Agravamento da pandemia faz doações corporativas acelerarem, mas entidades temem que ajuda não seja suficiente

País vive pior momento da crise sanitária e instituições pedem socorro ao setor privado .

Cleber Souza e Mateus Omena
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Família recebe auxílio alimentação das mãos de voluntários da Gerando Falcões

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No início da pandemia, em março de 2020, viu-se uma espécie de corrida solidária entre as empresas. Grandes doações foram feitas para mitigar os efeitos da crise sanitária no Brasil. Segundo dados do Monitor das Doações Covid-19 (ferramenta da ABCR, a Associação Brasileira de Captadores de Recursos, que reúne números das doações realizadas em razão do coronavírus), cerca de R$ 6,5 bilhões foram doados pelas companhias privadas ao longo do ano passado. 

As ações, que são colocadas em prática por meio de parcerias com ONGs (Organizações Não Governamentais) e movimentos sociais, para arrecadar de alimentos, produtos de limpeza, EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) e até ajuda financeira para a construção e a manutenção de hospitais, voltaram a acelerar desde o começo deste ano, com o agravamento da pandemia e aumento dos números de casos e mortes.

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No entanto, apesar de o valor arrecadado nos três primeiros meses do ano ter passado de R$ 1,9 bilhão, de acordo com o site “Central de Transparência Doações Covid-19”, associações comunitárias temem que a ajuda não dê conta do buraco causado pela crise. O dado é considerado preocupante por entidades envolvidas em causas humanitárias, que estão criando movimentos em busca de recursos e soluções para que não faltem produtos considerados básicos para a população no momento mais difícil enfrentado até agora. 

Segundo essas ONGs e movimentos, se por um lado os decretos de fases emergenciais visam proteger a população e frear a disseminação do vírus, por outro eles deixam trabalhadores em casa e impactam pequenos negócios de forma particularmente dura. E, uma das formas de melhorar esse panorama, seria contar com uma maior participação de grandes companhias em causas solidárias. 

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Segundo especialistas e líderes de associações como ABCR, Cufa (Central Única das Favelas), G10 das Favelas e Gerando Falcões ouvidos pela Forbes, as empresas devem colocar em prática seus valores de responsabilidade social e demonstrar que estão atentas à crise. Mas, para eles, a participação das companhias tem sido “tímida”, e as perspectivas são “as piores possíveis”, com o temor de um aumento grande no número de pessoas sem recursos e condições básicas para sobreviver à Covid-19

Para Márcia Woods, presidente do conselho da ABCR, os efeitos socioeconômicos da pandemia atingiram tanto os cidadãos comuns como a iniciativa privada. Por isso, diversas empresas estão assumindo compromissos no enfrentamento dos problemas sociais do Brasil. “A crise sanitária nos mostrou o quanto somos interdependentes e que não podemos nos manter indiferentes à realidade. Assim, muitas empresas se tornaram mais conscientes de seus deveres com as questões socioambientais do país e estão promovendo iniciativas para melhorar a qualidade de vida de comunidades e grupos vulneráveis”, explica. 

Redução de doações 

Com base no censo realizado pelo Gife (Grupo de Institutos Fundações e Empresas), que registrou cerca de R$ 3,2 bilhões doados por empresas e fundações para projetos com organizações filantrópicas entre 2018 e 2019, Márcia afirma que esse valor significou um crescente engajamento das companhias e passou a ser visto como um montante referencial, levando em conta seus impactos em ações sociais. Por outro lado, a pandemia de Covid-19 também elevou as mazelas sociais e a necessidade de novos esforços do terceiro setor. E, para a especialista, o volume de R$ 6,5 bilhões doados pelas empresas no combate à Covid-19 em 2020 foi essencial e simbolizou a capacidade de contribuição das corporações.  

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Presidentes de rua se unem para ações no campo do Palmeirinha, na favela de Paraisópolis, em São Paulo

A vice-presidente da ABCR percebe, ainda, que o engajamento de um negócio em causas sociais incentiva pessoas e outras organizações a colaborarem com projetos de transformação positiva na sociedade. “Há uma perspectiva moral e ética ganhando espaço no mundo corporativo de que não se pode mais aprofundar as desigualdades sociais, muito menos ignorá-las. E isso cria valores que impulsionam outros empreendedores e cidadãos a buscarem soluções sustentáveis, dar voz às comunidades, entender suas demandas e complexidades e encarar os desafios contemporâneos”, afirma. 

As doações, de acordo com as associações, variaram entre R$ 10 mil e R$ 1,3 bilhão em 2020, com empresas reconhecidas nos mercados global e nacional e pequenos empreendedores locais participando ativamente de ações sociais em comunidades espalhadas pelo Brasil. Os líderes, entretanto, não estimam um um valor ideal que possa suprir as necessidades básicas dos brasileiros, mas reforçam que alimentação, higiene e medicação são prioridades neste momento. 

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Segundo o site “Central de Transparência Doações Covid-19”, 80% da arrecadação é em dinheiro, 60% em produtos de itens básicos, como alimentos, higiene pessoal e medicamentos, 31% em serviços, 14% em obras entregues e estrutura e 2% para receitas futuras. 

Gilson Rodrigues, presidente do G10, espera que grandes empresas procurem mais formas de ajudar com doações. “Depois do protagonismo que estabelecemos, estamos conversando com algumas empresas com esse intuito. Esperamos que, neste momento crítico, elas possam nos ajudar. E sentimos mais vontade por parte delas.”

Todas essas ações, do início da pandemia, só puderam ser realizadas graças ao suporte de empresas que estabeleceram parcerias com o G10. “Precisamos ainda mais delas agora. Uma grande rede de apoio e solidariedade foi construída, e a partir dessa mobilização a gente conseguiu articular diversas iniciativas que também ajudaram a amenizar o impacto que essa crise sanitária tem causado no nosso país”, afirma Rodrigues, que também reforça a importância da responsabilidade social exercida por grandes companhias. 

“Não existe saída sem união. As empresas devem compreender que somos um Brasil só, com variadas classes sociais, humano e diverso. Todos nós precisamos sobreviver a essa crise. Hoje, nós precisamos de alimentos, trabalho e renda, e  estamos percebendo um agravamento do cenário. Isso quer dizer que teremos menos comida no prato e mais filas de desempregados. E não queremos que isso aconteça inicialmente nas favelas”, diz o presidente do G10. 

A Cufa aponta que mais de 180 empresas, de diferentes setores, auxiliaram diretamente nos cuidados aos mais necessitados durante a pandemia em 2020, e que isso precisa ser retomado. “Além da ajuda financeira, foram doados alimentos e produtos de higiene, botijões de gás e brinquedos. No total, foram R$ 180 milhões arrecadados no ano passado”, afirma um comunicado da instituição, que reforça o objetivo de chegar a esse número ou, de preferência, ultrapassá-lo em 2021. “Não existe um valor estimado. Seria um dinheiro imensurável se pensarmos na desigualdade do nosso país e no quanto a vulnerabilidade foi agravada pela pandemia.”

Para Preto Zezé, presidente nacional da Cufa, a favela sempre foi isolada socialmente. “A pandemia escancarou isso. Logo, estamos voltando com a mobilização a todo vapor. Mas a sociedade e as grandes companhias têm que vir junto com a gente, como veio anteriormente, para contemplar o máximo possível de mães de favela, que não podem esperar”, explica.

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Crianças com prato vazio recebem auxílio alimentação da Gerando Falcões

No Brasil, para quem cria seus filhos sozinha, os impactos da irrupção da Covid-19 foram ainda mais profundos: cerca de 8,5 milhões de mulheres saíram do mercado de trabalho no terceiro trimestre de 2020, e sua participação caiu a 45,8%, o nível mais baixo em três décadas, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). As mães solo, que somam mais de 11,5 milhões no país, passaram a enfrentar mais riscos e dificuldades financeiras em decorrência da pandemia, além da sobrecarga mental e um maior acúmulo de tarefas devido ao fechamento de escolas e creches.

Segundo dados recentes de um relatório das ONGs Gênero e Número e da SOF (Sempreviva Organização Feminista), 50% das brasileiras passaram a cuidar de outra pessoa durante a pandemia. Quase 40% das entrevistadas na pesquisa afirmaram que o isolamento social pôs em risco o sustento de seu lar; dessas mulheres, 55% eram negras, geralmente as mais afetadas.

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Para ajudar no resgate da generosidade dos brasileiros e das empresas, a Gerando Falcões relançou a campanha “Corona no Paredão, Fome Não”. As doações serão convertidas em cestas básicas digitais. O benefício terá duração de dois meses e cada cartão entregue para o (a) chefe da família será recarregado com R$ 150 por mês. As famílias poderão utilizar o valor na compra dos produtos que mais necessitam, como alimentação e higiene pessoal. Até o momento, a campanha arrecadou R$ 10,5 milhões, com a contribuição de 59,7 mil doadores. No ano passado, foram R$ 25 milhões. 

Segundo Edu Lyra, CEO e fundador do movimento, as famílias beneficiadas são aquelas que já estão nas listas de apoio. Ele também ressalta a importância das doações no momento em que o país tem sofrido com os índices de mortes e internações. “A pandemia afeta gravemente toda nossa sociedade. A generosidade do povo brasileiro, reconhecida mundo afora, diminuiu drasticamente entre 2020 e 2021 e foi parar na UTI, com pouca respiração. Milhares de moradores de favelas e comunidades estão sofrendo com a fome e falta de itens básicos para sobrevivência em decorrência da economia frágil que esses locais possuem.” 

Empresas em ação

Dando continuidade à redução dos danos causados pela pandemia na sociedade, algumas empresas estão tendo destaque, atuando principalmente na linha de frente e em parceria com movimentos sociais e organizações governamentais. A empresa de bebidas Ambev, por exemplo, anunciou, em março, uma parceria com o governo do estado de São Paulo para a criação de uma usina para garantir oxigênio para pacientes com Covid. A companhia é a responsável pela usina de oxigênio de Ribeirão Preto e produzirá 120 cilindros de oxigênio, atendendo até 166 pessoas diariamente em unidades de saúde com estoque em situação crítica. 

Com iniciativas feitas em parceria com a Cufa, o banco Santander beneficiou 20 mil famílias em situação de vulnerabilidade por conta da pandemia este ano. Já a Heineken e o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) anunciaram que a cervejaria vai destinar parte dos investimentos que seriam direcionados ao Rock in Rio, maior festival de música e entretenimento do mundo, deste ano, que teve sua edição adiada para 2022 por conta do agravamento da crise sanitária, para a instalação de quatro usinas de oxigênio, além da compra de cilindros, CPAPs (aparelhos de suporte às vias aéreas) e Equipamentos de Proteção Individuais para profissionais da linha de frente em, pelo menos, 40 hospitais filantrópicos de todo país que estão em situação crítica.

Um grupo de 12 empresas se uniu em uma ação coletiva para viabilizar a doação de mais de 5.000 concentradores de oxigênio, que serão utilizados para o tratamento de pacientes com Covid-19 em suas próprias localidades, evitando deslocamentos para outras cidades e, consequentemente, a sobrecarga de hospitais. O concentrador de oxigênio é um equipamento que separa o oxigênio do ar e o fornece ao paciente em um fluxo direto e contínuo, contribuindo para a melhora de sua capacidade respiratória, uma das áreas mais afetadas pelas consequências da Covid-19.

Bradesco, BRF, B3, Embraer, Gerdau, Grupo Ultra, Itaú Unibanco, Magazine Luiza, Marfrig, Natura & Co, Suzano e Unipar estão participando da força-tarefa.  O grupo atendeu a uma chamada pública feita pela Secretaria Especial de Produtividade, Emprego e Competitividade do Ministério da Economia, em apoio ao Ministério da Saúde, para a aquisição de concentradores de oxigênio. A Air Liquide Brasil, líder mundial em gases, tecnologias e serviços para a indústria e saúde, fez a cotação geral para a importação dos equipamentos, no valor total de R$ 35 milhões.

Seguindo os esforços com ações contra os impactos da Covid-19, a Lojas Renner, por meio de seu braço social, o Instituto Lojas Renner, destinará R$ 1,2 milhão para a construção da nova fábrica do Instituto Butantan. A instalação vai permitir ampliar a produção de doses da vacina Coronavac. A doação será repassada à organização social Comunitas, que lidera o processo de captação de recursos em parceria com a InvestSP e a Fundação Butantan. A expectativa é que a nova fábrica esteja apta a operar em escala industrial no final de 2021, com capacidade de produzir 100 milhões de doses por ano. Com a doação, a Lojas Renner vai contabilizar cerca de R$ 8 milhões investidos em ações ao longo da crise sanitária.

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