Liderança feminina: o que podemos aprender com outras mulheres

Marina Daineze relembra sua trajetória como profissional e comemora o aumento de mulheres em cargos altos nas empresas.

Marina Daineze
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monkeybusinessimages/Getty Images
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Cada mulher que encontra a própria maneira de liderar deve compartilhar sua história com outras

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É inegável que estamos testemunhando o surgimento de uma nova geração de mulheres líderes. Mesmo diante de tantos desafios e espaços estreitos dentro das corporações, as discussões sobre diversidade têm se tornado relevantes demais para não olharmos para o futuro – não tão distante – com certo otimismo.

É interessante observar também que diversidade não se aplica somente a mulheres, mas a todas as maiorias minorizadas que têm acesso limitado a estes espaços de poder. Dentre todas as transformações responsáveis por este avanço, pessoalmente vejo que a representatividade é a principal por alavancar pessoas que jamais imaginariam chegar no topo. Ter em quem se espelhar no começo da trajetória é determinante para saber que podemos ir mais longe, por isso é tão importante contar histórias. E por isso estou aqui para contar a minha.

Quando iniciei minha carreira, há 20 anos, diversidade não era um tema discutido nas empresas, ou em lugar algum. Quando era estagiária, recebi um conselho de uma alta liderança feminina que me marcou para o resto da vida: “Para crescer na carreira é preciso se portar e agir como um homem”. Por mais absurdo que isso possa soar hoje, na época parecia fazer sentido. As únicas mulheres que víamos no poder eram aquelas que se vestiam com um estilo profissional mais masculino, de forma mais sóbria, séria, que tinham grandes ambições de carreira e demonstravam extrema firmeza em tudo que faziam e falavam. Essas eram as referências, não havia nada diferente.

Quando digo que este conselho me marcou, foi porque, de alguma forma, eu já sabia que aquele não era o meu caminho. Sempre tive características mais associadas ao universo feminino, como sensibilidade ou timidez. Abraçar esta recomendação seria abrir mão do meu estilo de liderança e ter que me adaptar a um molde que não me cabia.

No entanto, aquela fala me ajudou a compreender os desafios que enfrentaria para conquistar meu espaço e encontrar um equilíbrio entre me adaptar ao contexto e, ao mesmo tempo, ser fiel a mim mesma. O que veio a seguir foi um aprendizado e uma construção na prática. Hoje, olhando em retrospectiva, identifico que abracei três caminhos que me ajudaram a nortear esta trajetória:

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Conhecimento

Nós, mulheres, somos especialistas em nos preparar com conhecimento técnico, porque naturalmente o mundo exige provas de tudo que falamos ou fazemos. Os indicadores sociais das mulheres no Brasil confirmaram que nós nos dedicamos mais aos estudos: segundo o IBGE, na população com 25 anos ou mais, 19,4% das mulheres tinham nível superior completo em 2019 e entre os homens este percentual chegava a 15,1%. Na faculdade, meu caderno morava no xerox, pois eu fazia anotações muito detalhadas que acabavam ajudando meus colegas também. Quando ingressei no mercado de telecomunicação, entendi que conhecer (e continuar sempre aprendendo) sobre o negócio seria essencial para construir um repertório que me desse segurança para realizar meu trabalho. Isso foi fortalecendo meu conhecimento e solidificando a base sobre a qual eu construiria minha carreira dali em diante.

Autoconhecimento

Mas ter todo o conhecimento do mundo sem autoconhecimento é contraproducente. O mundo dos negócios é repleto de desafios, e conforme crescemos na carreira novas e mais complexas habilidades são exigidas. Saber quem somos intimamente não somente ajuda a instrumentalizar aquilo que temos de melhor – nossas fortalezas – como também aponta os caminhos para o aperfeiçoamento. Este caminho será a base para desenvolver a capacidade de liderança.

Colaboração

Por mais conhecimento que você tenha e maior consciência do seu potencial, você não vai muito longe sozinha. Ainda que fosse, chegaria a um lugar vazio. Quando as mulheres se unem, constroem uma força colaborativa fora do comum.

Ter uma rede de apoio é essencial para uma caminhada de sucesso no mundo dos negócios. Lembrando que colaboração é uma via de mão dupla: contribuir e buscar ajuda sempre que preciso. Sabendo que da mesma maneira que você contribui com os outros, eles poderão ajudar você nos seus desafios. Não esqueça de adicionar homens brilhantes a esta rede – eles são essenciais.

Veja que em nenhum momento eu citei algum padrão no qual se espelhar. Estas foram só as lições que minha experiência me trouxe. É claro que a inspiração feminina vem de muitos lugares e agora elas estão cada vez mais presentes nas cadeiras de CEO, nas revistas de negócios e nas grandes histórias de mulheres em diversas áreas de atuação. Mas a maior referência pode vir de dentro. Vejo a adaptação da liderança feminina mais como uma interlocução do que o simples ato de ceder às pressões externas. Temos uma grande vantagem nestes tempos em que a vulnerabilidade, a colaboração e a sensibilidade na gestão são, por exemplo, consideradas importantes fortalezas. E não conheço vulnerabilidade maior do que sermos nós mesmas.

Sei que ainda temos muitos desafios no ambiente corporativo. Ações consideradas mais masculinas são às vezes mal interpretadas quando partem de mulheres. Por exemplo, quando a mulher tenta ser direta no jeito de falar pode ser considerada grossa. Se um homem faz o mesmo, é objetivo. Se um homem acelera o passo para melhorar os resultados, ele é brilhante; se a mulher faz o mesmo, é um trator. Se ele grita, ele é enérgico, mas quando ela grita, é descontrolada.

Acredito que uma vez estabelecidos os limites externos, cabe a nós entendermos como agir dentro dos nossos limites internos. Não existe apenas um modelo de liderança, aquele que me foi sinalizado 20 anos atrás. Eles são múltiplos, pois refletem o conjunto de valores e trajetória de cada uma. Cada mulher que encontra a própria maneira de liderar deve compartilhar sua história com outras. Não para criar modelos engessados, do que fazer ou não, mas como incentivo para que cada uma revolucione sua carreira à própria maneira.

Marina Daineze Keresztes, diretora de Marca e Comunicação da Vivo, atua no mercado de telecom há 15 anos. Desde sua chegada à Vivo como trainee, acumulou passagens em diferentes áreas, liderando projetos de marca em momentos como fusões de operações e reposicionamento. Sob sua gestão estão o Hub de Conteúdo VivoOn e as áreas de Mídia, Comunicação, Branding, Trade Marketing, Eventos e Patrocínios Culturais e Esportivos. A executiva é graduada em Comunicação Social pela Universidade de São Paulo, com MBA Executivo em Marketing na ESPM.

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