De Mandela a Gates: a trajetória da pesquisadora que coordenou os testes da vacina de Oxford no Brasil

A carioca Sue Ann Costa Clemens foi condecorada pela Rainha Elizabeth ll e jantou na casa de Bill e Melinda .

Beatriz Calais
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Leo Aversa/Divulgação
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A carioca Sue Ann Costa Clemens, de 53 anos, foi condecorada pela Rainha Elizabeth ll e jantou na casa de Bill e Melinda

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“Olha só, já estou emocionada de novo”, diz a médica e pesquisadora brasileira Sue Ann Costa Clemens, com a voz embargada, ao lembrar de seu encontro com o líder Nelson Mandela em uma conferência sobre a falta de vacinas no continente africano, em 2002. “Ele tinha um problema nos olhos por conta da prisão, então avisaram que as luzes ficariam mais fracas quando ele entrasse na sala. Estávamos em um coquetel com representantes de grandes indústrias farmacêuticas e ministros de países em desenvolvimento quando, finalmente, a iluminação ficou baixa e todos fizeram silêncio”, conta. Nelson Mandela havia chegado no local.

Junto da esposa, a ativista moçambicana Graça Simbine Machel, o ex-presidente da África do Sul entrou na sala e começou o seu discurso. A vacinação no continente africano estava em queda. Faltavam insumos e capacidade operacional para a produção, então ele pedia investimentos dos países ricos e indústrias. “Ele escancarava as verdades de uma forma muito diplomática”, recorda a pesquisadora. Quando parou de falar, Mandela andou na direção de Sue e sentou-se na mesa ao seu lado. 

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Por um curto período, a brasileira aproveitou a proximidade e conversou com a esposa do sul-africano. “Começamos a falar sobre a saúde pública dos países em desenvolvimento, inclusive a do Brasil”, diz. Neste ponto da noite, a mente de Sue já fervilhava em ideias para honrar o bate-papo com sua vizinha de mesa e o discurso que tinha ouvido de camarote. “Acho impossível que alguém naquela sala tenha ido embora sem pensar em fazer algo para contribuir com a sociedade.” 

Na época diretora de vacinas da multinacional GSK (GlaxoSmithKline) para a América Latina e coordenadora de cursos de residência do ICC (Instituto Carlos Chagas), ela já sabia como fazer a sua parte. “As indústrias farmacêuticas só se direcionam aos países com grande incidência de doenças para fazer estudos. Quando essa fase acaba, empacotam tudo e vão embora. Minha ideia, então, foi de ajudar as pessoas desses países a terem um futuro como pesquisadores. Investir em ciência é essencial no combate a doenças”, diz. Sue foi embora e levou consigo uma pena que o ex-presidente retirou da decoração e entregou em suas mãos. Dentro de um vaso em sua casa, a pena é hoje um lembrete de seu papel como pesquisadora. 

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A VIDA PÓS-MANDELA 

Após a conferência, a brasileira criou o primeiro mestrado em vacinologia do mundo, na Universidade de Siena, Itália. “Cursos de vacinas já existiam, mas eu pensei em criar um mestrado completo para que os pesquisadores voltassem para suas casas com uma formação importante em mãos”, explica. “Ficamos mais de três anos correndo atrás de infraestrutura e investimento para que esses alunos tivessem financiamento e oportunidade para estudar”, diz. Em 2008, o mestrado nasceu. 

Hoje docente da Universidade de Oxford e do Instituto Carlos Chagas, Sue Ann já contribuiu diretamente para o desenvolvimento de vacinas como a do rotavírus e do HPV, além de chefiar o comitê científico da Fundação Bill e Melinda Gates na busca por um novo imunizante para a poliomielite. Embora seja conhecida no meio científico há quase duas décadas, nos últimos meses seu nome começou a ressoar na mídia por conta da atuação na pandemia de Covid-19. Em menos de um ano, Sue levantou do zero o financiamento para os testes da vacina Oxford/AstraZeneca no Brasil e foi  responsável por coordenar os estudos nos seis centros de testagem do imunizante no país (São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Natal, Porto Alegre e Santa Maria, no Rio Grande do Sul). 

“O professor Andrew Pollard, chefe do Oxford Vaccine Group, sabia que eu estava no Brasil no início da pandemia e me ligou perguntando se eu aceitava liderar as pesquisas em território brasileiro”, conta. Na época, a pesquisadora  estava trabalhando no desenvolvimento de vacinas como Clover e CureVac, mas os estudos sobre esses imunizantes estavam atrasados em relação à Oxford/AstraZeneca. No Reino Unido, a pesquisa comandada por Pollard desde o início de 2020 já havia passado pelas etapas pré-clínicas, com testes em animais, e tinha sua segurança comprovada. Na fase de testes em humanos, o plano do pesquisador britânico era expandir a pesquisa para a América Latina. “Eu precisava realizar a fase 3 no Brasil, última etapa, quando se comprova a eficácia do imunizante.”

“Custosa, longa e complexa”. É assim que a brasileira define a fase três do desenvolvimento de uma vacina. Na indústria farmacêutica, ela já havia realizado diversos testes semelhantes, mas nenhum deles com a mesma urgência. No dia da primeira reunião de Sue com o professor Andrew Pollard, o Brasil tinha registrado 600 mortes pela Covid-19 em 24 horas. Ao todo, com a curva epidemiológica em ascensão, eram quase 8 mil mortos e 116 mil pessoas contaminadas no país. “Tínhamos pressa. Era a minha chance de colocar a mão na massa e começar os testes imediatamente. Uma oportunidade única: avançar rápido para salvar vidas.”. 

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Tudo isso só seria viável se a pesquisadora tivesse acesso a centros de testagem de excelência. “Ainda dependia de financiamento e foi aí que decidi entrar em contato com a Fundação Lemann e a Rede D’or”, conta. As respostas foram quase instantâneas. “Eles me responderam em apenas uma tarde. Eu tinha o desafio gigantesco de montar a minha estrutura de testagem em quatro semanas. Se não fosse isso, não conseguiríamos provar a eficácia dessa vacina ainda em 2020.”

PERCALÇOS DE UMA VACINA

“Não tínhamos agulha, termômetro e, muitas vezes, nem máscaras suficientes”, resume Sue sobre a situação dos centros de testagem. Tudo precisava seguir rigorosamente as medidas sanitárias e não havia recursos em grande quantidade. Os termômetros, por exemplo, perdem a sensibilidade se forem desinfetados muitas vezes. Sem as agulhas, não tinha como serem colhidas as amostras para enviar aos laboratórios internacionais. Sue Ann, então, percebeu que estava vivenciando um cenário raro. “Comecei a registrar tudo para mostrar aos meus alunos e deixar como um marco para o futuro. Até procurei algumas editoras para entender como poderia publicar essas memórias”, lembra. Quando seu nome chegou aos ouvidos do mercado editorial, no entanto, os planos do setor para sua história mostraram-se mais ambiciosos do que um simples diário. 

Cocriador do selo “História Real”, da editora Intrínseca, o jornalista Roberto Feith entrou em contato com a pesquisadora. “Eu estava decidida de que não tinha tempo para escrever um livro”, revela. Naquele dia, Feith foi embora sem a resposta que esperava mas, pouco tempo depois, a cientista entrou em contato dizendo que havia decidido publicar um livro sobre sua trajetória. Batizada de “História de uma Vacina”, a obra foi lançada no início de outubro. 

Além dos percalços do último ano, o livro fala da vida da pesquisadora: o contato com a vida no campo na infância a aproximou da ciência de forma natural. Sua avó paterna tinha uma espécie de tradição curiosa: caçar cobras para ajudar no desenvolvimento de soros antiofídicos. Sem saber, Sue Ann já ajudava na criação de imunizantes ao acompanhá-la nessas caçadas. Também ia junto com seu pai na vacinação dos gado da fazenda familiar em Vargem Grande do Sul, no interior de São Paulo. 

Divulgação
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O livro de Sue Ann Costa Clemens foi lançado no início de outubro

Para a criança que cresceu com essas experiências, era natural pensar na medicina como um sonho de vida, mas Sue não imaginou que  a curiosidade científica a levaria até a casa do bilionário e filantropo Bill Gates, em Seattle.

SUE ANN NA CASA DE GATES 

Casada com o médico e pesquisador alemão Ralf Clemens, Sue respira o mundo acadêmico também dentro de casa. Seja em conferências científicas ou em jantares com amigos próximos, naturalmente sua rede de contatos é recheada de personalidades da ciência. Foi esse “networking” movimentado que fez com que, em 2012, um dos homens mais ricos do mundo ouvisse seu nome pela primeira vez. “Conhecíamos algumas pessoas que trabalhavam na Fundação Bill e Melinda Gates, então quando eu e meu marido fomos chamados para conversar com ele, achamos que seria um encontro cheio de pesquisadores.”

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Sue rodou a cidade norte-americana em pleno feriado procurando uma loja aberta para comprar uma roupa adequada para a ocasião. “Bill e Melinda estavam atrasados, vindo de helicóptero do Havaí. Esse tempo foi o bastante para que a minha ficha caísse: seria um jantar com apenas nós quatro”, diz. O objetivo do bilionário era convidar Sue e Ralf para integrar o comitê científico da sua fundação. 

Sentada em uma mesa de frente para o lago da casa de Bill Gates, a brasileira conta, entre risadas, que naquele momento seus olhos lacrimejavam, mas não por estar emocionada. “Estava exausta e com muito sono. Para completar, sentei de frente para a janela e o sol estava batendo no meu rosto”, conta. Gates se ofereceu para fechar a persiana, mas não sabia como mexer nos muitos botões. “Melinda tinha saído e, quando voltou, disse: ‘Bill, você não está conseguindo fechar a persiana?’”. Ela andou até ele, apertou o botão certo e resolveu a situação. “Isso é a força feminina”, brincou. No final do jantar, a Sue Ann deixou de presente uma boneca de cabaça, típica decoração brasileira, e aceitou o convite de Gates. Hoje, ela é chefe do comitê científico da Fundação Bill e Melinda Gates e busca por um novo imunizante para a poliomielite. 

Em agosto, Sue Ann foi condecorada pela Rainha Elizabeth ll com o título de comandante do império britânico pela sua atuação no desenvolvimento da vacina da Oxford/AstraZeneca. Quando questionada sobre como dar conta de tantos compromissos e funções, ela encerra a entrevista com um resumo de como são seus dias. “Vou emendar essa conversa com uma reunião, mas acho que vou me atrasar.”

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