Raquel Virgínia: “É urgente discutir a diversidade sob a ótica da inovação”

Artista e CEO, ela fala sobre a importância de trazer novas nuances ao processo de criação.

Luiz Gustavo Pacete
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“A pessoa trans confere uma nova perspectiva e vivência na criação de um produto ou projeto”, diz Raquel

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O Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado neste sábado (29), traz uma série de pautas relacionadas ao universo da inclusão trans. Para Raquel Virgínia, artista e mulher trans fundadora da banda As Baías e a Cozinha Mineira, agora em carreira solo, e CEO da consultoria Nhaí, os desafios sociais são enormes. No entanto, quando a pauta chega ao ecossistema de negócios, é importante ter foco, estratégia, construir pontes e, sobretudo, desenvolver um olhar propositivo para que empresas consigam enxergar a diversidade pela ótica da inovação.

Nesta sexta-feira, (28), a Nhaí realizou o Contaí, plataforma que se propõe, por meio de conteúdo, conexões e vivências, aumentar o senso empreendedor e de inovação na comunidade trans. À Forbes Brasil, Raquel defende que a pauta não deve ser de atrito, mas de construção de diálogo e iniciativas que construam base para uma agenda positiva. Dentre vários projetos, Raquel, por meio de sua consultoria, já desenvolveu parcerias com empresas como PepsiCo, agências de publicidade e outras marcas.

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Forbes Brasil: Como você enxerga importância da inclusão trans no ecossistema de inovação?
Raquel Virgínia: A importância da pessoa trans no processo de constituição de um produto, projeto ou campanha se dá por meio de nova perspectiva, vivência e repertório que se agrega a um projeto. É inevitável que, ao fazer parte de forma diretiva, uma pessoa trans preparada – por isso precisamos de políticas de incentivo nesse sentido – tem grandes chances de acoplar transformação e novas experiências, pois nossa vivência, por tudo que já passamos, é organicamente disruptiva. Pensando no storydoing, aprendemos na pratica a inovar e podemos cooperar na criação de novos modelos de forma prática.

Raquel Virgínia: “a música me desperta a criação, a vontade de viver melhor e mais intensamente. A inovação é criar, é se jogar e arriscar. Música é risco. Inovar é risco” (Crédito: Divulgação)

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F: A Nhaí criou uma plataforma que conscientiza e prepara as pessoas trans para os desafios do empreendedorismo, qual a importância dessa iniciativa?
RV: O Contaí! é um projeto de encontro de potencias LGBTQIAP+ que empreendem. O Brasil já impõe muitas barreiras ao ato de empreender, e mesmo fazendo parte de grupos minorizados – essas pessoas conseguem equacionar as dificuldades e inventam oportunidades. Quando se precisa além de superar os desafios do mercado, enfrentar barreiras ainda relacionadas a preconceitos para fazer parte do ecossistema, o desafio torna-se ainda maior. E o Contaí! é para que possamos nos conhecer, trocar experiências, falar de nossas lacunas, criar pactos, aumentar a percepção do mercado em relação à diversidade e geração de oportunidades.

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F: Você fundou uma banda e ainda equilibra a carreira de artista e cantora com a vida de executiva. Como essas vivências se alimentam?
RV: A música me desperta a criação, a vontade de viver melhor e mais intensamente. A inovação é criar, é se jogar e arriscar. Música é risco. Inovar é risco. Todos os dias penso em como me tornar uma CEO que tira a equipe da zona de conforto e me retiro dessa zona também. A Nhaí é uma agência de inovação de narrativas que cria e recria protagonismo e soluções para comunicação. Ser CEO dessa agência é um grande despertar e, neste contexto, a música me desperta. No final, está tudo interligado.

F: A pauta da diversidade avança no ambiente corporativo por meio de várias iniciativas, porém, existe uma outra pauta que é acelerar a chegada da diversidade na inovação. Como você enxerga esse movimento?
RV: Grandes empresas são organismos vivos cheios de setores e com pessoas de diferentes intenções. Mesmo que a empresa tenha uma política melhor desenvolvida em relação ao tema da diversidade, isso é mais sensível a algumas pessoas do que a outras – por vivências diferentes – e empresas são feitas por pessoas. O que sinto é que as pessoas dentro das empresas estão despertando para a importância econômica e social da diversidade. Esse despertar ainda precisa ser mais resolvido, mas creio que o caminho está sendo trilhado incansavelmente por muita gente que cada vez mais acredita nisso. Meu único conselho para as empresas é: apenas faça. Não tem jeito de começar mais certo ou menos certo. Existe começar e perseguir caminhos que vão se rearranjando conforme contexto. As vezes as empresas querem modelos perfeitos para começar e sabemos que todo começo será de um jeito ou de outro contraditório. Para inovar é preciso coragem de ser contraditório, inclusive.

F: O que pode melhorar nessa dinâmica?
RV: Falta criar metas e persegui-las incansavelmente. Muitas vezes vejo vontade, mas falta consolidação. Consolidar é criar metas e ir atrás dessas metas como qualquer outra que é pilar para a empresa. Entender que tornar a empresa diversa não é ornamento e sim fundamento. Conseguir implementar lógicas inovadoras de inclusão. Que saiam do lugar comum e gerem novas interações entre as pessoas.

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