
Algumas pessoas naturalmente encontram conforto na paz e estabilidade, enquanto outras se sentem desconfortáveis com isso. Sam Vaknin, um professor de psicologia, introduziu o termo “conexão dramática” para descrever relacionamentos baseados no turbilhão emocional, em vez de uma intimidade genuína.
Ao contrário da conexão traumática, que está enraizada em uma dinâmica de vítima-agressor, a conexão por drama é frequentemente mútua — ambos os indivíduos contribuem para ciclos de caos emocional.
A educadora de saúde mental Lindsay Braman explica que, para aqueles que cresceram em ambientes marcados por altos conflitos ou instabilidade, o drama pode parecer familiar e até reconfortante. Para aqueles que experimentaram estresse crônico ou instabilidade, as emoções de alta intensidade podem se tornar um estado padrão.
O sistema nervoso deles, condicionado a esperar conflitos, pode começar a associar o drama com familiaridade e segurança. Com o tempo, isso pode criar uma dependência de altos e baixos emocionais, fazendo com que a estabilidade pareça estranha e até desconfortável.
O corpo também pode se adaptar ao estresse constante, mantendo-se em um estado elevado de alerta, fazendo com que a paz pareça artificial. A adrenalina gerada pelo conflito ou pela agitação emocional oferece um aumento familiar de energia, reforçando o ciclo.
Sem perceber, o drama pode se tornar uma forma inconsciente de manter esse estado familiar de excitação.
Reconhecer esses padrões pode ser o primeiro passo para entender e mudar essas dinâmicas relacionais.
Aqui estão três razões pelas quais você pode estar viciado em “conexão dramática”.
1. Você encontra conforto no conflito
Uma das razões pelas quais você pode estar viciado em “conexão dramática” provavelmente é porque encontra conforto em relacionamentos caóticos ou turbulentos. Se você já passou por eventos traumáticos em sua vida — como abuso emocional, físico ou sexual — pode ter desenvolvido padrões inconscientes que o levam a recriar essas dinâmicas em seus relacionamentos atuais.
Esse fenômeno, conhecido como “reencenação do trauma”, ocorre quando indivíduos são atraídos por situações que espelham o trauma passado, já que são familiares, mesmo que dolorosas ou prejudiciais.
Pesquisas mostram que sobreviventes de trauma na infância, por exemplo, podem buscar relacionamentos que reflitam a negligência, abuso ou instabilidade que experimentaram. Essa reencenação não é sobre querer reviver o trauma conscientemente, mas uma tentativa inconsciente de dominá-lo ou resolver sentimentos não resolvidos.
Em alguns casos, isso pode levar as pessoas a escolher parceiros ou amigos que criam turbilhões emocionais semelhantes, porque esse caos parece familiar e, de uma forma distorcida, reconfortante.
Essa tendência pode criar um ciclo no qual a pessoa busca o conflito ou situações de alto drama porque isso parece ser a norma, apesar do mal emocional que causa.
O impulso de manter esses relacionamentos pode ser um sinal de “conexão dramática”. Quando a reencenação do trauma se torna inconsciente e profundamente enraizada, pode ser difícil quebrar o hábito. Aqui está por onde começar:
Reconhecimento: Seja honesto sobre esses padrões. Busque ajuda, como terapia ou grupos de apoio, para lidar com isso e desconstruir respostas automáticas.
Crie espaço entre reações emocionais e ações: Pratique técnicas de “atenção plena”, como respiração profunda, escrever em um diário ou exercícios de grounding, para pausar e refletir.
Construa vínculos mais saudáveis: Tente cultivar relacionamentos que envolvam respeito mútuo e apoio emocional.
Quebrar a reencenação do trauma pode ser desafiador, e o progresso pode ser lento, mas não é impossível. Com esforço constante e apoio, você pode gradualmente substituir os padrões antigos por dinâmicas de relacionamento mais saudáveis e estáveis.
2. Você busca validação através do drama e do conflito
A necessidade de validação e atenção é um poderoso motor por trás da “conexão por drama”, muitas vezes enraizada em necessidades emocionais profundas.
Quando surgem conflitos, eles podem frequentemente desencadear reações emocionais fortes, dando-lhe uma sensação de importância ou de ser visto, o que pode se tornar intensamente viciante.
Em seu livro, Addicted to Drama: Healing Dependency on Crisis and Chaos in Yourself and Others, o Dr. Scott Lyons explica que aqueles viciados em drama frequentemente sentem um aumento da sensação de vitalidade e autoestima durante momentos caóticos.
Os intensos picos emocionais de conflito ou crise criam um aumento temporário de energia ou atenção que pode parecer necessário para se sentir valorizado ou validado. Sem essas experiências caóticas, a vida pode parecer monótona ou sem emoção. A ausência de conflito pode desencadear sentimentos de vazio, fazendo com que as pessoas busquem o drama como um mecanismo de enfrentamento.
Esse padrão, embora proporcione alívio emocional de curto prazo, pode prejudicar o bem-estar a longo prazo e impedir a formação de relacionamentos mais estáveis e satisfatórios. É um ciclo difícil de quebrar porque, com o tempo, você pode inconscientemente acreditar que só pode ser visto e ouvido através do drama.
Desenvolver maneiras mais saudáveis de se sentir valorizado — como por meio de reforço positivo, construção de autoestima ou estímulo de redes de apoio emocional — pode ajudar gradualmente a substituir a necessidade de drama por fontes de validação mais estáveis e nutritivas.
3. Você é viciado na adrenalina da intensidade emocional
Muitas pessoas expostas ao estresse crônico ou a experiências emocionais de alta intensidade podem se condicionar fisiologicamente a buscar os picos emocionais que vêm com o turbilhão.
Pesquisas em neurociência destacam o papel da amígdala na atribuição de intensidade emocional às experiências, especialmente em relação ao medo, estresse e aumento da alerta. A amígdala ajuda a processar emoções, especialmente medo e estresse. Quando alguém experimenta frequentes turbulências emocionais, o cérebro começa a associar emoções intensas com importância ou urgência.
Se você cresceu em ambientes caóticos, seu sistema nervoso pode ter se acostumado a altos níveis de excitação emocional, fazendo com que o drama não apenas pareça familiar, mas também necessário para manter uma sensação interna de estimulação. O córtex pré-frontal ventromedial (vmPFC), que ajuda a regular as respostas emocionais, pode ter dificuldade em inibir reações emocionais excessivas, tornando mais difícil se afastar de padrões movidos por conflitos.
Com o tempo, o corpo se acostuma a esse estado elevado, fazendo com que o caos emocional pareça normal. Esse condicionamento pode levar as pessoas a buscar inconscientemente o drama porque seu sistema nervoso se adaptou a funcionar em situações de alto estresse.
Esse ciclo neuroquímico pode explicar por que as pessoas inconscientemente anseiam pelo caos emocional, mesmo quando isso leva a relacionamentos prejudiciais. O turbilhão emocional fornece uma aceleração familiar de dopamina, reforçando uma dependência aprendida de situações de alto estresse.
Aqui estão algumas maneiras de ajudar a sair desse ciclo:
Crie engajamento emocional de baixo risco: Substitua relacionamentos de alta intensidade por interações sociais de menor intensidade, mas profundamente satisfatórias — como hobbies em grupo, trabalho voluntário ou discussões filosóficas — para satisfazer suas necessidades emocionais de forma mais saudável.
Monitore seus gatilhos com mapeamento emocional: Acompanhe os altos e baixos emocionais em um diário, identificando padrões que levam a comportamentos em busca de drama. Com o tempo, essa autocompreensão ajuda a interromper ciclos emocionais inconscientes.
Construa conforto com a calma: Aprenda a tolerar o silêncio e a estabilidade, engajando-se em atividades de baixo estímulo (por exemplo, caminhadas lentas, escrever em um diário) para que a paz não pareça “chata”.
Engaje-se na regulação do sistema nervoso: Induza a estimulação do nervo vago (por exemplo, respiração profunda, exposição ao frio, cantando), pois a estimulação do nervo vago ajuda a acalmar o corpo ativando seu sistema de “descanso e relaxamento”. Isso reduz o estresse e ajuda você a manter o controle de suas emoções.
Quebrar esse ciclo não é apenas evitar o drama — é reconfigurar seu sistema nervoso para encontrar realização na estabilidade. Ao mudar conscientemente os padrões emocionais e envolver-se em práticas restauradoras, você pode cultivar um senso de calma tão atraente quanto o caos foi um dia.
*Mark Travers é colaborador da Forbes USA. Ele é um psicólogo americano formado pela Cornell University e pela University of Colorado em Boulder.