Caminhos do Cacau: por que a Dengo paga mais aos produtores pelo cacau de seus chocolates

Especial que faz parte do "Dia do Cacau" mostra como a marca já destinou R$ 3,6 milhões à capacitação no campo para ter amêndoas premium.

Erich Mafra
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Até chegar à forma de chocolate, o cacau utilizado da Dengo é avaliado em um processo de 11 etapas

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Uma das principais referências para o valor do cacau é a Bolsa de Nova York, local onde as commodities globais se encontram. Nesta semana, o contrato futuro de uma tonelada da amêndoa estava cotada a US$ 2.586 (R$ 12.265), para entrega em maio, valor muito abaixo do que os produtores de cacau do Sul da Bahia estão recebendo para entregarem a produção à marca paulistana de chocolate Dengo, que em 2020 abriu sua primeira loja na avenida Brigadeiro Faria Lima.  Na Dengo, a tonelada da fruta baiana  pode valer até R$ 24.600 para os parceiros da marca.

A marca paga esse preço diferenciado aos produtores porque precisa de um cacau de qualidade para cumprir o que vende aos seus consumidores: um chocolate com valores sustentáveis e que impacte a economia local.  “Esse mecanismo de transferência de riqueza é a melhor forma de gerarmos negócios e desenvolvimento econômico da cadeia”, diz o engenheiro industrial Estevan Sartoreli,  CEO da Dengo e ex-funcionário da Natura, companhia que  produz cosméticos com pegada ESG. O executivo criou a marca de chocolate em 2017 ao cooptar para o projeto Guilherme Leal, um dos fundadores da Natura. Foi com um plano de negócio que mostrava como iriam gerar valor para a economia do cacau baiano que Sartoreli convenceu Leal.

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A Dengo tem hoje 136 produtores de cacau conectados à marca. Os investimentos já somam cerca de R$ 3,6 milhões porque a dupla de executivos não apenas compra as amêndoas, mas também aposta na capacitação dos parceiros visando a produção de uma  matéria-prima de qualidade superior para o processamento do chocolate. Sartoreli conta que realizaram mais de 200 treinamentos e visitas técnicas a produtores nos quatro anos de vida da marca.

Segundo um levantamento inédito que a empresa finalizou em fevereiro, o investimento feito na melhoria do cacau permitiu que 80% dos produtores que entregam a produção à Dengo  atingissem uma renda maior que o custo de vida local.  Segundo a plataforma Living Cost, o custo de vida para uma família de quatro pessoas em Ilhéus (BA), principal município produtor de cacau, pode chegar a cerca de R$ 6.500, algo em torno de cinco salários mínimos. 

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Para impulsionar a produção de cacau sustentável, a marca de chocolates Dengo investiu cerca de R$ 3,6 milhões na capacitação dos produtores

Para produzir seus chocolates marcados pela ausência de conservantes e gordura hidrogenada, a empresa criou um fluxo de 11 etapas para a seleção do cacau utilizado em seus produtos. Em um primeiro estágio, o produtor interessado entra em contato com a Dengo e recebe informações de como produzir um cacau de qualidade e sustentável. Todos os parceiros da marca utilizam o sistema de cabruca, maneira de cultivo agroflorestal em que árvores nativas fornecem a sombra necessária aos cacaueiros.

Após este primeiro contato, a empresa envia uma equipe técnica localizada em Ilhéus, para avaliar o plantio e as condições socioambientais da fazenda interessada. Por fim, antes da etapa de negociação e entrega, o produtor  testa um lote do cacau no CIC (Centro de Inovação do Cacau), que funciona dentro da Universidade Estadual de Santa Cruz, também em Ilhéus, que analisa as propriedades químicas da amêndoas, como PH (indicador de acidez) e a fermentação. A menor a acidez possível indica que o cacau é de alta qualidade e, consequentemente, o chocolate terá um sabor melhor.

“Fazemos tudo direto com o produtor, não aceitamos intermediadores. Queremos saber quem está por trás para termos a rastreabilidade total e garantir que não há a utilização de uso extensivo de agrotóxicos, mão de obra escrava, informalidade e outros fatores”, diz Sartoreli. “Também não atuamos como trader, não fazemos movimentos especulativos de compra e venda. Ou seja, a gente compra quando o produtor quer vender. Até porque, se fizéssemos um movimento entendendo altas e baixas do cacau em bolsa, seria contraproducente para promover a geração de renda para o produtor.”

Preço justo para produto de qualidade

Após a compra, o cacau da Dengo é levado para a fábrica própria da empresa, localizada na capital paulista, onde está sua sede. Com o processo de melhoria sustentável adotado desde a sua fundação, a marca hoje já preservou 15 mil hectares de floresta e é capaz de pagar até 91% de prêmio de preço pago sobre o cacau commodity.

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Ex-executivo da Natura, Estevan Sartorelli fundou a Dengo com o intuito de revolucionar a cadeia de produção do cacau baiano

Tais diferenciais na forma de produção e na compra responsável do cacau são reconhecidos para um público crescente que aprecia produtos premium. Um kit com 654 gramas de chocolate custa R$ 202,80 no site da Dengo. Mas isso não significa produto inacessível para quem entra em uma das 28 lojas da marca. Uma trufa pode ser degustada por R$ 3,90, preço próximo à faixa de outros bombons  encontrados em supermercados.

“Numa questão de sobrevivência e mudanças substanciais que o mundo nos coloca cada vez mais, eu não tenho dúvida que as categorias de itens não essenciais, como o chocolate, precisam ter uma reprecificação responsável, que incorpore os custos da mão de obra envolvida e da saúde que o produto oferece”, pontua Sartoreli. “A gente está vivendo uma onda da sobreexposição do propósito. Então, o consumidor está cada vez mais esperto com negócios que possuem compromissos verdadeiros e consegue discernir se a marca está adotando aquele core como algo mercadológico ou se o produto realmente causa impacto.” 

O que a Dengo pratica vai ao encontro da pesquisa The Global Sustainability Study, realizada mundialmente pela consultoria Simon-Kucher & Partners: cerca de ⅓ dos consumidores globais estão dispostos a pagar mais por um produto amigável ao meio ambiente. E é justamente de olho nessa tendência de consumo que a marca estuda alçar voos maiores e abrir unidades em países da Europa. “A gente acredita muito na proposta de valor, por ser um chocolate de impacto ESG, que apresenta um Brasil que nos orgulha”, afirma Sartoreli. “Acreditamos no potencial da marca para viajar e há dois anos realizamos estudos de internacionalização — alguns adiados pela pandemia —, mas agora em 2022 nós retomamos essas discussões.”

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