Impacto trilionário: pesquisadores brasileiros congelam sêmen de corais para combater extinção

Enrico Marcovaldi
Enrico Marcovaldi

A Fundação Grupo Boticário investiu R$ 168 mil para a formação de um banco de gametas

“Hoje, estima-se que quase 50% dos recifes de corais do planeta já desapareceram”, alerta Leandro Cesar de Godoy, professor da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e pesquisador associado do Instituto Coral Vivo. Foi pensando em uma eventual extinção desses animais que o instituto, a partir do investimento da Fundação Grupo Boticário, decidiu explorar uma tecnologia pioneira e criar um banco de gametas para reprodução assistida de corais. “Trabalhamos com a Mussismilia harttii, uma espécie hermafrodita que produz óvulos e espermatozoides e os libera na água. Temos a capacidade de coletar e congelar esse material genético para o futuro”, explica.

Para o especialista, que trabalha com biotecnologia na preservação de peixes há dez anos, a maior dificuldade ao explicar o projeto é fazer com que as pessoas visualizem a importância dos corais em suas próprias vidas. “Os recifes de corais movimentam algo em torno de US$ 10 trilhões por ano em todo o planeta, segundo o Manual de Monitoramento Reef Check Brasil 2018”, destaca. “Se a partir de números a informação fica mais clara, eu posso dizer que um simples hectare é capaz de gerar até US$ 2 milhões por ano e que cerca de 100 países dependem diretamente dessas áreas marinhas. Estamos falando de 500 milhões de pessoas que precisam desse ambiente para viver.”

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Isso acontece, em partes, por conta da biodiversidade que gira em torno da pesca e do turismo. “Recursos pesqueiros servem como renda e alimentação de diversas populações. Sem os corais, o oceano, como um todo, é prejudicado. Pelo menos um em cada quatro organismos marinhos têm uma dependência direta desses seres”, revela. “Eles são como uma grande metrópole submersa, servindo de moradia e espaço para alimentação, reprodução e desova de outras espécies”. No mais, o turismo, tanto no Nordeste brasileiro quanto no exterior, arrecada milhões com a riqueza dos recifes de corais.

Janaína Bumbeer, bióloga e analista de ciência e conservação da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, também ressalta a importância dos recifes para a infraestrutura das cidades costeiras. “Os corais funcionam como uma barreira de proteção para as cidades. Elas reduzem em 97% a energia das ondas do mar aberto. Imagina deixar toda essa área completamente vulnerável?”

Como se não fosse o bastante, Godoy ainda destaca o potencial biomédico dos corais. “Eles são animais sésseis, ou seja, não se locomovem. Sendo assim, se desenvolvem através da produção de substâncias químicas. Isso é super interessante: a chance de extração de substâncias para a produção de medicamentos e vacinas, por exemplo, é muito maior do que em uma floresta tropical como a Amazônia”, explica. “Proteger a existência desses seres é questão de sobrevivência.”

Um investimento necessário

Segundo Janaína, a Fundação Grupo Boticário já doou mais de US$ 6 milhões para projetos marinhos nos últimos anos. No caso do Instituto Coral Vivo, foram investidos R$ 168 mil para a formação de um banco de gametas. “Apoiamos projetos há 30 anos e a vida marinha sempre foi uma das maiores frentes, justamente por ser uma área que precisa de muito investimento pelo difícil acesso e demanda de alta tecnologia”, revela a bióloga, que ainda destaca o pioneirismo da ciência brasileira. “As técnicas de criogenia e de reprodução assistida exploradas só foram utilizadas, até o momento, no Havaí e em Taiwan. Temos nossas particularidades e espécies diferentes, com o investimento certo, conseguimos usar todo nosso potencial criativo.”

Com uma equipe de mais de 20 pesquisadores e administradores, Godoy conta que a logística para a realização do estudo é intensa, necessitando fortemente de uma ajuda financeira. “Essa pesquisa só está acontecendo graças ao apoio privado. É o que tem tornado possível o desenvolvimento.” Ele explica que há duas bases importantes para o projeto: uma em Porto Alegre, na faculdade, e outra em Arraial d’ Ajuda, no sul da Bahia, perto dos recifes da região. “Precisamos viajar, mergulhar, coletar as colônias, transportar para a base e esperar para que a desova aconteça durante a noite, o que ocorre apenas em época de lua nova. É uma janela de tempo muito curta para trabalhar.”

Projeto Coral Vivo
Enrico Marcovaldi

A base de pesquisa do Instituto Coral Vivo é dentro do Arraial d’Ajuda Eco Parque

Embora seja um tempo de reprodução complexo, o foco nessa espécie de coral – conhecida popularmente como coral cérebro – tem uma explicação muito sensata. “Ela é uma das responsáveis por moldar a estrutura dos recifes da costa brasileira e já está na lista como perigo de extinção. É uma espécie essencial ecologicamente”, diz Janaína. “Além disso, é uma espécie endêmica, que existe apenas em um lugar, no caso, no Brasil. Se elas entrarem em extinção, acabam no mundo inteiro”, completa.

O desaparecimento dos corais

“Tudo isso é consequência do aquecimento global”, ressalta Godoy. “O aumento da temperatura nos oceanos gera o branqueamento dos corais, ou seja, a perda da simbiose desses seres com as algas, que geram quase 100% de sua alimentação. Quando ocorre o embranquecimento, os corais literalmente morrem de fome”. Segundo o especialista, se o aquecimento do planeta continuar nesse ritmo, é possível perder até 90% dos recifes até 2050. “Pode ser um dos primeiros ecossistemas a desaparecer, o que traria uma consequência catastrófica. Por isso, estamos montando os bancos de gametas.”

A ação humana no contato direto com a natureza também pode impactar negativamente na saúde dos recifes. “Muitas pessoas não sabem, mas o coral é um animal, ele está vivo”, destaca. “O ecoturismo associado a regiões de recife de coral precisa ser feito com muita cautela, visto que muitas pessoas pisam nos corais achando que é uma pedra. Educação ambiental é algo urgente.”

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O professor ainda ressalta o cuidado no uso do protetor solar. “Praticamente 80% dos protetores solares tem oxibenzona, cientificamente comprovado como um produto que causa branqueamento nos corais.” Sendo assim, o indicado é não utilizar o produto em contato com a água – ou observar a fórmula utilizada. “Estima-se que 16 mil toneladas de protetor solar são deixados no mar pelos banhistas. Infelizmente, observamos, em várias regiões do mundo, um turismo desordenado.”

Por enquanto, à espera do lento avanço da consciência ambiental, Godoy diz se orgulhar do projeto e de seus impactos para a ciência brasileira. “Para eu chegar no objetivo final, aprendo particularidades da biodiversidade do meu país. Quanto tempo um espermatozóide vive na água? Qual a diferença dos nossos recifes em relação a outras espécies ao redor do mundo? Todo esse conhecimento básico está sendo construído com grande potencial de impactar o futuro”, finaliza o pesquisador.

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