IPO da Palantir Technologies impulsiona fortunas bilionárias de seus executivos

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A Forbes estima que Alexander Karp agora tenha um patrimônio de US$ 1,1 bilhão.

Depois de quase duas décadas como uma das empresas mais protegidas do Vale do Silício, a especialista em mineração de dados Palantir Technologies finalmente abriu capital nesta quarta-feira (30), em um incomum processo de listagem direta. Após um esperado atraso na primeira negociação, a Palantir abriu às 13h40 no mercado oriental a US$ 10 por ação, acima do preço de referência de US$ 7,25 que a empresa estabeleceu na noite de terça-feira (29). Atingiu US$ 11 às 13h50.

Em uma listagem direta, a empresa não levanta recursos para si mesma. Em vez disso, os acionistas existentes têm a chance de vender.

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O polêmico investidor Peter Thiel, que fundou a Palantir em 2003 e financiou a empresa nos primeiros anos, será o maior beneficiado.

Thiel e três empresas de investimento que ele fundou, Founders Fund, Clarium Capital e Mithril Capital, possuíam um total de 17,7% da Palantir antes da oferta, segundo um documento regulatório. A Forbes estima que Thiel possui uma participação de 8% diretamente e por meio dos fundos, no valor de US$ 1,9 bilhão se contabilizarmos US$ 11 por ação. Thiel e os fundos que ele administra estão registrados para vender até 62 milhões de ações na oferta, ou 15,8% de sua participação. 

O CEO da Palantir, Alexander Karp, que chamou a riqueza de “culturalmente corrosiva”, possuía 5,6% da empresa antes da oferta. O executivo registrou 20,5 milhões de ações na oferta, o que significa que ele pode vender algumas ou todas no processo, arrecadando até US$ 200 milhões ou mais, sem impostos. A Forbes estima que Karp agora tenha um patrimônio de US$ 1,1 bilhão.

A Forbes classificou Karp como bilionário pela primeira vez em 2015, quando a Palantir levantou US$ 400 milhões e foi avaliada em US$ 15 bilhões – Karp possuía cerca de 8% da empresa na época.

Representantes da Palantir não responderam às perguntas da Forbes sobre as participações de Karp e Thiel, citando regulamentos da Comissão de Títulos e Câmbio dos Estados Unidos. 

Desde sua gênese em 2003 até os dias atuais, os negócios da Palantir estão envoltos em sigilo. Criada após o 11 de setembro, a empresa atendia inicialmente apenas clientes do governo, como o Departamento de Defesa e o Exército dos EUA (seu primeiro investidor externo foi a In-Q-Tel, o braço de risco da CIA). Seus produtos permitem que as agências compartilhem, classifiquem e interpretem com segurança informações confidenciais de diferentes fontes de maneira eficiente. A empresa também emprega analistas humanos para ajudar a interpretar esses dados. Este modelo híbrido tornou mais difícil que investidores e bancos avaliassem a empresa ao longo dos anos. Ela deixou de trabalhar para clientes governamentais para assumir clientes corporativos em 2010, incluindo BP, Airbus e Credit Suisse.

Outrora uma das startups mais valiosas do mundo – alcançando US$ 20 bilhões em 2016 -, a Palantir Technologies divulgou receitas de US$ 742,6 milhões em 2019, um aumento de 25% em relação ao ano anterior. Até agora, foi um forte 2020 para a companhia: US$ 431 milhões em receitas de 125 clientes nos primeiros seis meses, um aumento de 49% em relação ao mesmo período do ano passado. Porém, ainda não obteve lucro. Em seu processo regulatório, a empresa divulgou um prejuízo líquido de quase US$ 580 milhões em 2019. Já no primeiro semestre de 2020, relatou um prejuízo líquido de US$ 164,7 milhões, contra um prejuízo de US$ 280,5 milhões nos primeiros seis meses de 2019. É outro grande nome da tecnologia que perde dinheiro.

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Os documentos da empresa protocolados na Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos também revelam um complicado acordo entre Thiel, Karp e o presidente da Palantir, Stephen Cohen, dando aos três executivos um mínimo agregado de 49,9% do controle de voto, mesmo que vendam uma quantidade significativa de ações. Os críticos foram rápidos em abordar essa forma de governança corporativa, chamando sua estrutura de “flagrante” e “uma oligarquia de três”. Uma pessoa não está preocupada: Joe Lonsdale, um dos cofundadores da Palantir, que deixou a empresa em 2009 mas continua sendo um acionista importante, de acordo com o prospecto.

“Se eu estivesse lá, teria mudado as regras sobre quanto eles poderiam vender enquanto ainda estivessem totalmente no comando”, Lonsdale disse à Forbes. “Mas Stephen, Alex e Peter são pessoas muito diferentes e com princípios sólidos. Eles discordam um do outro às vezes. O fato de haver três deles é um sinal muito positivo.”

Palantir também ficou em maus lençóis nos últimos anos com seu trabalho com agências governamentais, especialmente seus contratos com o Departamento de Segurança Interna (DHS) e a Agência de Imigração e Fiscalização Alfandegária (ICE). Os críticos afirmam que essas agências usaram a tecnologia Palantir para conduzir ações contra os migrantes e, em alguns casos, separar os pais dos filhos à força. Dias antes da listagem direta, a Anistia Internacional, organização de direitos humanos, publicou um relatório detalhando o envolvimento da empresa em incidências de imigração problemáticas e afirmou que a Palantir “tem a responsabilidade de evitar a agressão aos direitos humanos”.

Mas Lonsdale diz que não é papel da Palantir mudar a política ou ditar que tipo de trabalho uma agência governamental realiza. “Podemos discutir o dia todo sobre qual deveria ser a política. Talvez haja certas coisas que as pessoas da inteligência não devam ver”, diz Lonsdale. “Esse argumento político é aquele que deve ser mantido entre nosso governo e nossa população. Mas, uma vez que você tenha as regras definidas, deve agir com eficiência e não desperdiçar bilhões de dólares.”

Thiel fundou a Palantir em 2003, um ano depois de vender o PayPal para o eBay por US$ 1,5 bilhão, com Lonsdale, Cohen (ambos recém-formados em ciência da computação por Stanford na época) e o engenheiro Nathan Gettings (do PayPal). Com nome inspirado no orbe misterioso capaz de ver passado e futuro da obra “Senhor dos Anéis”, de J.R.R.  Tolkein, o objetivo da empresa era construir um produto que pudesse ser usado pelo governo para reduzir ataques terroristas.

A equipe fundadora, que cresceu ouvindo histórias sobre a sofisticação tecnológica incomparável da Agência de Segurança Nacional nos anos 1970 e 1980, percebeu depois do 11 de setembro que “o governo ficou atrás do Vale do Silício”, diz Lonsdale. “Desde o início, era uma empresa incomum e tínhamos grandes ambições de construir algo que fosse muito importante para a civilização ocidental.”

Os jovens empreendedores tiveram dificuldade em fazer com que os investidores e clientes os levassem a sério, então Thiel, que conhecia Karp desde seus dias como estudantes na Stanford Law School, chamou-o em 2005 para ser CEO interino. Embora Karp não tivesse formação técnica (ele tem um Ph.D. em teoria social), os fundadores gostaram de sua capacidade de entender a tecnologia complexa da Palantir e explicá-la para quem não é engenheiro. Ele também tinha conexões com europeus ricos por causa de sua experiência anterior no gerenciamento de ativos para indivíduos de alto patrimônio em Londres.

Conforme a empresa cresceu, sua cultura começou a espelhar a imagem iconoclasta de Karp – o que provavelmente permanecerá por muito tempo. Do apelido dado à sua sede em Palo Alto, o Shire – outra referência à obra “O Senhor dos Anéis” por conta da terra natal dos hobbits -, ao vídeo introdutório de Karp durante o Palantir Investor Day no início de setembro, que o apresentava em um equipamento de treinamento cross-country em terra firme, a empresa deixou bem claro que seguirá esse caminho.

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Karp, que já teve uma equipe de segurança 24 horas por dia, sete dias por semana, quando rumores sobre a participação da Palantir na localização de Osama bin Laden começaram a circular – algo que não foi confirmado até hoje -, também deixou claro, junto com parte dos documentos de registro da companhia, sua visão de que o Vale do Silício estava muito desconectado das necessidades reais do país. “A elite da engenharia do Vale do Silício pode saber mais do que a maioria sobre a construção de software”, escreve Karp. “Mas eles não sabem como a sociedade deve ser organizada ou o que a justiça exige.”

A Palantir mudou sua sede de Palo Alto para Denver no início deste ano. Karp, por sua vez, deu entrevistas para a mídia em um celeiro em New Hampshire, enquanto Thiel se mudou para Los Angeles há dois anos, citando a questão monocultural do Vale do Silício.

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