Além dos recebidos: como 8 influenciadoras exploraram as redes para criar o próprio negócio

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Camila Coutinho, influenciadora que criou o blog “Garotas Estúpidas” e fundou a GE Beauty, é uma das primeiras blogueiras do país

“É curioso. As pessoas nos consideram empreendedoras apenas quando começamos a vender algum produto. Eu me considero uma mulher de negócios desde meu primeiro dia de blog”, conta Camila Coutinho, influenciadora que criou o blog “Garotas Estúpidas” em 2006 – uma das primeiras blogueiras de moda do Brasil – e aprendeu, na rotina da internet, a arte de ser sua própria chefe. Hoje, conta com mais de 2,5 milhões de seguidores no Instagram e é CEO da GE Beauty, sua marca de produtos para cabelo.

Assim como Camila, nos últimos anos, diversos influenciadores, principalmente da área de moda e beleza, decidiram aproveitar o engajamento das redes para investir em um negócio próprio. Marcos Machado, sócio da consultoria de branding TopBrands e professor da ESPM, acredita que a proximidade da audiência com a vida do influenciador humaniza o trabalho, gerando resultados desejáveis em termos de marketing e mercado. De certa forma, essa não é uma estratégia nova. “Um dos pilares do marketing é a construção do significado emocional. Para alcançar esse objetivo, muitas empresas contratam uma celebridade que converse com a personalidade da marca para fazer publicidade”, explica o professor.

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“Lembro muito bem de um comercial da Friboi com o Tony Ramos. Na época, um ator que transmitia confiabilidade por conta da vida estável e longe de polêmicas. Esse é um fenômeno que existe desde a década de 1950”, completa Machado. No entanto, embora algumas estratégias existam há décadas, há um comportamento que surgiu há poucos anos e virou o marketing de ponta cabeça: o novo berço de nascimento de celebridades, a internet. “A construção de persona não é algo novo, mas os influenciadores são”. Sendo assim, quem tem fama na internet tem nas mãos um atalho de proximidade com o público consumidor.

Há alguns anos, era preciso estrear novelas ou competições internacionais para se tornar famoso. “Se você não estava em grande destaque na mídia, não tinha capacidade de influenciar. Hoje em dia, embora tenha mais concorrência, há menos barreiras no caminho da fama. Não precisa ser um atleta, um cantor ou ator global. Às vezes, basta viralizar na internet por conta de um vídeo e ter a vida transformada”, explica Machado. Mais do que se tornar conhecido, esse reconhecimento na internet gera real influência no comportamento de consumo. É por isso que as marcas exploram tanto esse ecossistema. E, é claro, não foram apenas as grandes empresas que enxergaram potencial nesse ciclo de influências.

O mundo além das “publis”

Os próprios criadores de conteúdo começaram a vislumbrar a possibilidade de crescimento comercial no meio digital. “Se o público compra os produtos que eu indico de outras marcas, imagina se for algo criado por mim”, diz Bruna Tavares, uma das primeiras blogueiras a lançar uma marca própria de maquiagem no mercado brasileiro. “É a etapa mais avançada da influência digital, o funil de vendas”, ressalta.

Quando Bruna começou a produzir conteúdo para internet, em 2009, o objetivo era criar portfólio para começar a trabalhar como jornalista de beleza e moda em grandes redações. A jovem recém-formada jamais imaginaria que, cerca de dez anos depois, seria dona de uma marca com faturamento de milhões. “O trabalho do influenciador é divulgar produtos. Para quem tem um negócio próprio, isso funciona melhor. Não é fácil, mas é prático”, destaca a influenciadora.

No entanto, entre tantos benefícios, Sérgio Santos, especialista em negócios e CEO da consultoria XPotential, pontua um cuidado necessário para os influenciadores que investem no empreendedorismo. “É preciso ter cuidado para não perder a pesonalidade”, explica ele. “As pessoas adotam os criadores de conteúdo porque acham suas opiniões legítimas e sinceras. A blogueira que seguir por esse caminho precisa ter autonomia, não pode virar uma propaganda ambulante.”

Para Bruna, essa divisão entre imagem pessoal e empresa já é cuidada meticulosamente. “Eu chamo a marca de BT para ter uma diferenciação. Tenho um Instagram separado para ela e não uso muito a minha imagem por lá. Meus conteúdos estão no meu perfil pessoal, onde faço uma divulgação orgânica.” Em sua visão, isso faz parte de um planejamento para transformar a empresa em algo maior, um legado que não dependa apenas de seu papel como influenciadora. “Meu posicionamento como pessoa afeta a marca. Então, eu tomo muito cuidado.”

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Camila Coutinho acrescenta uma nova reflexão sobre o quesito reputação: “Demorei cerca de dois anos para lançar minha linha porque eu já tinha dois negócios muito bem estabelecidos; o blog Garotas Estúpidas e meu perfil pessoal; Eu não podia lançar algo que fosse um degrau abaixo do trabalho que eu estava oferecendo”, desabafa. De certa forma, os dois pilares – influenciadora e empreendedora – se complementam, exigindo extrema atenção para que um não prejudique o outro.

Embora essa seja uma tendência explorada por diversos criadores de conteúdo, uma das personalidades mais presentes no ecossistema é o de mulheres da área de beleza e moda. Segundo Santos, isso tem uma explicação: de acordo com o provedor de pesquisa de mercado Euromonitor International, o Brasil é o quarto maior mercado de beleza e cuidados pessoais do mundo. O país fica atrás de Estados Unidos, China e Japão, mas, na categoria de fragrâncias, os brasileiros estão em segundo lugar, atrás apenas dos americanos.

“Não somos um país rico, cosmético não é item essencial, mas o brasileiro consome muito”, ressalta o especialista. “Além disso, esse mercado é capaz de fortalecer personalidades. Maquiagem, por exemplo, é uma arte. Os influenciadores que querem empreender podem colocar parte de sua essência nos produtos”. Em tutoriais de maquiagem e fotos produzidas no perfil, os criadores conseguem aproveitar o caráter imagético do Instagram para reverter o conteúdo em vendas. “Isso explica um pouco sobre o boom desse mercado nas redes.”

Para Santos, esse é apenas o começo de um cenário que tende a crescer cada vez mais – em todas as áreas. “O mundo digital está fomentando o empreendedorismo porque é um espaço democrático. Qualquer pessoa pode tentar. Não precisa alugar um espaço físico, apenas ter acesso à internet”, explica. “Com o alto nível de desemprego no Brasil, essa opção se torna tentadora para diversos brasileiros, homens e mulheres.”

Com tantas pessoas explorando esse novo mundo de possibilidades, se destaca quem presta atenção aos detalhes e oferece um produto de personalidade. Confira, na galeria abaixo, oito influenciadoras que aproveitaram o sucesso nas redes para abrir um negócio próprio:

  • Camilla Cabral

    Formada em biomedicina, Camilla Cabral assustou sua mãe quando disse, em 2010, que deixaria a área de formação para investir em seu canal no Youtube – que ainda não gerava dinheiro para sustento. “Ela quase me matou. Eu queria me entregar 100% em um projeto só. Arriscar, às vezes, pode ser uma boa jogada”, diz ao analisar seu trabalho atualmente, com 1,5 milhões de seguidores no Instagram.

    Comandando a Milla Cabral Beauty, lançada no final de 2020, a influenciadora está animada com seu primeiro produto e planeja lançar o segundo em setembro. “Estou desenvolvendo e testando várias fórmulas. Eu poderia lançar um atrás do outro, mas quero oferecer inovação, o que precisa de muito cuidado e atenção”, explica Camilla.

    Para ela, esse controle sobre os próprios passos é um sonho se tornando realidade. “Durante o ano passado, várias empresas grandes e já consolidadas me ofereceram fórmulas prontas para que eu lançasse meu produto com elas. Eu quase fechei com suas marcas. Meu bolso balançou e eu fiquei tentada porque facilitaria muito o meu trabalho”, relembra. “Mas, eu pensei melhor, respirei fundo e continuei no foco de abrir a minha própria marca. Não queria apenas aprovar um projeto, queria participar de todo o processo.”

    Dona de seu próprio negócio, ela diz que não conseguiria seguir firme sem o apoio dos seguidores. “Fidelizar o produto com um conteúdo de qualidade é essencial”, destaca. Com essa base conquistada, Camilla consegue ter otimismo para sonhar com a expansão de sua marca. “Eu ainda quero uma loja física com temática de laboratório. Imagina um tubo de ensaio na porta”, diz entre risadas.

  • Camila Coutinho

    “O GE Beauty surgiu como mais um braço do meu trabalho nas redes. Isso veio em forma de maturidade para diversificar meu trabalho”, explica Camila Coutinho. Lançada em setembro de 2020, a marca de produtos para o cabelo explorou fortemente o e-commerce em meio à pandemia. No entanto, com a abertura da primeira loja física em Recife, em Pernambuco, a próxima meta é expandir pelo Brasil em shoppings e centros comerciais.

    Otimista sobre seus objetivos, Camila destaca a importância da reputação que construiu na internet ao longo de 15 anos para o sucesso da marca. “Eu falo com meus seguidores e eles acreditam nos meus conselhos. A partir disso, a marca já começou com vantagem, a credibilidade”. Para ela, esse é o grande ponto a ser considerado por quem tem interesse em seguir o caminho do empreendedorismo.

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  • Bruna Tavares

    “Um dia, eu estava em uma loja com meu marido e a atendente gostou da minha maquiagem e perguntou da onde era. Eu fico com vergonha, mas meu marido disse: ‘É dela’. E abriu minha página no Instagram para mostrar”, relembra Bruna. “Ela ficou chocada e disse que tinha acabado de comprar um produto meu.” Nesse momento, a influenciadora percebeu que sua marca já estava atingindo novos públicos: de pessoas que não a seguem.

    Embora as redes sociais impulsionem positivamente a imagem da empresa, essa foi uma realização importantíssima para Bruna, que espera construir uma marca que vá além de sua figura pública. “Minha marca é imortal, eu não. Ela precisa deixar um legado”. Em 2016, quando fundou sua empresa, já tinha um público que a seguia desde 2009, mas se empenhou para inovar e gerar algo novo para o mercado de beleza brasileiro. “Hoje, temos muita concorrência, então, é preciso oferecer algo a mais. Propósito e personalidade são as palavras-chave”, destaca.

    Para ela, a experiência trabalhando com outras marcas, seja na publicidade ou no licenciamento de produtos, foi essencial para seu início como empreendedora. “Minha marca já nasceu potente porque eu fiquei cinco anos aprendendo com grandes empresas. Quando decidi que seguiria meu caminho, me afastei da publicidade e fui construindo relevância junto a minha imagem na internet”, explica.

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  • Nath Finanças

    Nathália Rodrigues teve uma trajetória diferente de outras influenciadoras da lista: quando abriu seu canal, em 2019, já tinha a pretensão de criar uma empresa. Formada em administração, a empreendedora é de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, e se voltou para as finanças quando percebeu que seu pai adquiria muitos cartões de crédito sem planejamento.

    Como já entendia um pouco do assunto, começou a falar sobre a questão em casa para ajudá-lo e teve um insight que mudaria sua vida. Decidiu criar um canal no YouTube para ensinar educação financeira a pessoas de baixa renda. Em poucos meses, o conteúdo começou a fazer muito sucesso, o que fez com que a moça, inclusive, entrasse para a lista Under 30 da Forbes na edição de 2020. Hoje, Nathália é CEO da Nath Finanças, uma empresa de serviços financeiros com berço na internet.

    Reprodução/Forbes
  • Bianca Andrade

    Foi no seu quarto, com algumas maquiagens, que Bianca Andrade começou a gravar os vídeos que resultaram em todo seu sucesso atual. Fundadora da Boca Rosa Beauty – marca criada em 2018 – a influenciadora se destaca nas redes, com quase 15 milhões de seguidores no Instagram. “Empreender e gerar conteúdo é uma ótima união”, disse em uma entrevista para a Forbes em setembro de 2020. “Antes, quando eu era o rosto para outras marcas, isso não era tão intenso, agora é. Eu desenvolvo cada produto como se fosse um filho”, revelou na ocasião. Atualmente, a empreendedora está empenhada no lançamento de novos produtos e em uma linha capilar chamada Boca Rosa Hair.

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  • Mica Rocha

    Com 1,1 milhão de seguidores no Instagram, a influenciadora digital Michele Rocha, mais conhecida como Mica, explora diversas áreas do empreendedorismo: com a Margaux, vende sapatos e, com a Misha, semijoias feitas à mão. O sucesso nos negócios começou a ser cultivado logo nos primeiros vídeos que produziu para as redes. Com quadros de humor sobre relacionamentos amorosos e signos, conquistou seu público fiel e foi chamada para participar de programas de televisão e apresentar o “SOS Pé na Bunda”, da Warner Channel – quadro que não está mais no ar. O impulso das redes em sua carreira foi decisivo para sua trajetória atual como fundadora de duas marcas.

    Getty Images/Luciana Prezia
  • Camila Coelho

    Radicada nos Estados Unidos, a mineira Camila Coelho é mais uma personalidade que aproveitou o início das redes sociais para se tornar influenciadora. Ao longo dos anos, se destacou em meio a grifes internacionais e fez diversos trabalhos ao lado de grandes empresas. Para ela, esse contato longínquo emprestando sua imagem para outras marcas foi essencial para que aprendesse sobre o mercado e ficasse pronta para seu próprio lançamento, em agosto de 2020. A Elaluz é uma marca sustentável que abrange itens de maquiagem, cuidados com a pele e cabelos. “Ao longo dos últimos dez anos, aprendi muito sobre o mundo da beleza e sempre sonhei em aproveitar o conhecimento que adquiri para criar minha própria marca”, conta no site oficial de sua marca.

    Getty Images/LA Family Housing Home Together
  • Juliana Goes

    Muito além de beleza e moda, o bem-estar também é um assunto explorado por muitas influenciadoras. Juliana Goes, que começou na internet através dos blogs, sempre produziu um conteúdo focado em um estilo de vida saudável. De alimentação a dicas de ioga, cativou um público que visava a desaceleração. Até que, em 2016, decidiu criar o Zen, um aplicativo que oferece trilhas sonoras e vídeos para relaxamento, termômetro de emoções e mentoria para meditações – algumas delas pagas. Nos últimos anos, o projeto também expandiu para um site com aulas online de ioga.

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Camilla Cabral

Formada em biomedicina, Camilla Cabral assustou sua mãe quando disse, em 2010, que deixaria a área de formação para investir em seu canal no Youtube – que ainda não gerava dinheiro para sustento. “Ela quase me matou. Eu queria me entregar 100% em um projeto só. Arriscar, às vezes, pode ser uma boa jogada”, diz ao analisar seu trabalho atualmente, com 1,5 milhões de seguidores no Instagram.

Comandando a Milla Cabral Beauty, lançada no final de 2020, a influenciadora está animada com seu primeiro produto e planeja lançar o segundo em setembro. “Estou desenvolvendo e testando várias fórmulas. Eu poderia lançar um atrás do outro, mas quero oferecer inovação, o que precisa de muito cuidado e atenção”, explica Camilla.

Para ela, esse controle sobre os próprios passos é um sonho se tornando realidade. “Durante o ano passado, várias empresas grandes e já consolidadas me ofereceram fórmulas prontas para que eu lançasse meu produto com elas. Eu quase fechei com suas marcas. Meu bolso balançou e eu fiquei tentada porque facilitaria muito o meu trabalho”, relembra. “Mas, eu pensei melhor, respirei fundo e continuei no foco de abrir a minha própria marca. Não queria apenas aprovar um projeto, queria participar de todo o processo.”

Dona de seu próprio negócio, ela diz que não conseguiria seguir firme sem o apoio dos seguidores. “Fidelizar o produto com um conteúdo de qualidade é essencial”, destaca. Com essa base conquistada, Camilla consegue ter otimismo para sonhar com a expansão de sua marca. “Eu ainda quero uma loja física com temática de laboratório. Imagina um tubo de ensaio na porta”, diz entre risadas.

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