"É imprescindível conduzir um negócio de forma humana e responsável", diz Rosane Santos

Depois de um MBA na Inglaterra, a executiva deu uma guinada na carreira e se tornou uma das pioneiras da área ESG no Brasil.

Amanda Péchy
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“Quando você é mulher, negra, pobre e de periferia, as oportunidades são raríssimas”, diz Rosane

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“Não tive a crise dos 30, mas tive a crise dos 35.” É assim que Rosane Santos, a nova diretora de sustentabilidade da Bamin, começa a contar a história da sua carreira.

Graduada em contabilidade pela UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e especialista em finanças pela UFF (Universidade Federal Fluminense), ela trabalhou nos últimos 15 anos nas áreas de governança corporativa, auditoria e compliance.

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Em 2016, enquanto cursava um MBA executivo na Universidade de Oxford, na Inglaterra, entrou em contato com o nascente mundo ESG (sigla para governança ambiental, social e corporativa, em português) e decidiu fazer uma mudança radical.

Naquela época, Rosane trabalhava como gerente sênior de compliance e auditoria na Nissan. Ela era responsável pela avaliação de risco e planejamento de auditoria para as operações da multinacional na América Latina.

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Foi com recursos próprios, conciliando a agenda de trabalho com as aulas, que ela passou um ano entre o Brasil e a Inglaterra. Como o curso tinha um currículo modular e o ensino era presencial, viajava a cada seis semanas para a Europa. “Raspei meu pote de ouro”, brinca.

Nascida em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, ela foi a segunda da sua família a cursar o ensino superior (a irmã mais velha se formou em fonoaudiologia).

“Meus pais fizeram um esforço imenso para que tivéssemos aquilo que eles não puderam ter. Gosto muito de lembrar das minhas raízes, porque essa consciência me dá perspectivas sobre a vida a que tenho acesso hoje e sobre o que posso mudar no mundo”, diz ela.

A oportunidade para estudar na Europa foi um divisor de águas em sua carreira. “Toda a lógica de impacto social, direitos humanos, gestão sustentável e energias renováveis estava mais acelerada e madura na Europa.”

A sigla ESG diz respeito a aspectos de administração e gestão corporativa em que questões como o impacto de uma empresa na sociedade, no meio ambiente ou sua relação com seus próprios funcionários são levados em consideração na tomada de decisões e na geração de valor. Administrar uma empresa pensando sob essa ótica vai, portanto, além dos números de demonstrativos financeiros.

Rosane conta que o que a atraiu foi a mudança da lógica empresarial de shareholder, o acionista, para a do stakeholder, ou seja, todas as pessoas interessadas na organização.

“Adianta alcançar margens de lucro inéditas com essa pobreza enlouquecida no Brasil e os desastres naturais? O social ainda é o maior desafio do ESG, porque ainda é encarado como despesa, não investimento”, diz ela. “É mais que possível, é imprescindível conduzir um negócio de forma humana e responsável.”

Na UE (União Europeia), a temática ESG está tão avançada que já faz parte da agenda normativa.

No ano passado, entrou em vigor o Regulamento para Divulgação de Finanças Sustentáveis, que é considerado o conjunto de políticas públicas mais ambicioso ligado à temática. As normas apenas determinam quais informações relacionadas a questões ESG as empresas de grande porte devem divulgar, e de que forma – ou seja, não chegam a impor metas ou boas práticas, por exemplo.

Os políticos do bloco também vêm trabalhando há alguns anos em um pacote de estímulos à economia verde apelidado de “European Green Deal” (em referência ao New Deal dos Estados Unidos do pós-Segunda Guerra Mundial). Os países da União Europeia têm a meta de se tornar neutros em carbono até 2050.

Inspirada pelo que aprendeu por lá, Rosane começou a negociar com seus superiores e com a chefia de recursos humanos da Nissan a criação de uma nova área e, com ela, um novo cargo para si.

A executiva apostava que, em algum momento, o movimento ESG chegaria ao Brasil – e ela queria largar na frente.

A Nissan ainda não tinha uma área de sustentabilidade, mas o braço sem fins lucrativos da empresa, o Instituto Nissan, já cuidava das suas iniciativas sociais. A ex-auditora então assumiu a presidência do instituto, assim como a gerência sênior de responsabilidade social.

Menos de seis meses depois, a sede no Japão lançou um novo plano global de sustentabilidade – foi a deixa de que Rosane precisava para que a companhia recriasse a área de sustentabilidade no Brasil e, depois, na América Latina.

“A partir de uma crise pessoal e de uma oportunidade, entrei na área de ESG”, resume ela, acrescentando que se orgulha de ter feito as escolhas que fez, no momento em que as fez – o que não quer dizer que o processo tenha sido fácil.

Entre 2017 a 2020, na presidência do Instituto Nissan, trabalhou para torná-lo mais conhecido – até mesmo pela própria empresa –, e, assim, poder ampliar seu impacto social.

“Em 2018, redefinimos as diretrizes estratégicas e realizamos nosso primeiro edital de projetos. Mapeamos uma série de iniciativas interessantes e ganhamos novos parceiros”, conta Rosane.

Em março do ano seguinte, foi lançado o programa Rota Sustentável, em Resende (RJ), que tinha como objetivo repensar o uso de recursos naturais no dia a dia da fábrica da Nissan.

“Na indústria automotiva, seu produto gera uma poluição ambiental, mesmo com todas as melhorias de eficiência”, reconhece Rosane. Por isso, o objetivo do projeto era que o processo produtivo como um todo fosse o mais respeitoso possível ao meio ambiente: entraram em cena energias renováveis, gases e tintas menos poluentes, e técnicas para reduzir o uso de recursos naturais.

A mudança (e a promoção) para a área de ESG vieram mais tarde, quando Rosane deixou a Nissan pela Iguá Saneamento (IGSN3), que opera 18 concessões pelo país.

Durante sua gestão, as ações socioambientais da companhia passaram a ser norteadas pelos padrões do Sustainability Accounting Standards Board (Sasb), da Global Reporting Initiative (GRI) e dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU. A empresa também assumiu compromissos como atingir a neutralidade de carbono até 2030, e, até 2025, aumentar para 45% a participação de mulheres em cargos de liderança e para 50% a presença de negros entre seus funcionários.

Apesar da conquista de seus objetivos estabelecidos na Inglaterra, lá em 2016, a executiva afirma que sua história de transição e ascensão profissional é cheia de nuances. Ela se descreve como “uma pessoa absolutamente normal” que decidiu focar em educação e que sempre foi oportunista – no sentido de que soube aproveitar as oportunidades que surgiram, porque não eram muitas.

“Quando você é mulher, negra, pobre e de periferia, as oportunidades são raríssimas. Fui aproveitando e abraçando todas as que foram surgindo para mim”, diz.

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