Fortaleza é exemplo de inclusão na mobilidade urbana

Cidade ampliou segurança no transporte público e rede de ciclovias.

Haroldo Rodrigues
Compartilhe esta publicação:
Getty Images/Klaus Vedfelt
Getty Images/Klaus Vedfelt

Iniciativas privilegiam o design centrado nas pessoas e a inclusão de gênero no desenho de mobilidade urbana

Acessibilidade


Há uma tendência global na direção das cidades alcançarem uma rede de transporte mais sustentável e equitativa para todas e todos. No entanto, a presença das mulheres em cargos de liderança ainda é mínima no setor de transporte. Mesmo quando ocupam cargos de liderança, elas continuam lutando contra os mesmos estereótipos que dificultaram a garantia de seus cargos.

É sabido que mulheres e homens têm diferentes usos de transporte devido a diferenças em fatores sociais, econômicos e físicos. As mulheres, quase sempre, têm a responsabilidade primordial na casa de cuidar dos filhos e do trabalho doméstico. Ademais, se deparam com padrões de uso do tempo e características de emprego diferentes em relação aos homens e, principalmente, com menos recursos financeiros.

O que se percebe é que a mulher é mais propensa a caminhar e usar o transporte público como meio de mobilidade. Assim, a modelagem de viagem delas é mais complexa do que a dos homens. Essa diferença mostra as consequências adversas quando o planejamento de transporte se concentra principalmente no deslocamento.

Leia mais: Sustentabilidade é importante para 82% dos brasileiros, mostra levantamento da Opinion Box

À medida que mais mulheres estão entrando nos papéis de tomada de decisão, as redes de planejamento de transporte devem espelhar essa mudança.

Inscreva-se para receber a nossa newsletter
Ao fornecer seu e-mail, você concorda com a Política de Privacidade da Forbes Brasil.

É forçoso reconhecer a necessidade de se implementar políticas destinadas a melhorar a igualdade de gênero, como favorecer caminhadas, ciclismo e transporte público coletivo e seguro. Em outras palavras, privilegiar o design centrado nas pessoas e a inclusão de gênero no desenho de mobilidade urbana.

Em Fortaleza, no Ceará, é possível ver avanços na descarbonização do transporte e na transformação do espaço público, assim como o urbanismo centrado nas pessoas.

Seguindo o conceito inovador e ousado de Micro Parque, a cidade de Fortaleza transforma áreas degradadas em pequenos parques urbanos, unindo meio ambiente, primeira infância e educação. Onde antes havia tráfego intenso, hoje há espaço para relaxar e socializar.

O plano de mobilidade sustentável promove o ciclismo e o transporte público. A cidade planeja aumentar as ciclovias de 370 para 500 km até 2024.

Leia mais: Cidades do Futuro: mobilidade como serviço

Especialistas apontam que tão importante quanto ter uma vasta malha cicloviária é, também, torná-la acessível. Isso porque, em Fortaleza, as bicicletas não são usadas apenas como esporte ou lazer, mas principalmente como forma de se locomover para o trabalho ou escola.

Na acessibilidade às ciclovias, Fortaleza volta a sair na frente das outras cidades brasileiras. Segundo os dados da plataforma MobiliDADOS, atualizados em 2021, a capital cearense possui 47% da população morando próxima às ciclovias.

Outro ponto de destaque é um plano de ação para incentivar que 75% das vias da cidade tenham velocidade máxima de 50 km/h, com instalação de radares e melhoria da sinalização.

Esses projetos, hoje políticas públicas, são bons exemplos de uma mobilidade equitativa, pois beneficiam mulheres, idosos, crianças e moradores de baixa renda que vivem em áreas periféricas mas se deslocam regularmente para bairros centrais.

O que o poder público tem feito em Fortaleza é priorizar as pessoas. A mudança cultural na mobilidade já está acontecendo. Este é um momento de oportunidade e não de barreiras, e se houver ainda mais ambição e vontade política, a mudança deixa de ser orgânica e será exponencial.

Como Fortaleza viu um aumento significativo no ciclismo durante os últimos anos, a cidade aproveitou essa oportunidade para agregar infraestrutura para pedestres e ciclistas, principalmente recuperando o espaço da rua anteriormente dedicado a carros particulares.

O mundo da bike há muito considera a diferença de gênero como um fator excludente. A principal questão é a segurança – as mulheres se mostram mais inseguras e isso costuma as impedir de andar de bicicleta na mesma proporção que os homens. Infraestrutura de alta qualidade para bicicletas ajuda a diminuir a diferença de gênero.

Leia mais: Investimento ESG em mobilidade urbana: o caso da Plataforma Vamo

Os últimos governos de Fortaleza ampliaram ainda mais o sistema público de compartilhamento de bicicletas para áreas periféricas da cidade, proporcionando aos cidadãos de baixa renda uma alternativa de transporte acessível e eficiente para se locomover.

Por fim e não menos importante, Fortaleza entende como estratégico o combate ao assédio e a violência que as mulheres enfrentam no transporte público. Desde 2018, a plataforma digital Nina é parceira do sistema de transporte urbano na proteção e na educação ao assédio sexual nos ônibus, paradas e terminais públicos.

O Plano de Gênero e Mobilidade da cidade não apenas aborda a desigualdade de gênero no ambiente de transporte e mobilidade, mas também os dados de mobilidade e conscientização sobre questões de gênero, como assédio nas ruas.

É imperativo introduzir uma perspectiva de equidade na agenda de mobilidade. O caminho para preencher a lacuna começa com inclusão e empoderamento. O importante é acertar o alvo sem perder o ponto.

Haroldo Rodrigues é sócio-fundador da investidora in3 New B Capital S.A. Foi professor titular e diretor de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Universidade de Fortaleza e presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Ceará.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

Compartilhe esta publicação: