Como ações práticas podem transformar o ecossistema de startups

Cenário de inovação do país traz baixa representação de pessoas negras e, principalmente, quase nenhuma mulher negra como líder de negócios que recebem aportes na casa dos bilhões

Maitê Lourenço
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Thomas Barwick/Getty Images
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Carreiras de exatas ainda hoje são vistas como masculinas, desestimulando mulheres, pessoas negras e periféricas a ingressarem no mercado de tecnologia

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No primeiro semestre deste ano, 250 startups se tornaram unicórnios no mundo. Liderando o time de startups bilionárias estão os Estados Unidos, com 161, seguido pela China e Canadá com 10 cada, segundo dados do Crunchbase. No mesmo período, nós no Brasil, tivemos dois novos unicórnios brasileiros: MadeiraMadeira e Hotmart.

Um pouco diferente do cenário das microempresas, onde 51% de empreendedores se declaram como pretos e pardos, o ecossistema de startups traz baixa representação de pessoas negras e principalmente quase nenhuma mulher negra como líder de negócios inovadores que recebem aportes financeiros na casa dos bilhões.

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O porquê do nosso ecossistema de startups ser liderado por homens e brancos se dá por motivos historicamente negados como privilégios, manutenção de uma hierarquia ainda escravocrata que transforma funções lidas como de destaque sendo pertencentes a estes grupos como, por exemplo, as carreiras de exatas que ainda hoje são vistas como masculinas, desestimulando mulheres, pessoas negras e periféricas a ingressarem no mercado de tecnologia. Para se ter uma ideia, onde há apenas dados de gênero, as mulheres representam apenas 18% dos graduados em ciência da computação e 25% dos empregados em áreas técnicas de tecnologia da informação (TI) no Brasil, de acordo com o levantamento realizado pelo programa YouthSpark, da Microsoft.

Considerando aspectos sobre a população negra, temos a falta de acesso a capital e mentoria para o desenvolvimento de seus projetos com um dos principais entraves para se ter proporcionalidade inovadora deste grupo. A prova para tudo isso está nos resultados da pesquisa que nós, da BlackRocks Startups, realizamos em parceria com a consultoria Bain & Company. Entrevistamos mais de 30 agentes do ecossistema de startups e levantamos outras pesquisas que apontaram que somente 32% dos negócios de inovação tecnológica liderados por pessoas negras receberam aporte, e apenas 49% passaram por programas de aceleração e outras iniciativas de fomento – para não-negros, foi de 57%.

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Mas como mudar isso? Com ações práticas. E quero compartilhar com você como temos feito isso.

Na primeira edição do Grow Startups, nosso programa de aceleração para startups lideradas por pessoas negras, criamos uma meta de termos pelo menos 20% de mulheres negras líderes das startups. Na primeira edição tivemos 28% de mulheres como finalistas do processo de seleção e assim alcançamos a meta que nos comprometemos. Negócios como a Viverde Casa, de Camila Viegas, que realiza matchmaker e capacita profissionais para o mercado de construção civil, e a lawtech Unicainstância da Sara Raimundo, de inteligência artificial responsável por predizer ações judiciais de cobranças indevidas em contas de consumo. Além disso, 77% das startups aceleradas nesta edição, que terminou em março deste ano, melhoram sua performance financeira, com um aumento de 89% dos clientes e 55% do faturamento, e têm a expectativa de captar investimento nos próximos seis meses, uma quebra de paradigma para o mercado brasileiro.

Realizar programas de aceleração não é nada novo, no entanto, negócios em pré-operação e operação ainda são vistos como zona de risco para investidores e aceleradoras que “preferem” atuar, em sua grande maioria, com negócios mais maduros. Para nós, há uma grande gargalo entre as etapas iniciais e negócios em fase de escala e posso afirmar que com fomento e interesse real de criar oportunidades este abismo pode ser bem menor.

Em relação à capacitação, desenvolvimento profissional e discussões sobre o futuro, realizamos desde 2017 o Arena BlackRocks, um festival de inovação que tem como objetivo conduzir a população negra para o protagonismo sobre as temáticas: inovação, tecnologia e negócios digitais. Na edição de 2020, realizamos o festival totalmente online, com a participação de mais de 3 mil pessoas e o tema principal foi transformação digital. Tivemos mais de 90 horas de conteúdo e neste ano de 2021 voltaremos a fazê-lo, agora, com a temática inteligência artificial, conduzindo os participantes para discussões sobre: indústria 4.0, algoritmos, ciências de dados, cyber security e justiça algorítmica. Esperamos que seja mais um evento histórico e que possa contribuir cada vez mais com as discussões que se fazem presentes sobre inteligência artificial hoje em dia.

Outra iniciativa que estamos realizando é o Quartzo, um programa de aceleração focado na transformação digital e de impacto social de empreendimentos tradicionais liderados por mulheres negras do Rio Grande do Norte. Ao todo, 17 empreendedoras participam de um processo de imersão de quatro meses que visa incentivá-las a ocupar mais espaço e posições de autonomia.

E essa é a minha proposta para um Brasil que tenha a inovação como um diferencial competitivo: que ela quebre paradigmas da base ao topo da pirâmide, tendo a diversidade racial como sua maior bandeira.

Maitê Lourenço é fundadora e CEO da BlackRocks Startups, que incentiva os negros a acessarem ecossistemas inovadores e de tecnologia.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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