Exclusivo: Estamos prontos para resgatar todos os tethers do mercado, diz CTO da Tether

Paolo Ardoino falou com exclusividade à Forbes Brasil sobre o colapso do terraUSD e o futuro do tether, a maior stablecoin do mundo

Diana Lott
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Divulgação/Tether
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Paolo Ardoino, CTO da Tether, afirmou à Forbes que a empresa tem reservas suficientes para resgatar todos os tether em circulação

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Depois do colapso da stablecoin terraUSD, que apagou US$ 17 bilhões do mercado entre terça (10) e quarta-feira (11), uma pergunta assombra os investidores do mundo cripto: qual criptomoeda será a próxima?

Paolo Ardoino, CTO da empresa por trás da maior stablecoin do mercado, afirma que não será o tether (USDT). “Estamos confiantes de que podemos resgatar todos os US$ 75 bilhões”, disse ele em entrevista à Forbes Brasil na manhã de hoje (17).

O alarme soou na última quarta (11), quando o tether, que foi desenvolvido para manter a paridade de 1 para US$ 1,00, começou a ser negociado a US$ 0,95 em algumas exchanges. Na ocasião, Ardoino usou sua conta no Twitter para acalmar investidores: “A Tether está processando pedidos de resgate normalmente, como sempre fez”.

Leia mais: O que são stablecoins? Entenda como funciona esse tipo de criptomoeda

Na última semana, investidores “sacaram” o equivalente a mais de US$ 7 bilhões em tether, segundo a CoinGecko, uma agregadora de dados do mercado de criptomoedas.

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Diferentemente do terraUSD, que usa um algoritmo para manter sua paridade com o dólar, o tether é lastreado por reservas de ativos tradicionais, como títulos do Tesouro dos EUA e outros papéis de alta liquidez, que são geridos pela companhia que emite a criptomoeda e também leva seu nome.

A empresa, no entanto, é alvo de críticas por não ser transparente sobre a composição dessas reservas. Em fevereiro do ano passado, a Tether fechou um acordo com a Promotoria de Nova York para encerrar um processo no qual a empresa era acusada, entre outros, de não compartilhar com seus investidores a composição do portfólio que usa como lastro para a criptomoeda.

Como parte do acordo, a Tether se comprometeu a informar periodicamente a composição de suas reservas. A primeira divulgação, que aconteceu em maio de 2021, antes que o acordo fosse celebrado, assustou investidores. À época, 49% do lastro da stablecoin era composto por papéis comerciais – títulos de dívida de curto prazo emitidos por empresas.

No último trimestre de 2021, essa fatia caiu para 30,7%. À Forbes, Ardoino afirmou que nos primeiros três meses deste ano a exposição diminuiu 18% e que a empresa planeja reduzi-la ainda mais.

Confira a entrevista:

Forbes: Os últimos dias têm sido turbulentos. 

Paolo Ardoino: Não. Por que você diz isso!? Estou super relaxado (risos).

Forbes: Considerando as quedas recentes, o que a Tether está fazendo para manter a paridade com o dólar e não se tornar a próxima Terra?

Penso que primeiro precisamos diferenciar os tipos de stablecoins. Quando alguém usa o termo “stablecoin”, normalmente está se referindo a uma criptomoeda que deveria, idealmente, manter sua paridade com uma outra moeda pré-definida, como o dólar ou o euro, ou outro ativo. Há stablecoins pareadas em commodities, por exemplo. Você precisa ter um mecanismo ou reservas que garantam a paridade.

Essa classificação é importante porque stablecoins algorítmicas são diferentes de stablecoins centralizadas, baseadas em portfólios. O tether (USDT) foi criado em 2014 e foi a primeira stablecoin do mercado. Com o passar do tempo, o tether se tornou uma criptomoeda lastreada por um portfólio de alta liquidez. O lastro do tether é composto por ativos equivalentes à cotação do dólar, ou que acompanham o valor do dólar de forma muito próxima.

Isso é importante porque, se em algum momento uma pessoa quiser resgatar os tethers que possui, seja uma quantia grande ou pequena, nós precisamos ser capazes de devolver esse dinheiro.

No caso do terraUSD, só parte [do valor das criptomoedas emitidas] era lastreado, e mesmo esse lastro era composto por ativos digitais: luna e bitcoin. O preço desses ativos não tinha relação com o valor do dólar.

O tether usa títulos do Tesouro dos EUA. Quando divulgamos pela primeira vez a composição das reservas, havia dólares, títulos “quasi-cash” [de altíssima liquidez], títulos do Tesouro dos EUA e papéis comerciais.

Mesmo se uma stablecoin algorítmica for totalmente lastreada em ativos digitais, como bitcoin e luna, você tem o problema da alta volatilidade: um dia, essas reservas lastreiam 100% dos tokens; mas se o preço dos ativos cair, você fica com reservas 50% menores, por exemplo.

Neste último mês, vimos o bitcoin se desvalorizar quase 50%. Há outros criptoativos que perderam 80% ou 90% de seu valor… bom, o terraUSD perdeu todo o seu valor.

Você não pode criar uma stablecoin que tem paridade com o dólar se você não tem um lastro em dólar. Essa é a questão principal. E é isso que o tether tem.

No passado, houve muita preocupação com a possibilidade de um cenário de falência. Eu duvido que qualquer outra stablecoin, ou qualquer instituição financeira, mesmo as de grande porte, consiga processar US$ 7 bilhões em resgates em 48 horas.

Se este não foi um teste de stress, e provavelmente o maior teste de stress da história de qualquer instituição financeira, eu não sei o que foi.

Forbes: Você mencionou os papéis comerciais que compõem as reservas do tether. Eles foram alvo de críticas quando a empresa começou a divulgar a composição do lastro. Você vê esses ativos como um risco?

PA: No primeiro trimestre deste ano, a exposição a papéis comerciais diminuiu 18%. Do início de abril para cá, essa fatia segue diminuindo. E os papéis comerciais que continuam no portfólio são extremamente líquidos. Eles não são títulos aleatórios, emitidos por uma loja da esquina. São papéis que receberam classificação A2, A1 ou mais alta pela S&P.

Ainda assim, continuamos diminuindo essa exposição à medida que os títulos vencem e comprando mais títulos do Tesouro dos EUA.

Forbes: A empresa está preparada para resgatar todas os tethers que estão no mercado, se chegar a esse ponto?

PA: Sim. Se no fim das contas não houver mais procura pelo tether, todos os tethers serão resgatados.

Se o produto não tiver mais razão de existir porque apareceu algo melhor, ou porque surgiu a melhor CBDC [moeda digital emitida por um banco central, na sigla em inglês] do mundo, as pessoas virão até nós com seus tethers e nós vamos transferir o dinheiro para elas.

Nós estamos confiantes de que podemos resgatar todos os US$ 75 bilhões.

Forbes: O tether foi uma das criptomoedas que mais cresceu nos últimos anos. Supondo que o mercado de criptomoedas sobreviva ao atual inverno, o que você planeja para o futuro do tether?

PA: Acredito que a próxima grande discussão será sobre regulamentação. O mercado será regulado mais cedo ou mais tarde, e as stablecoins devem ser as primeiras a serem reguladas, antes dos outros tipos de criptomoedas.

Penso que o caso do terraUSD aumentará a pressão por regulação das stablecoins, que é algo que vemos com bons olhos.

Nos últimos dias, vimos no Parlamento Europeu legisladores defendendo uma rígida regulamentação para De-Fi. Nos EUA, discute-se o que é um valor mobiliário digital.

As stablecoins certamente ficarão sob um escrutínio maior agora, o que é correto. Nós esperamos que neste ano, ou no início do ano que vem, as agências reguladoras emitam diretrizes para as empresas emissoras de stablecoins que indiquem quais informações devem ser divulgadas, quais tipos de ativos podemos ter nas nossas reservas, por exemplo.

Acredito que esse movimento de regulação é iminente e justo.

Estamos confiantes que essas novas regras não vão prejudicar o setor, mas sim ajudar a proteger os clientes. E isso nos levará de volta às origens: usar bitcoins e stablecoins como meios de pagamento.

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