Empresa que criou ovo vegetal recebe aprovação para vender frango cultivado a partir de células em Singapura

GOOD Meat/Divulgação
GOOD Meat/Divulgação

Eat Just Inc. é a primeira a conseguir aprovação governamental para dar andamento em vendas de proteína desenvolvida em biorreatores

A Eat Just Inc. tem uma resposta para uma pergunta antiga. O ovo veio primeiro e agora vem a galinha. Estamos falando de ovo vegetal e frango cultivado, para ser mais preciso.

No Dia de Ação de Graças norte-americano, a empresa que desenvolveu o JUST Egg recebeu a aprovação regulamentar para começar a vender frango feito de células cultivadas em Singapura. O processo intensivo para obter a aprovação levou dois anos de funcionários estudando todos os aspectos do processo de produção, protocolos de segurança e instalações de fabricação, disse o fundador e CEO da empresa, Josh Tetrick.

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A JUST criou uma marca separada, a GOOD Meat, para comercializar o frango, para evitar confundir os consumidores que estão acostumados com os produtos à base de plantas da empresa. O frango da GOOD Meat é, na verdade, carne de frango feita a partir de linhagens celulares cultivadas em biorreatores de 1.200 litros, produto diferente de alternativas plant-based.

Embora várias empresas em todo o mundo, incluindo Mosa Meats, Memphis Meats e BlueNalu, estejam desenvolvendo carnes e frutos do mar cultivados e tenham despertado o interesse de investidores, este produto é o primeiro a obter a aprovação governamental necessária para começar as vendas.

Nos EUA, os reguladores deram os primeiros passos em direção a um processo de aprovação há mais de dois anos. Em novembro de 2018, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e a Food and Drug Administration divulgaram pela primeira vez um acordo preliminar para a supervisão conjunta da incipiente indústria de carnes cultivadas nos Estados Unidos. O acordo, finalizado em março de 2019, foi elaborado para garantir que produtos contendo carnes e aves cultivadas sejam produzidos com segurança e rotulados com precisão, disseram as agências em um comunicado conjunto.

Parecia um passo à frente na época em uma área totalmente nova de produção de alimentos da qual há muito se falava, mas, mais de dois anos depois, ainda não há produtos de carne cultivada disponíveis para os consumidores nos EUA ou em qualquer outro país.

Singapura na frente

Isso está prestes a mudar em Singapura, onde o produto da GOOD Meat será lançado em breve com um único restaurante-parceiro, ainda a ser escolhido. Os primeiros produtos serão pedaços de frango do tipo nugget, e virão com um informativo sobre como o frango foi feito e como ele difere da carne convencional.

A Eat Just aprendeu tudo sobre como desenvolver e aperfeiçoar novos produtos e dimensionar a produção para atender à demanda com a criação de seus primeiros alimentos à base de plantas, incluindo o JUST Egg, que agora tem seguidores globais. Ao longo do caminho, a empresa encontrou grandes empresas de ovos e aves para fazer parceria na Europa e na Ásia.

Os objetivos da GOOD Meat são os mesmos: chegar a dezenas de milhões de restaurantes e lojas de varejo globais e, potencialmente, fazer parceria com grandes empresas de carne para acelerar o crescimento e lançar mais produtos cultivados, como peitos de frango, carne bovina e outras carnes, disse Tetrick.

Embora as lições sobre crescimento aprendidas durante o desenvolvimento de produtos à base de plantas sejam transferidas para a nova marca, o processo de produção real é muito diferente. A empresa iniciou a pesquisa e o desenvolvimento da carne cultivada há cerca de quatro anos e desde então tem trabalhado na expansão e aceleração da produção, reduzindo os custos de produção 40 vezes, disse Tetrick.

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A maior parte do frangos cultivados serão produzidos em uma instalação em Singapura, o que os coloca próximos ao primeiro mercado onde serão lançados. Tetrick espera que o lançamento encoraje os reguladores em outros mercados –incluindo os EUA e a Europa– a acelerar o desenvolvimento de seus próprios processos de aprovação regulatória.

“Acho que eles vão ver o que está acontecendo e isso provavelmente vai causar um sentimento de pressa”, pontuou. “Singapura realmente decidiu que queria entrar nisso. Eles passaram dois anos desenvolvendo um processo regulatório rigoroso. Eles o aplicarão a outros produtos e outras empresas também. Singapura se estabeleceu como líder.”

A carne cultivada é um tema importante para o The Good Food Institute, que apoia empresas que trabalham para colocar seus próprios produtos no mercado e aplaude os investimentos de tempo e dinheiro do governo de Singapura no desenvolvimento do processo de aprovação regulatória.

“Singapura lançou o desafio e outros países precisam aceitá-lo”, disse o diretor executivo da GFI, Bruce Friedrich, em um comunicado. “A carne cultivada marcará um enorme avanço em nossos esforços para criar um suprimento de alimentos que seja seguro, protegido e sustentável, e Singapura está liderando o caminho nesta transição”.

Ainda há desafios

Fazer alimentos cultivados é uma tradição consagrada pelo tempo, e cultivar células não é algo tão novo assim, mas usar esse processo para produzir carne em grande escala ainda não tem precedentes.

“Um dos maiores desafios era descobrir uma maneira de fazer uma enorme quantidade de produtos”, disse Tetrick. O próximo grande obstáculo era substituir o meio de cultura que usava uma pequena quantidade de soro de origem animal por um meio sem procedência, que era um objetivo principal. “O objetivo de fazer isso é ajudar a criar um planeta habitável, então queremos que tudo seja o mais sustentável possível”, disse ele.

Esses obstáculos foram superados e o terceiro está à frente.

“Nós conseguimos fazer dezenas de milhões de quilos de carne, mas isso não significa que os consumidores vão comprá-la. Precisamos ser o mais convincentes possível.”

Isso significa ser direto e totalmente transparente sobre o processo de produção e as razões por trás dele. Ao mesmo tempo, permitir que os consumidores experimentem os produtos por si próprios, falou.

“Seremos abertos sobre como desenvolvemos a linha de células. Podemos trazer câmeras para o processo para que possam ver que estamos totalmente prontos para falar sobre isso. Os consumidores poderão ver que você pode fazer carne a partir de uma única célula e não precisa matar um animal ou desmatar um único acre de floresta tropical.”

Algumas pessoas podem experimentar o produto e aprender como ele é feito e ainda sim decidir que não querem consumi-lo, disse Tetrick. Mas dar transparência ao processo também é uma forma de destacar as diferenças entre a carne cultivada e a carne convencional, incluindo o fato de que produzir proteína dessa forma permite que a empresa evite a contaminação por salmonela, E.coli e outros patógenos que causam intoxicações. Dessa maneira, a carne não precisa de antibióticos.

O produto será rotulado como “frango cultivado” e os clientes dos restaurantes saberão o que estão pedindo, disse ele. “Queremos ter certeza de que a equipe é totalmente treinada, queremos que todos sejam capazes de explicar exatamente o que é.”

Assim como o objetivo ao criar a JUST Egg era promover uma alternativa mais humana e ecológica aos ovos de galinha, a missão da GOOD Meat é estimular essas qualidades no fornecimento de carne.

“Acho que o que vai acontecer é que você terá restaurantes e varejistas em todo o mundo, onde carne, peixe e frango de cultura serão a principal fonte, porque as pessoas perceberão que é mais limpo e mais saboroso e, em última análise, será a opção de custo mais baixo,” disse.

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Também haverá carnes à base de plantas, porque algumas pessoas simplesmente não querem comer carne de animais, mesmo que seja produzida de forma humanizada, acrescentou. E, finalmente, uma porcentagem muito pequena da carne será criada a pasto e produzida em fazendas de pequena escala, disse Tetrik.

O CEO da empresa tem uma sobrinha de 18 meses chamada June. “Antes de ela se formar no ensino médio, quero que o mundo seja aquele mundo”, disse ele. “Um mundo onde produzir carne não envolve matar um animal.”

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