“Afrodescendentes têm crédito três vezes mais negado por instituições financeiras”, diz Nina Silva sobre empreendedores negros

Luciana Prezia
Luciana Prezia

Nina, que estudou na Universidade de Nova York, diz que o racismo nos Estados Unidos e no Brasil acontece de forma diferente

Em live transmitida pelo Instagram e conduzida pelo CEO e publisher da Forbes Antônio Camarotti, Nina Silva falou sobre a participação de pessoas pretas na economia e as questões raciais que acompanham a existência étnica no país. A executiva é CEO do Movimento Black Money, faz parte do time da Mulheres mais Poderosas do Brasil da Forbes e foi eleita pela ONU como uma das pessoas afrodescendentes com menos de 40 anos mais influentes do mundo.

“Afrodescendentes são 56% da população autodeclarada, representam 67% dos desempregados e maioria carcerária. Quando empreendem, no nano e no microempreendimento, nem 29% consegue empregar outra pessoa em seu próprio negócio e tem crédito três vezes mais negado por instituições financeiras”, diz Nina. Ela completa: “Não falta apenas representatividade, falta inclusão e foi nesse contexto que nasceu o Movimento Black Money”. A iniciativa de Nina, um hub de inovação negro, tem como objetivo transformar, educar e fomentar o empreendedorismo preto. Segundo o estudo A Voz e a Vez – Diversidade no Mercado de Consumo e Empreendedorismo, pessoas negras movimentam em média R$ 1,7 trilhão ao ano no Brasil.

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Uma dúvida muito frequente e abordada por Nina durante a transmissão ao vivo é a nomenclatura correta ao referir-se a pessoas afros. Qual a terminologia correta? negro ou preto? A CEO esclarece que, neste contexto é preciso levar em conta não só a maturidade racial da outra parte da conversa, mas também o sentido em que a palavra é dita –se é em tom pejorativo. “Se nós levarmos em conta o estigma da palavra ‘negro’ é complicado. Ela muitas vezes é usada para denominar coisas negativas como mercado negro ou ovelha negra da família. Existe também a questão de que nem toda pessoa do meu tom de pele se sente à vontade quando é uma pessoa branca falando. Isso acontece porque o tempo todo a sociedade diz que quanto mais você se afastar de pessoas que te coloquem enquanto negro, melhor vai ser para você.”

Nina, que estudou na Universidade de Nova York, diz que o racismo nos Estados Unidos e no Brasil acontece de forma diferente. “Nos EUA eu sentia, mas não tinha uma fala explícita de racismo, até porque nas instituições de lá isso é gravíssimo. No Brasil, os ataques que sofremos o tempo todo nas periferias, por exemplo, são raciais. Eu estou exposta a todo momento em qualquer horário, meu corpo está exposto independentemente de eu usar terno ou estar na Forbes. Não é à toa que espaços de poder têm cor e ela é branca, mas as pessoas se incomodam de falar sobre isso e ainda mais de tratar”, pontua. A executiva que, por muitos anos, trabalhou em ambientes corporativos, relembra ganhava menos, em comparação à remuneração de mulheres e homens brancos e que foi demitida por não ter “aspecto corporativo”.

Como forma de diminuir o racismo, Nina sugere que “as pessoas precisam ter intenção, não basta compartilhar uma hashtag ou perfil de pessoas negras, é preciso ação contínua sobre a questão. Por exemplo, dar preferência para pessoas negras em contratações, uma vez que somos a maior parte da força de trabalho sem ocupação. Isso começar a passar uma ideia para quem está na empresa, mas não é tão ligado a esses pontos”. E finaliza: “pessoas diferentes chegam em públicos diferentes, é aumento de lucratividade e performance”.

Levando em consideração o cenário da pandemia de Covid-19, Nina ressalta que a população preta contaminada tem 32% mais risco de morte e que mais de 60% dos atendimentos feitos pelo SUS são a pessoas negras. “Isso é uma questão racial, mas quando abordada é levada para o aspecto de periferia, de sanitarismo na favela. É preciso levar em conta que as pessoas pretas são a linha de frente, estão nos deliveries, no caixa do supermercado, nos balcões de atendimento de hospitais e farmácias, nas portarias, cargos de segurança e serviços gerais.”

Por conta da pandemia causada pelo novo coronavírus, o Movimento Black Money lançou o projeto Impactando Vidas Pretas, a iniciativa emergencial tem por fim prestar assistência a família negras lideradas por mães solteiras e empreendedores afro. “Se a gente diminui o poder de consumo das pessoas, a gente para a economia”, comenta Nina. Durante a segunda fase de captação a campanha levantou R$ 166 mil reais e está nos nos últimos três dias de arrecadação. Clique aqui para apoiar.

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