Com apoio do Fórum Econômico Mundial, startup Onisafra amplia conexão entre produtores rurais e consumidores

Descontentamento com os mecanismos de distribuição e comercialização de produtos fez o engenheiro Macaulay Souza criar a plataforma.

Isabella Velleda
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Macaulay Souza, CEO da Onisafra e presidente da Comissão Jovem Rural da FAEA (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Amazonas)

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Macaulay Souza, engenheiro agrônomo de 26 anos, inspirou-se nos problemas que acometiam os agricultores da sua região, em Borba, no Amazonas, e criou, em 2016, a Onisafra, uma startup que conecta pequenos e médios produtores aos consumidores finais. No início do mês, a iniciativa passou a integrar um programa de aceleração do Fórum Econômico Mundial, em mais uma demonstração de reconhecimento ao pioneirismo do amazônida.

A Onisafra é dona de uma plataforma online onde pequenos produtores disponibilizam frutas, verduras, legumes, hortaliças e outros alimentos naturais, e que, mediante o pagamento de uma taxa, podem ser entregues diretamente na casa do consumidor. Há também a opção de assinar uma cesta de alimentos que é distribuída semanal ou quinzenalmente. Apesar de já ter atendido a região de São Paulo, hoje a plataforma tem uma atuação focada na região Norte do Brasil.

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Até 2019, a empresa era financiada pelos próprios recursos de seus sócios, e contava com o apoio esporádico de iniciativas do Sebrae, por exemplo. Em 2020, a empresa passou a integrar o programa de investimento da AMAZ Aceleradora de Impacto, programa que busca apoiar empreendedores e negócios que têm como objetivo gerar algum efeito positivo no ecossistema amazonense.

O período seguinte viu a Onisafra se financiar com o próprio faturamento, a fim de expandir operações e receber melhores investimentos no futuro. Recentemente, isso chegou por meio do Fórum Econômico Mundial, organização sem fins lucrativos de Genebra, mais conhecida pelos seus encontros anuais com a participação de líderes políticos e empresas para discutir questões relacionadas à economia política global.

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“Nós vamos amadurecendo como empresa e participando das coisas que fazem sentido para o nosso desenvolvimento”, diz o empreendedor. “Vemos esse novo investimento como uma oportunidade de se conectar tanto com essas instituições internacionais, quanto com outras empresas que já passaram pelo programa. É um reconhecimento significativo, e um mecanismo de fortalecimento de rede não só para nós, como para outras startups da nossa região.”

A equipe por trás da empresa é enxuta, e Souza, apesar de ser engenheiro agrônomo, hoje se ocupa mais com as funções próprias de um CEO, como administração, gestão financeira, elaboração de estratégias futuras, busca por novos modelos de negócio, e até pesquisa de novas tecnologias.

Origem

Desde a infância, Souza teve contato com a agricultura. Seus avós paternos foram agricultores, e seu pai, também por influência da família, tornou-se presidente do sindicato rural patronal do município, atuando em meio a agricultores familiares. “Nossa família morava na parte mais urbana do município. Ainda assim, para chegar às plantações, bastava uma caminhada de 20 minutos”, explica.

Ao participar de congressos com o seu pai, Souza passou a conhecer algumas problemáticas do setor. Quando ingressou na Universidade Federal do Amazonas, no curso de Agronomia Tropical, alguns de seus colegas que atuavam na área também expressavam descontentamento com os mecanismos de distribuição e comercialização de produtos agrônomos disponíveis. Assim, surgiu a ideia de utilizar a tecnologia para facilitar esse escoamento.

“Eu fiz agronomia porque eu já tinha um conhecimento técnico prévio, e pensava que, se tudo desse errado, eu poderia plantar o meu próprio alimento”, afirma. “Inicialmente, eu queria seguir a carreira acadêmica, ser pesquisador ou professor universitário, mas quando me deparei com a falta de investimentos na ciência, me decepcionei um pouco. Então, encontrei o mundo dos negócios e das startups, e decidi investir nisso.”

Valorização da região

Além de ser CEO da Onisafra, Souza também é presidente da Comissão Jovem Rural da FAEA (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Amazonas), que ele vê como uma oportunidade de discutir problemáticas do setor primário ao lado da juventude rural da região e pleitear benefícios aos agricultores.

De maneira semelhante, ele também é vice-presidente do conselho da Associação do Polo Digital de Manaus, que busca inserir a capital amazônica entre os cinco maiores polos digitais do país. Essas ações voluntárias, para o empreendedor, são a sua maneira de deixar um legado à região.

Na visão dele, ações preventivas, ao invés de reativas, são necessárias para combater atividades destrutivas na região. “Aqui no Amazonas, um produtor pode utilizar apenas 20% da sua área para atividades agrícolas. Vejo que muitas pessoas que têm interesse em obter uma licença, fazer tudo certinho, mas às vezes a burocracia é tão grande, que elas acabam desistindo e fazendo por si mesmas. Então, por exemplo, acho necessário desenvolver ferramentas que facilitam e agilizam esse processo.”

Em seu ativismo e voluntariado, Souza também busca exaltar a cultura amazônica e a identidade de seu povo, que frequentemente é designado pejorativamente por termos como “índio”. Embora boa parte do seu trabalho derive de experiências e oportunidades que apenas a Amazônia brasileira pode oferecer, o empreendedor diz que só começou a entender a grandeza da sua região quando visitou outras partes do Brasil e do mundo.

“As pessoas costumam achar que existe uma única Amazônia, mas a verdade é que cada região da floresta é completamente diferente, assim como são as pessoas. E nós precisamos ter orgulho disso. Eu sempre tento levantar a pauta de que nós, amazônidas, precisamos nos identificar como amazônidas, e eliminar o cunho pejorativo das palavras ‘índio’ e ‘caboclo’. Acho importante usar a minha plataforma para esse fim.”

Embora os planos da Onisafra envolvam o desenvolvimento de novas tecnologias para expandir as operações, Souza diz que ele busca aproveitar as oportunidades de aprendizado que o empreendedorismo lhe oferece para obter uma visão mais sistêmica da agricultura no Brasil. O seu objetivo, no futuro, é conseguir propor soluções em um contexto maior do que a sua empresa. “É preciso compartilhar com a sociedade o conhecimento que geramos”, conclui.

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