Elon Musk e Twitter: o que acontece agora?

Onze dias após o bilionário fazer sua primeira proposta, o conselho do Twitter aprovou a oferta de US$ 44 bilhões pela companhia.

Abram Brown
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Martin Schoeller/Forbes
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Musk pretende aumentar sua participação acionária na empresa de 9,2% para pelo menos 50%

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Pouco mais de 11 dias depois que Elon Musk propôs pagar US$ 54,00 (R$ 264,60) por ação do Twitter, o conselho da companhia aceitou ontem (25) a oferta de aquisição. Inicialmente, a rede social parecia se opor à ideia, chegando a adotar uma “poison pill” para resistir a uma aquisição hostil, mas se animou depois que Musk explicou de onde viria o dinheiro.

E de onde veio? De uma dívida enorme (cerca de US$ 25 bilhões em empréstimos garantidos por ações da Tesla) e algum patrimônio (aproximadamente US$ 21 bilhões, também em ações da Tesla). A participação de Musk na fabricante de carros elétricos vale cerca de US$ 230 bilhões.

A soma chega a US$ 44 bilhões (R$ 215,6 bilhões), um prêmio de 38% sobre o valor em que as ações do Twitter eram negociadas no dia em que Musk divulgou pela primeira vez que havia comprado uma participação na rede social.

Leia mais: Twitter aprova oferta de Elon Musk para comprar rede social por US$ 44 bilhões

Então é isso, Musk ganhou? Podemos esperar ver uma nave espacial no estacionamento dos funcionários a qualquer momento? Na verdade, ainda estamos longe disso, mas o bilionário está definitivamente no caminho certo para conseguir o que ele diz querer.

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Quais são os próximos passos de Musk?

O acordo entre o conselho do Twitter e Musk não parece incluir um “período de compras”. Alguns acordos de aquisição contêm regras que preveem essa janela de tempo, na qual o conselho recebe e analisa outras ofertas. Em geral, a duração desses períodos varia entre um mês e seis semanas.

Os “períodos de compras” são vistos como favoráveis para os investidores, porque transmitem a ideia de que o conselho está fazendo o possível para conseguir a oferta mais alta. Mas esses períodos não são exigidos por lei em Delaware, onde o Twitter foi registrado, então sua ausência não é totalmente estranha.

O fato de o conselho não ter negociado uma janela para outras ofertas aumenta a sensação em Wall Street de que, mesmo com a ajuda do JPMorgan e do Goldman Sachs, o Twitter encontrou pouco interesse quando tentou encontrar compradores que não fossem Musk.

Em seguida, o bilionário fará uma oferta pública de US$ 54,20 (R$ 265,50) por ação para aumentar sua participação no Twitter para pelo menos 50%. Uma oferta pública é o ato formal pelo qual ele pedirá aos acionistas que lhe vendam suas ações. Atualmente, Musk possui 9,2% da companhia, cerca de 73,5 milhões de ações. Para obter mais de 50%, ele precisa de mais 319,5 milhões de ações, que custarão US$ 17,2 bilhões. Fácil. Ele tem US$ 46 bilhões em financiamento prontos para serem usados.

Enquanto o conselho deliberava no último fim de semana, Musk teria passado seus dias telefonando a grandes acionistas e cortejando-os. A partir daí, não é difícil deduzir o que aconteceu: Musk ou alguns acionistas que o apoiam engrossaram o coro do “sim” e concluíram que Musk tinha chances de obter o controle majoritário.

Ainda existe o cenário bastante improvável de que alguma revolta repentina dos acionistas o impeça de passar dos 50%. Mas, novamente, as chances são bem pequenas. O conselho deu seu selo de aprovação, e o acordo recebeu o “joinha” de muitos analistas que seguem o Twitter.

A oferta pública ficará aberta por 20 dias úteis. “E então os acionistas que não aceitarem a oferta serão eliminados pela empresa”, diz Brian Quinn, professor de direito corporativo do Boston College. “A empresa pagará um cheque de US$ 54,20 para cada ação que você ainda possuir.”

O que poderia impedir a aquisição de Musk?

Além de algum acontecimento de força maior, quase nada. Os reguladores dos EUA não parecem propensos a se opor a preocupações antitruste, já que o Twitter não está se fundindo com, digamos, o Snap ou algo do tipo.

O que não podemos explicar ou realmente prever é o que Musk fará nos próximos dias e semanas. Como tudo relacionado a Musk, há sempre uma chance pequena de algo inesperado acontecer. O homem realmente desafia o conceito de previsibilidade. Em um minuto, ele está no Twitter fazendo piadas sobre pênis envolvendo o também bilionário Bill Gates. Em seguida, ele está comprando o Twitter, e já obteve a aprovação de um conselho de 11 diretores altamente qualificados e bem remunerados, incluindo o cofundador e (duas vezes) CEO, Jack Dorsey.

Quais são os planos de Musk para o Twitter e para o Twitter Inc.?

O conselho espera que o negócio seja fechado este ano. Por enquanto, o CEO Parag Agrawal ficará no cargo até o fim do processo. Depois disso, não será surpreendente se ele for dispensado – menos de um ano depois de assumir o cargo.

Musk não poupou críticas a Agrawal e ao Twitter. Se ele quiser demitir Agrawal, isso desencadeará um pacote de indenização de US$ 38,7 milhões (R$ 189,6 milhões), embora provavelmente não chegue a esse ponto. A empresa teria dito aos funcionários que não haverá demissões “por enquanto” durante uma reunião geral na segunda-feira.

A seguir, veremos se o bilionário pode conduzir o Twitter para algo mais ambicioso. A empresa ficou mais ousada nos últimos dois anos depois de um desentendimento com um investidor que inicialmente foi indesejado. Mas Wall Street passou a ter dúvidas crescentes sobre a capacidade da empresa de atingir as metas grandiosas que Dorsey ajudou a estabelecer antes de sair.

Isso inclui um crescimento de 50% da receita com base em 2021, para US$ 7,5 bilhões (R$ 36,7 bilhões) em 2023, uma projeção ousada que enfrentará o desaquecimento do mercado de anúncios, prejuízos por conta das mudanças de software da Apple e a distração inerente a uma aquisição hostil, mesmo uma com conclusão tão rápida quanto esta.

Musk disse várias vezes que gostaria que a plataforma adotasse melhor os princípios da liberdade de expressão, reduzisse anúncios, abrisse seu algoritmo, adicionasse uma ferramenta de edição, aumentasse a verificação dos usuários e reprimisse os bots de spam. Ele também usou uma entrevista do TED Talk para sugerir que realmente não se importava com a parte comercial do Twitter.

Há, é claro, toda uma outra parte do Twitter: o impacto cultural da plataforma, que tem atraído presidentes e celebridades nos últimos 16 anos. Essa parte da cultura sempre pareceu desproporcional à parte dos negócios, e tal situação é um convite e tanto para alguém como Musk, que pensará que pode finalmente consertar o que Ev Williams, Dick Costolo e Jack Dorsey não conseguiram. Afinal, essa tarefa não pode ser mais difícil do que enviar pessoas para o espaço sideral.

Aqui está Musk agindo de uma forma bastante Musk em um comunicado de imprensa anunciando o acordo, falando sobre o futuro da empresa e o que o motivou a adquiri-la:

“A liberdade de expressão é a base de uma democracia em funcionamento, e o Twitter é a praça pública digital onde são debatidos assuntos vitais para o futuro da humanidade. […] O Twitter tem um potencial tremendo, e estou ansioso para trabalhar com a empresa e com a sua comunidade de usuários para desenvolvê-lo.”

Uma coisa é certa. Essas alterações exigirão muito mais tempo (e paciência) de Musk do que o processo de adquirir a plataforma.

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