Ana Paula Padrão: "Networking é um território masculino que as mulheres precisam desbravar"

A jornalista, apresentadora e empresária reúne algumas das executivas mais poderosas do Brasil no evento Women on Top, que acontece online hoje.

Fabiana Corrêa
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Crédito: Mariana Pekin
Crédito: Mariana Pekin

Ana Paula Padrão no happy hour que reuniu mulheres poderosas na Livraria Megafauna essa semana

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Quando pensou pela primeira vez em convidar executivas para falar de vida e carreira em um palco, a jornalista, apresentadora e empreendedora Ana Paula Padrão não esperava reunir tantas presidentes de empresa com a facilidade que o fez. “Resolvi dar uma busca nas minhas redes e, em pouco tempo, tinha encontrado 30 mulheres que ocupavam o topo das companhias. O melhor é que fiz um convite e todas vieram”, conta, sobre o primeiro fórum que liderou, em 2018, quando ocupava a direção da revista Claudia. Hoje, Ana Paula comanda seu terceiro evento reunindo mulheres que chegaram ao topo de empresas. O Women on Top, que acontece on line hoje, reúne hoje 30 profissionais em cargos de alta liderança em grandes companhias para discutir carreira, inovação, finanças. Sempre do ponto de vista delas e com muito afeto, para usar uma palavra e alta no momento. Ana acredita que criou um ambiente seguro para que mulheres passem a dar mais importância a algo que os homens sempre fizeram, que é investir nas relações profissionais. “A gente precisa fazer networking também, mas somos sempre muito ocupadas, tem casa pra cuidar, tem filho, tem a vida acontecendo. Acho que as mulheres topam estar aqui porque é um tempo para falarem de suas questões com segurança, há muita confiança entre nós”. 

Nessa entrevista, Ana Paula Padrão fala sobre transição de carreira, de como administra seu dinheiro, de feminilidade aos 55 anos e, claro, de MastercChef. 

Forbes: De onde veio a vontade de fazer esse evento para mulheres que chegaram ao topo? 

Ana Paula Padrão: Quando eu pensei em reunir mulheres pela primeira vez, em 2018, fiz um levantamento pessoal e descobri rapidamente que tinha 30  presidentes de empresa, logo de cara, nas minhas redes. Em que momento e lugar você encontraria 30 executivas assim no mesmo lugar? Elas vão a eventos do seu setor, eventos específicos, mas não havia algo como estamos fazendo. Comecei a buscar, apareceram muitas, algumas abaixo do radar, como a maior empresa de seguros francesa instalada no Brasil, por exemplo, cuja presidente era mulher. E disparei um convite. Todas toparam! Fizemos o primeiro fórum, ficou uma graça, preparamos uma segunda edição ainda, mas logo em seguida a [Editora] Abril entrou em recuperação judicial e eu saí da Claudia. Depois veio a pandemia, em abril desse ano fizemos um outro evento de mulheres e projetamos a terceira edição do fórum de CEOs. Eu fiz exatamente o mesmo processo. Disparei os e-mails e elas aceitaram. Eu digo que fico muito feliz porque a gente convida e elas vêm!

F: Por que acha que foi simples assim reunir esse time?

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AP: Acho que meu grande patrimônio é ter credibilidade para me relacionar com as pessoas e elas saberem que é um território seguro. Credibilidade que eu construí ao longo de décadas. Nem todas essas executivas são minhas amigas, algumas já são porque nos conhecemos de outros eventos, outras eu conheci nesse período de isolamento, mas existe uma relação de muita confiança entre a gente. 

F: Parece que as mulheres não dão tanta importância ao networking quanto deveriam. Por quê?

AP: Elas não têm tempo mesmo. Então um evento como esse acaba sendo um álibi, tanto para a empresa quanto para a família. E elas sabem que vão ver outras mulheres exatamente no mesmo momento -, e terão um lugar muito legal pra dar seu recado. Elas sabem que podem falar de algo muito importante pra elas, histórias da própria vida, momentos de virada na carreira. Enfim, trazem histórias mais pessoais que são importantes para uma mulher na cadeira número 1 de uma empresa. Que oportunidades as mulheres presidentes  de empresa têm de fazer networking? O trabalho é só uma parte da vida delas. O networking é um território masculino que a gente precisa desbravar. Porque você precisa saber que você não está sozinha na sua dor.

F: Você fez uma mudança do jornalismo diário para uma vida que vai “muito além do trabalho”, usando suas palavras. Como foi fazer essa transição?

AP: Essa é uma resposta difícil porque eu não planejei fazer essa transição. O que eu planejei – e fiz – foi sair do jornalismo diário. O que viria depois eu não tinha ideia, tanto que fiquei mais de um ano fora, tocando as minhas empresas [Ana tem uma agência de comunicação, a Tuareg, e a plataforma Tempo de Mulher, que hoje cuida dos eventos, além dos cursos da Escola de Você] pois só surgiam convites ligados ao jornalismo. Não que eu não goste de jornalismo, eu gosto muito! Mas eu precisava comunicar para o mercado que eu não iria mais fazer jornalismo, que eu não seria mais a pessoa que eles conheceram. Então eu sabia que precisaria romper durante um período com o jornalismo. E o MasterChef foi o primeiro convite que apareceu para fazer alguma coisa totalmente diferente. 

F: Quando você percebeu que o MasterChef poderia ser um um programa de sucesso?

AP: Na época que me convidaram eu nunca tinha assistido, eu não tinha ideia do que era essa franquia. Mas assim que comecei a ver os programas, percebi que seria bom para o público brasileiro. Eu conheço o meu cliente, eu sei quem está sentado na frente da TV. É o tipo de formato que agrada muito o Brasil porque tem superação, realização de sonhos…E de uma maneira muito lúdica e muito inocente. Você não tem que usar nada além da estratégia e do talento pra cozinhar para fazer parte. Além disso, seria exibido em um horário alternativo, às 22h50, e sem protagonismo porque eu dividiria com outras pessoas o palco. E assim que foi ao ar, foi aquele sucesso absurdo… já se vão sete anos. Eu nunca imaginei que seria tão legal, que eu encontraria amigos incríveis, uma segunda família, que eu me adaptaria tão bem ao entretenimento.

F: Qual é o conselho para a mulher que quer abrir novos horizontes profissionais, como você fez?

AP: Eu acho que a gente só abre novos caminhos quando a gente deixa o velho para trás. Pense em uma relação. Não tem como você estar casada e falar “olha, vou ali experimentar outras coisas e depois volto pra ver se é isso mesmo”. Você precisa encerrar um ciclo. Sei que é fácil falar pois eu tinha recursos para ficar sem trabalhar, tinha as minhas empresas. E a maioria não tem esse tempo, não pode esperar para começar outra coisa. Mas percebi que para abrir novas perspectivas na vida, não dá para ficar com um pé em cada galho. Além de sugar muita energia, você acaba não definindo o que quer… Então eu precisei dizer ‘não’ para aquilo que não queria mais, mesmo sem saber o que de fato eu queria. E a vida acabou me apresentando outras opções, mas eu realmente rompi com o passado. E romper com um passado bem-sucedido, já que eu era muito aprovada na bancada, não foi uma decisão simples. Eu fui procurada, recebi ótimas ofertas nesse período, e tive que dizer não. Eu precisava convencer o mercado de que só voltaria para fazer uma coisa muito diferente.

 

F: Você acha que é bacana ter esse núcleo feminino, como no evento de hoje, ou em algum momento você vai começar a misturar homens e mulheres?

AP: Não está nos meus planos. Os homens podem escolher entre diversos grupos de networking masculinos e mistos também. Eu acho que, num ambiente onde só há mulheres que estão mais ou menos no mesmo patamar no mercado, elas ficam mais à vontade para falar de si e das suas angústias. Elas não deixam de ser uma mulher porque são presidentes de empresa. E essa é uma combinação muito desafiadora. Uma outra mulher te compreende melhor. Elas ganham mais se esse momento for só delas e entre elas. Meu papel não é fazer um grupo de networking. Meu papel é criar um ambiente de segurança e carinho para essas mulheres. 

F: Ainda precisamos adotar aquela postura masculina para nos dar bem na carreira ou já dá pra ser mulher o tempo todo?

AP: Houve um momento na nossa história recente em que as profissionais estavam buscando o respeito pela capacidade intelectual e de produção, então a gente só entregava isso. Cabelo curto ou médio, nunca longo ou cacheado, sempre de terno, sem decote. É como se, para ser respeitada como profissional, você tivesse que anular um pouco o lado feminino. Mas acho que essa geração mais nova está mais liberta desse tipo de pré conceito. Os homens estão tendo que se adequar a mulheres que estão muito firmes sendo mulheres. Usar um decote não me diminui, não faz com que eu seja menos profissional, menos séria no que eu entrego. Me faz apenas ser uma mulher que tem um decote. Porque eu tenho peitos! Mas precisa de muita segurança para chegar neste lugar. E, para mim chegou agora, aos 50 anos de idade. Eu não tinha essa segurança aos 30. E eu não ouvi nenhuma mulher falar sobre isso naquela época. Eu estava buscando respeito profissional, eu ganhei, mas não quero mais abrir mão de ser quem eu sou para ser boa. Não é simples, não é trivial, mas estou bem feliz com isso.

 

F: As gerações passadas de mulheres fizeram muito esforço para separar a feminilidade da carreira. Isso mudou agora?

AP: A entrada maciça das mulheres no mercado de trabalho brasileiro se deu nos anos 80. E como foi que a gente entrou no mercado de trabalho? Copiando homens, sendo muito duras, não trazendo questões pessoais e familiares para dentro de empresa como, por exemplo, o filho doente.  Porque não havia modelo feminino para gente copiar, então a gente copiou o masculino. Ao mesmo tempo, dentro de casa a gente disse para nossa família: “olha, eu vou trabalhar mas vai continuar tudo bem, tudo igual em casa”. E a gente não pensou nesse contrato perverso. Precisou de uma geração inteira para experimentar o desequilíbrio que esse contrato gerou para que esse começasse a ficar claro que era um sacrifício grande demais para ser pago. 

F: Mas talvez isso esteja mudando com as novas gerações…

AP: Hoje eu vejo que tem muitas meninas de 30 que são muito bem profissionalmente e que não abrem mão do equilíbrio e da vida pessoal eu acho isso incrível. 

F: Ana, vamos falar de dinheiro? Qual a importância que você dá para a administração do seu ?

AP: Dou uma importância imensa para administração do meu dinheiro, imensa. Eu acho que uma mulher só pode dizer que é independente se ela gera a própria renda. Não há como ter autonomia se você não consegue fazer as suas escolhas. Se você vai ganhar um presente, quem está te presenteando sempre vai saber que é um presente e você não pode fazer suas escolhas. Então você acaba virando um satélite de alguém que é provedor da renda que você gasta. Muito difícil falar de autonomia feminina sem falar de geração da própria renda. E eu sei o quanto isso é difícil.

F: É você quem toma as decisões sobre seus investimentos?

AP: Eu tenho um especialista que me ajuda, mas eu tenho um bom feeling sobre o tipo de coisas que eu gosto de fazer, de como eu quero investir. Eu planejo os grandes movimentos, a estratégia. Se quero ter liquidez, se quero ter dois imóveis, se quero ter um imóvel fora do Brasil para ter uma poupança em outra moeda… Claro que eu delego a administração cotidiana, mas a estratégia é minha. Não adianta você ganhar dinheiro e deixar pra alguém administrar. Se der tudo errado, a responsabilidade é sua, sim. Inclusive já troquei a administração porque não estava satisfeita. Eu não posso pedir pro meu marido fazer isso por mim. Ele faz com o dinheiro dele. E nós dois fazemos com o nosso. Mas eu não terceirizo, não peço pra um amigo economista. Dá um trabalho danado, mas é bom. Recentemente venho pensando em investir em nichos de mercado, em empresas. Estou pesquisando para fazer num futuro próximo.

 


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