PUC e só larguei por conta da experiência empreendedora, que nessa época começou a tomar conta do meu tempo. Mas eu lembro de quando fui contar para o meu pai que não queria trabalhar na Raia, que queria empreender. Fui contar que ia abrir um estúdio de design e ilustração com um amigo e ele não entendeu nada. Me disse: “Você tá louco? Fez administração de empresas na GV. Nosso negócio está bombando. Por que você está inventando de empreender e fazer jornalismo?”

Eu tinha uma convicção absurda naquilo, mas causou muita estranheza familiar. Eu pulei de cabeça porque sempre fui assim. Sempre tive muita segurança nas minhas decisões. Não era um plano B e isso é uma coisa que me orgulha muito. Eu construí tudo na minha vida empreendedora sem um centavo dos meus pais, apesar do estigma dizer o contrário. Até hoje eu escuto algumas pessoas dizendo que é fácil quando se tem o dinheiro do pai, e eu nunca tive um centavo de investimento da minha família no meu negócio. Eu sempre fui crescendo de forma orgânica: um estúdio de design que se tornou uma editora. Muito cedo, fomos trabalhar com a editora Abril, que era uma escola editorial. Eu sou muito grato por ter vivido aqueles anos de ouro na editora Abril, onde a gente aprendeu muito. Foi lá que eu conheci a minha sócia, a Roberta, e foi onde eu realmente entendi o que era produzir conteúdo de qualidade.

Acho que a grande virada dessa história foi quando as coisas se conectaram. Em 2007, eu já fazia alguns trabalhos voluntários para o GRAACC (Grupo de Apoio ao Adolescente e Criança com Câncer) aqui em São Paulo. Prestávamos uma série de serviços voluntários com o nosso estúdio e, observando o desafio de captação que a instituição sofria, tivemos a ideia de fazer uma revista que pudesse reverter o seu lucro para o GRAACC. Mas, na época, tínhamos aquela ideia original de que revistas eram vendidas apenas em bancas, então pensamos em vender lá. Quando fomos conversar com a distribuidora, era absolutamente impossível fechar um modelo de negócio que gerasse lucro o suficiente e pudesse nos custear, então aquilo não ia atender o nosso desejo de apoiar o GRAACC.

Foi aí que tivemos um estalo e pensamos: por que não vendemos na Raia? Por que não vendemos na farmácia? Lá temos ponto de venda, clientela, caixa e baixa concorrência, além de uma eficiência absurda porque conseguimos calcular o valor real de venda. Podemos fazer um preço baixo, porque conseguimos subsidiar com patrocinadores. Claro que eu tinha uma super facilidade de conseguir me conectar com a empresa familiar na hora de vender a ideia. E acho que isso mudou tudo, porque em março de 2008 a gente lançou essa revista, a Sorria. Ela foi um baita sucesso. Vendemos 120 mil unidades em três semanas. A primeira edição doou R$ 277 mil e, ao final do ano, com seis edições, já tínhamos doado R$ 1,6 milhão.

E, de repente, aquilo chamou atenção. Criamos um modelo de negócio que arrecadou R$ 1,6 milhão em um ano apenas vendendo revistas na farmácia. Para mim, era uma coisa muito legal, porque era uma forma de me conectar e gerar valor social para o negócio da família e, ao mesmo tempo, crescer o meu próprio negócio. Em 2013, construímos um hospital para o GRAACC com os recursos da Sorria. 70% da obra civil foi construída com recursos da Sorria e, naquele momento, quando eu vi aquele hospital pronto, entendi que a gente tinha que escalar aquele modelo para outros varejos. Aquilo virou um grande objetivo para mim. Eu tinha muita intuição e, naturalmente, já tinha conhecimento do modelo e dos resultados concretos para saber que era possível migrar para fora do universo da família.

Hoje, a MOL está em 12 varejos – 12 grandes redes. Recentemente, batemos o recorde de maior doação da história da MOL em um único projeto, e não foi na Raia, foi na Petz. Um álbum de figurinhas que doou mais de R$ 500 mil. Estou falando de uma rede que tem 130 lojas. A Raia tem mais de mil. Então, a gente realmente conseguiu consolidar um modelo de negócios que foi pilotado dentro da família e gerou muito valor pro negócio. A ponto de hoje a Raia Drogasil ser uma referência na agenda ESG. Recentemente, eles anunciaram 35 compromissos públicos na agenda 2030. Tem uma baita equipe de investimentos sociais. Um trabalho de referência no Brasil. E eu tenho um super orgulho de dizer que comecei essa agenda e, paralelamente, construí um negócio de impacto social que já doou mais de R$ 40 milhões.

FM: Que legado você está construindo? Que marca você quer deixar no mundo?

RP: Vivemos um momento em que escancaramos a importância de olhar para o coletivo. Nunca imaginamos viver o que vivemos hoje. Isso se conecta muito com o legado que eu busco. O dia que eu não estiver mais neste planeta, espero realmente ter feito a diferença. Não só para a minha família e para os meus filhos, mas também para quem está em volta. O grande legado que eu quero deixar é esse, de realmente entender que eu sou muito privilegiado, que pude experimentar coisas que a enorme parcela da população não pode, e que não faz o menor sentido eu usar isso só para mim ou só para a minha família.

Acho que eu consegui ver potência através do trabalho. Eu consigo hoje ter um lugar onde eu vou trabalhar e sei que estou fazendo a diferença na vida de outras pessoas. Uma vez meu filho perguntou: “pai, qual é o seu trabalho?” E eu falei que o meu trabalho era ajudar as pessoas. Porque realmente essa foi a primeira resposta que surgiu para explicar da forma mais simples possível para uma criança de cinco anos. Desde aquele dia, eu entendi que meu trabalho realmente é esse. É à serviço disso que eu estou por aqui, só que de uma forma estruturada.

Eu realmente não acredito em um mundo onde a gente tenha tanta desigualdade. Onde alguns podem experimentar tanto, enquanto falta água, comida no prato e saneamento básico para outros. Então eu não tenho dúvidas de que o que eu quero estabelecer como legado na minha vida é a busca de uma sociedade mais igualitária. Que a gente possa entender que vivemos uma fase muito mais de distribuir do que de acumular.

Esse é o grande ensinamento que eu passo para os meus filhos e é isso que eu faço no meu dia a dia para poder realmente transformar esse país, porque eu acredito no Brasil. Muita gente diz que vai embora, mas eu acredito demais no país. Eu tenho esse privilégio de conviver com tantas histórias através dessas organizações que a gente apoia. São mais de 87 mil funcionários dessas redes parceiras da MOL. Imagina quantas histórias escutamos. Então, a hora que você tem contato com a realidade, você entende que existe solução. A gente consegue sair da onde estamos. Conseguimos mudar esse país, só precisamos ser persistentes e criativos.

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