
Os vinhos da Europa Oriental foram negligenciados por décadas. Muitos países dessa área foram incentivados, e frequentemente forçados, a produzir vinhos meio secos e fortificados para a Rússia e as ex-repúblicas soviéticas. Tamanha era a dependência que na Moldávia, por exemplo, um país que faz fronteira com a Ucrânia, existiam trilhos de trem para tirar os produtos bem na porta de muitas das vinícolas.
Quando a União Soviética caiu em 1991, o cenário da viticultura mudou drasticamente, e as vinícolas estatais e privadas tiveram que reinventar seus métodos de produção de vinhos em função dos mercados domésticos e de outros países que pudessem se interessar em importar seus vinhos. Foram quase 35 anos turbulentos.
Confira abaixo uma entrevista com a Caroline Gilby, da British Master of Wine, uma das qualificações mais prestigiadas no mundo do vinho concedido pela Institute of Masters of Wine (IMW), é uma autoridade em vinhos da Europa Oriental e escreveu livros como The Wines of Bulgaria, Romania and Moldova e Wines of Serbia: A New Chapter.
O que a levou a se interessar pelos vinhos da Europa Oriental?
Quando comecei no mercado de vinhos no final dos anos 1980, a Europa Oriental era um grande negócio no Reino Unido, mas nada glamoroso. Então, como membro júnior da equipe de compras de vinhos, fui designada para cuidar da região como minha primeira responsabilidade.
Quanto mais me especializava, mais fascinada ficava com a revolução completa no setor de vinhos que essa região passou. Olhando para trás, foi um privilégio ter visto o final da era coletivizada antiga, o que me deu uma perspectiva valiosa sobre o quanto mudou.
O que a sra. encontrou de único nessa área e por que esses vinhos estão se tornando mais relevantes?
Mesmo no final dos anos 1980, cada região tinha suas próprias forças. Muitos desses vinhos podem oferecer grande qualidade, bom custo-benefício e histórias autênticas de vinhos com raízes profundas, mas reinterpretadas para uma era moderna de consumo de vinho. Na busca de hoje por autenticidade e histórias pessoais de vinhos, a Europa Central e Oriental tem muito a oferecer.
E quando a sra. descobriu a Sérvia?
Minhas primeiras conexões com a Sérvia remontam ao início dos anos 1990, quando comprava um Cabernet Sauvignon e um Merlot de uma grande vinícola estatal.
O que há de tão único nos vinhos desse país?
A Sérvia é um mosaico fascinante de uvas internacionais e locais, e produz vinhos que ganharam prêmios globais nas maiores competições de vinhos, como o Decanter World Wine Awards, uma das maiores e mais prestigiadas competições de vinhos do mundo realizada pela Decanter, e outros. Isso é um sinal de que a Sérvia tem um ótimo terroir e grandes vinicultores.
Como os vinhos sérvios melhoraram ao longo dos anos e por quê?
Como todos os países dessa região, a Sérvia levou um tempo para se recuperar da era anterior. A restituição de terras e a privatização foram complexas, e foram necessários viticultores visionários para começar a engarrafar seus próprios vinhos, a partir do início dos anos 1990.
Com o tempo, outras vinícolas surgiram, baseadas na ideia de qualidade e individualidade, o que representou uma mudança total em relação ao passado voltado para a produção em grande volume. Resgatar antigas variedades de uvas, investir em novos equipamentos e aprender sobre abordagens modernas de viticultura leva tempo.
Quais são os desafios que a Sérvia enfrenta?
A Sérvia ainda consome mais vinho do que produz, então as importações são significativas. Os restaurantes estão começando a se orgulhar e a destacar os vinhos locais, mas essas importações continuam sendo uma competição séria para os vinhos locais. Além disso, há um número limitado de bons vinicultores, o que ainda exige melhorias na cultura do vinho.
Quais são as variedades mais empolgantes da Sérvia e por que elas se destacam?
Prokupac é, provavelmente, a uva local mais emblemática. Era uma uva de grande produção na era anterior, capaz de gerar altos rendimentos, mas com potencial reduzido, ela serve para vinhos elegantes, de corpo médio, e também para adicionar um toque local aos cortes. Probus é outra uva local que pode produzir vinhos ousados, suculentos e de cor escura intensa.
Na frente dos brancos, Grašac é uma uva balcânica que está produzindo vinhos de qualidade excepcional atualmente. Uma rara uva local chamada Bagrina foi recentemente resgatada da quase extinção e está produzindo vinhos empolgantes.
Quais desafios esses vinhos enfrentam no mercado internacional?
A maioria dos produtores não precisa exportar, mas os melhores querem fazê-lo como uma questão de orgulho. Os preços não são necessariamente baratos, mas ainda acho que oferecem um excelente custo-benefício pela qualidade. No entanto, é difícil exportar de um país que ninguém conhece.
Para onde a sra. acha que a viticultura na Sérvia está indo?
Acho que está no caminho certo em termos de qualidade. Acredito que continuaremos a ver o desenvolvimento de variedades de uvas locais, porque são essas as que podem atrair compradores internacionais e representar bem a Sérvia. Acho também que as uvas internacionais ainda terão seu espaço, porque podem ser muito boas.
* Liza B. Zimmerman é colaboradora da Forbes EUA. Escreve sobre vinhos, coquetéis e comidas há mais de duas décadas