Covid-19 faz população subestimar tratamento de doenças graves, alerta presidente da GSK

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José Carlos Felner, principal executivo no país de uma das maiores farmacêuticas do mundo, a britânica GSK

A pandemia de Covid-19 trouxe números preocupantes para as instituições de saúde, como os que refletem a queda nos tratamentos de outras doenças graves. Não por acaso, o setor farmacêutico tem dado sinais de alerta e tratado como emergência a importância de acompanhamento de enfermidades como cânceres, meningite e HIV. Os índices de pessoas acometidas por essas doenças voltaram a crescer e, com eles, uma preocupação maior com a saúde da população após a crise sanitária do novo coronavírus.

Em entrevista exclusiva à Forbes, José Carlos Felner, principal executivo no país de uma das maiores farmacêuticas do mundo, a britânica GSK, falou sobre o cenário de responsabilidades e inovações no setor para que as quedas na taxa de tratamentos de outras doenças não sejam cada vez maiores, como observado durante a pandemia. Para ele, os indicadores de saúde apontam para números alarmantes e a população não pode subestimar isso. 

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Uma pesquisa da própria GSK realizada entre 19 de janeiro e 16 de fevereiro deste ano revelou que 50% dos pais ou responsáveis legais adiaram ou faltaram à data prevista para nova dose da vacina contra meningite de seus filhos nos últimos 12 meses. A farmacêutica entrevistou pessoas de oito países: Reino Unido, Itália, França, Alemanha, Argentina, Brasil e Austrália. Entre os 4.962 participantes do levantamento, todos tomavam as decisões sobre a saúde das crianças e adolescentes sozinhos ou em conjunto com o parceiro ou parceira.

Os resultados globais mostraram que as medidas de isolamento social durante a pandemia foram a principal razão para o atraso ou cancelamento da vacinação contra a meningite meningocócica – o pior tipo da doença, capaz de deixar sequelas graves e até de matar. A maioria dos pais (95%) também afirmou que seus filhos vão retomar pelo menos uma atividade que envolva contato próximo com outras pessoas quando as restrições forem suspensas, sendo que 76% das crianças e adolescentes vão interagir com grupos de familiares ou amigos presencialmente.

No Brasil, 57% dos entrevistados declararam ter desistido ou adiado algum compromisso ou consulta de saúde dos filhos durante a pandemia, índice acima dos 46% da média global da pesquisa. No entanto, quando se trata especificamente de vacinação contra a meningite meningocócica, os brasileiros foram tão propensos a faltar ou atrasar alguma dose do calendário quanto os demais participantes (50%). O motivo, segundo 72% dos pais brasileiros, são as medidas restritivas da pandemia – mesma justificativa apontada por 63% da amostra global.

Para Felner, a indústria farmacêutica não pode surpreender a sociedade com teorias, e sim com soluções de saúde, com transparência e responsabilidade. “As taxas de cobertura de imunizações de outras doenças estão extremamente baixas. Podemos começar a ter mortes e surtos que, até então, estavam sob controle”, explica.

Para o executivo, a preocupação com a saúde da população não deve ser só relativa à  Covid-19. “Nosso papel é ser transparente o tempo todo com tudo que envolve saúde. Não podemos falar só de vacina contra um vírus mutante e esquecer de outras doenças que estão aí, como o câncer de ovário”, diz o executivo da farmacêutica, que criou uma terapia oral para pessoas recém-diagnosticadas para a doença aprovada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) em fevereiro de 2021.

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Empresa entende que transparência é primordial à indústria farmacêutica

DIAGNÓSTICOS TARDIOS DE CÂNCER AUMENTAM NO BRASIL

Por ano, cerca de 700 mil pessoas recebem o diagnóstico de câncer e 225 mil morrem só no Brasil em decorrência da doença. Em situações normais, o país já possui uma das mais altas taxas de diagnósticos tardios de câncer no mundo e o problema só aumentou durante a pandemia. A conclusão é de um levantamento feito pelo Instituto Oncoguia, associação sem fins lucrativos que ajuda  pacientes com câncer a viverem melhor por meio de projetos e ações de informação, educação em saúde, apoio, orientação, defesa de direitos e advocacia.

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Na comparação entre os meses de março e setembro de 2019 e 2020 houve redução de 45,72% no número de biópsias realizadas. Em 2019, elas eram mais de 500 mil, chegando a menos de 300 mil em 2020. Outros exames imprescindíveis para o diagnóstico também apresentaram quedas vertiginosas. O exame citopatológico cervico-vaginal, que rastreia o câncer de colo de útero, teve queda de 61,58%; a colonoscopia, para câncer de reto, caiu 45,48%; a dosagem de antígeno prostático (PSA), para câncer de próstata, registrou queda de 44,77%. 

Também houve diminuição na média de pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde) que iniciaram tratamento sistêmico para o câncer durante a pandemia. De janeiro a setembro de 2020, em relação ao mesmo período do ano anterior, menos 37,3% de pacientes diagnosticados iniciaram tratamento contra o câncer de próstata. A queda brusca se repete com outros tipos da doença: 33,4% no caso dos melanomas, 29,3% nos de câncer de mama e 28% nos de pulmão.

Na percepção de Felner, teremos de conviver com o vírus da Covid-19 ainda por um período e, ao mesmo tempo, lidar com as precauções para evitar outros males. Provavelmente, segundo ele, haverá uma segunda geração de vacinas periódicas. Por outro lado, ele acredita que a indústria farmacêutica sairá dessa crise sanitária com uma uma boa imagem e mais fortalecida, mas alerta que a população tem um grande papel para o retorno à normalidade. 

“Vamos adquirir e mudar hábitos que serão permanentes. O setor vai continuar forte, teremos novas tecnologias terapêuticas. Os desafios são grandes, mas eu acredito que a indústria já estava preparada para eles, mesmo antes da pandemia. Vamos continuar entregando soluções e inovações, ainda que passemos por um período difícil financeiramente para entregar esses resultados. São pontos importantíssimos para o nosso desenvolvimento”, diz.

O executivo ressalta, ainda, que todos nós teremos que encontrar meios para conviver mais facilmente com essa mudança brusca. “Com a pandemia, aprendemos que precisamos conviver com momentos incertos, que a nossa vida pode mudar de repente, de uma hora para a outra. De certa forma, isso é positivo para a população. Sairemos dessa sabendo da importância da saúde no mundo.” 

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