ESPECIAL INOVADORES NEGROS: 19 profissionais que estão promovendo a transformação digital em grandes corporações

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Moisés Nascimento, CDO do Itaú: o debate sobre a ausência de negros em funções relacionadas à inovação e na liderança tem se intensificado, mas avanços ainda precisam ser feitos

Assunto cada vez mais frequente nas falas de CEOs e líderes seniores de áreas de negócio, a transformação digital em grandes corporações ganhou novas nuances: entre elas, está a diversidade dos times responsáveis pelo desenvolvimento dos sistemas por trás destes novos produtos e serviços.

Tornada prioridade desde a emergência da Covid-19 por conta de fatores como a necessidade aumentada de comprar produtos e serviços através da internet, a transformação digital é um tema que vinha ganhando espaço em empresas. Segundo um relatório de dezembro de 2019 publicado pela consultoria IDC, mesmo antes da pandemia empresas na América Latina já tinham planos de gastar US$ 48 bilhões nestes projetos em 2020.

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O relatório cita uma aproximação da “supremacia digital”, era em que a economia digital ultrapassa o tamanho da economia dita analógica. Neste contexto, grandes empresas estão investindo pesado em tecnologias como computação em nuvem, mobilidade e aplicações sociais, bem como big data e outras tecnologias baseadas em dados, como inteligência artificial (IA). Quando se trata de IA e automação em particular, mais de 80% de grandes empresas na América Latina já tem projetos em andamento nestas áreas e já começaram a colher benefícios iniciais como eficiência operacional e melhor tomada de decisão, segundo um estudo da MIT Technology Review publicado em junho deste ano.

A franca expansão no uso de tecnologias que usam dados intensivamente traz questões sobre vieses algorítmicos, trazidas pelo fato de que a maioria dos programadores que desenvolvem estes sistemas pertencem a um grupo nada diverso. Segundo o estudo “Quem Coda o Brasil?” realizado pela PretaLab, iniciativa em parceria com a organização social Olabi e a consultoria ThoughtWorks, a maioria dos profissionais da área é masculina (68,3%) e branca (58,3%). Ainda segundo o levantamento, 32,7% dos entrevistados disseram não ter nenhuma pessoa negra na equipe.

Segundo Amanda Ferrareto, do estúdio de inovação weme, a imperativa da transformação digital faz com que empresas se vejam em uma posição em que são forçadas a pensar “fora da caixa”, e a falta de diversidade em equipes e na liderança dificulta estes processos: “Esses líderes, majoritariamente homens-cis-héteros-brancos, querem times capazes de terem ideias transformadoras, e que tenham impacto significativo na sociedade. Mas como falar sobre pessoas, como focar em soluções centradas em indivíduos tão diversos, se ainda não temos essa diversidade refletida no nosso próprio espaço?”, questiona.

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Amanda Ferrareto, do estúdio de inovação weme: a falta de diversidade em equipes impede o pensamento “fora da caixa”

A participação de pessoas com diferentes vivências e culturas é essencial para garantir que a ideação aconteça de forma legítima, diz Amanda, ressaltando que pessoas negras, assim como pessoas da comunidade LGBT+ ou pessoas com deficiência carregam visões econômicas, políticas e culturais que podem influenciar a criação de um produto de forma positiva. “Pessoas iguais pensam de formas iguais: além de chato, isso não gera inovação, muito menos lucro”, afirma.

A onda do #BlackLivesMatter têm gerado um debate mais intenso sobre a necessidade de inclusão do povo negro, e sobre a importância dos pretos em posições de liderança, segundo Amanda. A especialista argumenta que, apesar do debate aparentemente intensificado, as pessoas pretas querem mais resultados, como a inclusão da diversidade nos objetivos e resultados chave pretendidos por empresas.

“Isso ainda não acontece. E o resultado são processos seletivos ineficazes, ambientes não plurais ou pessoas negras atuando apenas em serviços braçais”, aponta, frisando o ponto de que as mudanças só vem com ações.

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“É preciso contratar pessoas negras e as qualificar. Construir processos seletivos que realmente expressam o entendimento de um contexto histórico e cultural. Colocar mulheres negras aos cargos de liderança, que servirão de inspiração para a comunidade”, ressalta a especialista da weme. “E, acima de tudo, compreender que a jornada de uma pessoa negra jamais foi como a de uma pessoa branca.”

Hackeando o sistema

No atual contexto de transformação digital e inovação tecnológica acelerada nas grandes corporações, o Brasil passa por um processo de conscientização a respeito do racismo estrutural presente nos departamentos que lideram essas mudanças. Esta é a opinião de Moisés Nascimento, chief data officer (CDO) do Itaú e líder de uma organização de mais de 1000 pessoas. Tendo passado mais de 15 anos trabalhando nos Estados Unidos, em empresas como o PayPal, o executivo nota uma mudança em curso em relação ao tema com base em suas observações ao longo dos anos em que ficou fora.

Segundo Nascimento, que assumiu o cargo no Itaú em abril do ano passado, o racismo até recentemente era um tópico que não era discutido – e de certa forma, até negado – na sociedade em geral e no mundo corporativo. “Foi interessante voltar para o Brasil e encontrar quase um outro país em relação a estes temas. Eu vivi em um país pré-ENEM, pré-cotas, pré-afirmação racial, e as dificuldades por conta disso sempre foram muitas, relacionadas não só à cor da pele ou ao cabelo, mas no meu caso, o sotaque, a questão de classe”, conta (ver perfil da trajetória pessoal de Moisés, abaixo).

Com base em sua vivência no Vale do Silício, Nascimento diz que o realmente “move o ponteiro” quando o assunto é racismo corporativo é a educação, em particular treinamentos de vieses inconscientes. “Você pode até ter programas de diversidade e falar que quer equidade de gênero e de raça, mas existe um processo sistêmico que exclui quem não estava no poder e vai excluir a mulher do board, o negro do programa de trainee, o gay do trabalho científico. É preciso trabalhar em autoconhecimento e nos vieses que estão excluindo minorias para combater a exclusão”, afirma.

O CDO ressalta o ponto de Amanda, da weme, de que o racismo também impacta diretamente os esforços de inovação das grandes corporações. A inovação digital de uma empresa nasce centrada no cliente, diz o CDO, que gera dados que alimentam sistemas inteligência artificial e motores de dados. Os insights destes sistemas, por sua vez, criam produtos e serviços que precisam ser úteis para todos. Isso só reforça a noção de que a inovação anda de mãos dadas com a inclusão, bem como a responsabilidade ética de empresas em garantir que seus times tenham a mesma representatividade da base de clientes que buscam manter e atrair:

“Inclusão é um dever de qualquer empresa que queira ser digital e inovadora. O processo anterior do capitalismo era centrado em um modelo em que o poder era centrado em quem detinha o capital, fazia um produto e colocava na mão do cliente, em um processo de distribuição unilateral, onde clientes só consomem algo que é oferecido”, ressalta o executivo, acrescentando que essa relação foi completamente alterada com a transformação digital.

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“Neste [novo] processo, onde o cliente é protagonista, se eu não entender seu comportamento de forma holística, não consigo resolver seus problemas nem inovar para ele de forma natural – e esse é o grande paradoxo da inteligência artificial e do toque humano e intuitivo do design de inovação. É aqui que a diversidade e inclusão entram como grande força motriz para empresas que estão em processo de digitalização ou para as nativas digitais”, aponta.

Considerando as atuais demandas da economia digital, Moisés afirma que a palavra de ordem é “hackear” o sistema – e isso é verdade especialmente quando se trata de executivos negros como ele: “Estamos atualmente obcecados com um voltar ao passado neste atual momento de polarização política, mas só temos como ir para a frente. E para fazer isso, é preciso mudar o sistema de dentro: o termo hackear é interessante porque foi de algo ilegal a uma coisa bacana, que se faz para acelerar a inovação, quebrando o software para que ele se torne mais resiliente”, aponta.

No que diz respeito a suas próprias conquistas como líder nesse processo de mudança, o CDO tem resultados concretos para mostrar: nos últimos 12 meses, o Itaú tem elevado o número de pretos e pardos em cargos de tecnologia, e a proporção desta população passou de 18% no primeiro quadrimestre de 2019 para 31% no mesmo período em 2020. O executivo busca a interseccionalidade em sua abordagem de contratação e gestão: “Elevei e promovi muitos negros e mulheres nestes últimos 15 meses de Itaú. Sou homossexual, negro, nasci pobre e tenho vários ângulos de diversidade que se aplicam a mim, então tento ser bem holístico em relação a isso”, pontua.

Segundo Moisés, não é só desejável fazer a transformação digital em empresas com negros, mas é impossível conduzi-la com sucesso sem eles: “Isso será essencial para a nossa competitividade”, aponta o CDO, acrescentando que isso vale para outras categorias sub-representadas da população nos processos de design: “Temos um contingente enorme de pessoas semi-letradas, por exemplo, que tem dificuldades cognitivas, temos a cultura indígena brasileira e todos estes segmentos precisam ser representados na construção de sistemas. Toda aplicação tecnológica digital tem cunho social.”

Veja, na galeria de fotos a seguir, 19 profissionais que estão promovendo a transformação digital em grandes corporações:

  • Moisés Nascimento, Itaú

    Durante sua infância nos anos 1980, o chief data officer do Itaú Moisés Nascimento cresceu em um contexto em que o racismo era amplamente aceito na sociedade. As manifestações diárias de preconceito surgiam em toda a parte, desde os programas humorísticos na TV até as piadas politicamente incorretas dirigidas a ele, por conta de sua cor e sotaque carregado à época. “Cresci aprendendo a ignorar algumas [destas agressões diárias] mas principalmente a confiar em mim mesmo e na minha força espiritual, emocional e executiva – meus pais fizeram um trabalho excelente em construir esta fortaleza”, conta lembrando da sua educação e dos valores transmitidos pelo pai, líder comunitário.

    Moisés conta que essa base familiar o equipou não só com a capacidade de enfrentar os desafios com leveza, mas com resiliência para superar muitos dos episódios de discriminação racial que se apresentaram durante sua trajetória, e vontade de se desenvolver. O interesse em computadores surgiu no início da adolescência, e assim que conseguiu juntar dinheiro, comprou o primeiro PC aos 15 anos. Fez o curso técnico em processamento de dados na escola estadual de tecnologia de Contagem, e logo surgiu a veia empreendedora, quando começou a vender sistemas para pequenos negócios como locadoras de vídeo.

    Entrou como estagiário na Fiat Chrysler Automobiles (FCA), e pouco tempo depois, entrou no curso de administração de empresas na PUC. A carreira de Moisés então deslanchou no final dos anos 90: além da experiência na Fiat, passou pela TIM e pela Maxitel, e dali virou consultor internacional de software e sistemas de dados através de uma empresa focada em telecom, que renderam trabalhos em diversos países da América Latina e nos Estados Unidos. Casou-se e foi morar em Miami, onde trabalhou no setor farmacêutico e três anos depois, em 2005, foi para o Vale do Silício e entrou na Salesforce, onde deu início a um novo estágio da carreira em posições de liderança. Até 2019, passou por diversos cargos seniores em empresas como a PayPal, até voltar para o Brasil no ano passado, como chief data officer do Itaú.

    Com base em sua experiência nos Estados Unidos, onde foi entender o contexto em que estava inserido, também passou por discriminação, Moisés diz que por lá, ações contrárias ao racismo se manifestam mais abertamente. Por outro lado, o racismo nos Estados Unidos também se mostra de forma muito mais direta do que no Brasil, onde tradicionalmente, não havia espaço para diálogo sobre estas questões. “Você sentia uma dor e não tinha espaço, um fórum pra discuti-la, nem para aprender. Eu me perguntava o tempo todo, ‘será que isso é coisa da minha cabeça, será que existe mesmo?’ E isso é parte da negação do problema”, ressalta.

    Segundo Moisés, o Brasil começa a afirmar que existe um problema, o que provoca o surgimento de ações para erradicá-lo. Mas ele acredita que o processo da diversidade é longo, pois tem raízes sociais e estruturais muito profundas, que passam por aspectos educacionais, sistêmicas e governamentais. “Por isso, as empresas setor privado elas têm uma missão chave, que tem a ver com ética e humanidade”, ressalta.

    Aproveitando os recursos de sua função, que lida com diversas tecnologias de ponta baseadas em dados, Moisés está atualmente fazendo uma série de experimentos sobre como poderá usar análise avançada de dados para endereçar muitos destes problemas sociais. Um sonho pessoal do executivo é ver a população negra inserida no topo da pirâmide social e em todos os lugares: “O negro brasileiro que sobe de classe se sente muito sozinho.”

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  • Aldemir Cruz, Bristol Myers Squibb

    Órfão de pai aos 13 anos e criado pela mãe semianalfabeta, Aldemir teve muitas dificuldades para se manter na escola. Só conseguiu graças aos bicos que fazia como engraxate, vigia de carros, feirante e office boy. “Tive que enfrentar a tentação de seguir por caminhos tortuosos, considerando a região que vivia”, conta ele, que nasceu e foi criado em Osasco, município da Grande São Paulo.

    “A maior dificuldade, no entanto, foi a falta de orientação educacional e profissional. Precisei bater a cabeça diversas vezes e me aventurar muito antes de alinhar minha carreira e buscar meus objetivos. Cheguei a ser rejeitado para uma posição de propagandista em uma farmacêutica nacional pela cor da minha pele”, lembra.

    Apesar dos percalços, Aldemir conseguiu cursar Ciências Econômicas e, em duas passagens, já soma 15 anos na biofarmacêutica norte-americana. Foi estagiário, representante e gerente de vendas, atuou no marketing, tirou um sabático para fazer intercâmbio, fez mestrado em Administração e, nos últimos dois anos e meio, ocupa a diretoria de estratégias e operações. “Hoje, consigo unir o meu background de formação na área econômica, a paixão por política, o mestrado no terceiro setor, a experiência no trabalho comercial de campo e a vivência no marketing para contribuir com a estratégia da companhia”, diz. “Este conjunto de experiências me permite atuar de forma inovadora para que novos produtos possam ser lançados no mercado brasileiro, sejam sustentáveis e tragam benefícios e melhor qualidade de vida para a população brasileira.”

    Para Aldemir, a inovação pode surgir nos laboratórios e computadores, mas também nos times de trabalho – um ambiente aberto e diverso que propicie pequenas ou grandes revoluções. “A inovação pode se dar pela cultura, processos, produtos ou serviços. Ou seja, o melhor é que a corporação tenha inovação no seu DNA, em toda cadeia, pois ela é capaz de garantir sua longevidade.”

    No que diz respeito à vida pessoal, os objetivos de Aldemir passam pelo desejo de contribuir como um exemplo para jovens negros e periféricos. “Estou certo de que quanto mais oportunidades eles tiverem, mais acelerado será o processo de desenvolvimento do Brasil como nação. O caminho não é e não será fácil, mas temos que colocar nossos valores sobre inovação à disposição para conquistar uma sociedade mais igualitária.”

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  • André França, Raízen

    Coordenador de sistemas na Raízen responsável pelo atendimento técnico em Shell Box, aplicativo para pagamento de combustíveis da marca Shell e pela expansão do produto nos postos da rede, André França tem a inquietude de buscar novas possibilidades como elemento central de sua trajetória. Cresceu na periferia de São Paulo e cresceu em um contexto de muita discriminação, mas nunca aceitou que apenas ali era o seu espaço, mesmo vendo em amigos a conformidade por conta da classe social – muitos achavam que não conseguiriam alçar voos mais altos, pois não vinham oportunidades para eles na sociedade.

    Através do ProUni, conseguiu bolsa integral para cursar análise de sistemas. Enfrentou desafios durante os anos de faculdade para conseguir dar início à sua vida profissional: participou de inúmeras entrevistas de emprego, sempre difíceis, pois via nos outros candidatos uma melhor preparação – tanto de base escolar, como na roupa adequada para uma apresentação mais formal. “Percebi que nos feedbacks negativos que recebia, a discriminação estava ali, velada mas estava lá, e que nunca conseguiam transmitir a mensagem de forma adequada, sempre sentia a discriminação velada naqueles retornos”,
    recorda.

    Mesmo com os desafios, não desistiu e, no último ano da faculdade aos 27 anos, iniciou a carreira em 2007 como estagiário de TI em uma consultoria e, em três anos de empresa, já ocupava um papel de liderança técnica atendendo clientes como Votorantim. Depois de outras experiências, chegou ao cargo de gerente de projetos voltando à mesma consultoria que lhe deu a oportunidade de iniciar sua carreira e em 2019, entrou na Raízen.

    Em sua atual função, a inovação é aplicada no dia a dia: “A inovação não é só tecnologia, é também a busca pelas melhores ferramentas, ter o olhar apurado para as melhores alternativas e soluções. Na área em que atuo, sempre questionamos se aquilo que estamos executando é a melhor forma de fazer e, a partir desse questionamento, levantam-se diversas discussões onde todos tem o poder de opinar, onde todas as ideias são debatidas: isso também é inovação”, frisa.

    O paulistano de 40 anos, que depois da graduação fez um MBA em liderança, gestão e inovação, tem como objetivo no curto a médio prazo ser o gestor que mais promoveu a integração e o crescimento de sua equipe. “Quero ser que mais contribuiu para o desenvolvimento das pessoas, além de ter a capacidade de transmitir todo o suporte e a inquietude que tive ao longo de toda a minha trajetória, e que isso possa inspirar as pessoas a buscarem sempre o melhor para elas, seja profissionalmente ou mesmo em âmbito pessoal.”

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  • Anne de Sena Macedo, Grupo Fleury

    A vida de Anne nunca foi, exatamente, uma calmaria. No último ano da faculdade de Biomedicina, enquanto a maioria dos alunos pensava em estagiar nos laboratórios conveniados, ela queria viver essa experiência em uma grande empresa. Começou, então, a pesquisar opções em companhias de diagnóstico laboratorial e se inscreveu no processo seletivo do Grupo Fleury.

    “O auditório estava lotado de candidatos”, lembra. “O processo era dividido em duas fases: uma prova inicial, que selecionava os 15 melhores, e uma avaliação por entrevista, que incluía falar sobre o projeto de TCC (trabalho de conclusão de curso). Eu já havia concluído o meu pelo Instituto de Medicina Tropical da USP e acabei ficando entre as cinco selecionadas”, conta, com orgulho.

    Nos 12 meses de estágio, Anne participou do desenvolvimento de um kit capaz de melhorar a análise de identificação humana. Em janeiro de 2011, a jovem biomédica foi efetivada na empresa de diagnósticos como analista júnior de laboratório. “Desde então, fui abraçando todas as oportunidades. Fui promovida a analista pleno e, em 2017, ganhei um prêmio de inovação pelo desenvolvimento de um projeto que unificou diferentes exames em uma única
    coleta.” Na sequência, Anne foi promovida a analista sênior e, posteriormente, a assessora laboratorial. Atualmente, é assessora técnica de laboratório no setor de métodos moleculares, responsável por toda a parte da realização dos testes de diagnóstico da Covid-19 e estruturação da equipe. “O sucesso da cura está totalmente relacionado ao bom diagnóstico e isso que nós fazemos.”

    Aos 31 anos, Anne reconhece, no entanto, que as coisas nunca foram fáceis. Egressa da escola pública e filha de nordestinos que se mudaram para São Paulo em busca de uma vida melhor, ela atribui à família tudo que conquistou até hoje. “Embora não tenham tido oportunidades de estudar, meus pais sempre me ensinaram a batalhar e lutar pelos meus objetivos, mostrando que a chave do sucesso é o conhecimento”, explica. “Até o ano passado, uma das minhas maiores dificuldades era conciliar o trabalho com as tarefas em casa e o mestrado”, diz ela, que concluiu a especialização em Ciências Biomédicas com ênfase em Infectologia. “Foram dois anos muito difíceis, mas consegui superar sem perder o foco dos objetivos da minha vida e de onde eu queria chegar na empresa.”

    Quando pensou que teria uma folga, veio a pandemia. “A Covid-19 trouxe muitos desafios e exaustivas horas de trabalho, não apenas para mim, mas para todos os profissionais da área de saúde. Tivemos que nos reinventar, nos adaptar e nos estruturar diante desse novo mundo”, diz.

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  • Bruno Luiz de Oliveira, Nestlé

    A inspiração para a carreira de Bruno veio da iniciação científica. Foi como parte de um grupo de pesquisa da Universidade de São Paulo (onde cursava Ciências Biológicas) que desenvolvia imunoterapias para tratamento de câncer que ele entendeu a importância de as coisas conversarem entre si – da ciência alimentar a um universo de inovações que sirvam às pessoas.

    “Decidi dar um tempo na jornada acadêmica e entrei no programa de trainee da Natura. Durante dois anos mergulhei numa jornada de autoconhecimento e de desenvolvimento de competências para a gestão de P&D e inovação”, conta o paulistano de 33 anos que, nesse processo, fui morar em Manaus para implementar um centro de inovação aberta da gigante brasileira de cosméticos. “Me apaixonei não só por esse mundo, mas também pelo Brasil e
    pelas inovações que vêm das pessoas”, conta.

    Da Natura, Bruno partiu para a L’Occitane, para ajudar no desenvolvimento da nova marca L’Occitane au Brésil. Para o trabalho, aprofundou-se na estruturação de conceitos e de cadeias de ingredientes sustentáveis, no desenvolvimento de formulações e embalagens e acabou se tornando o responsável pelas frentes de inovação e P&D do grupo no Brasil.

    No ano passado, Bruno desembarcou na Nestlé. “Ajudo a orquestrar inovações de produtos, modelos de negócios e experiências para consumidores que estão em 99% dos lares brasileiros. E sigo fazendo inovação aberta”, diz. Ele explica que seu trabalho está diretamente ligado ao acompanhamento de tendências e à formação de uma cultura intraempreendedora. “Inovamos também ao darmos novas capacidades aos processos que temos, garantindo respostas eficazes e eficientes para os desafios que enfrentamos diariamente. Além disso, inovamos porque desenvolvemos novas capacidades em nossos colaboradores. E tudo isso gera valor para os envolvidos, seja para as pessoas que trabalham na empresa, seja para nossos consumidores.”

    O head de inovação e novos negócios da gigante alimentícia, que também cursou Gestão de Projetos na FGV, diz que atua, ainda, em iniciativas de impacto social. “E também fazemos parcerias com universidades, startups e outras empresas para desenvolvermos soluções incríveis.”

    Bruno acredita que as dificuldades estarão sempre à espreita, em especial num país onde as diferenças ainda são muito marcadas e que dá pouca atenção para reequilibrar os privilégios históricos. “Contudo, não podemos desacreditar o ser humano. Aprendi que expor as fragilidades e colaborar com as pessoas para seguir em frente é algo essencial e foi o que me trouxe até aqui”, diz, com ar otimista.

    Ele reconhece que construir uma carreira ao mesmo tempo em que preserva sua essência e valores no dia a dia não é tarefa fácil. “Mas tenho uma visão positiva da vida e acredito que não existem caminhos certos ou errados ou projetos prontos. Tudo depende de contexto e de estar em melhoria contínua. As coisas estão sempre em ‘versão beta’ e precisamos equilibrar um pouco de senso de utopia com pragmatismo de execução para caminhar. Este jeito de pensar nem sempre é o ‘status quo” de uma organização. Mas me sinto privilegiado pelos ótimos encontros ao longo da minha trajetória. Tive um super orientador na graduação e líderes fantásticos, pessoas que, ao cruzarem meus caminhos, desafiaram meu potencial, alimentaram minha curiosidade e me fizeram caminhar.”

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  • Camila Maciel Cardoso, Grupo Heineken

    Especialista em insights do consumidor com foco em inovação e marcas premium no Grupo Heineken, Camila Maciel Cardoso carrega consigo a vontade de viver e aprender coisas novas. Isso ficou aparente logo que deixou sua cidade natal, São José dos Campos (SP) e entrou no primeiro emprego, no método Kumon, onde também fez suas primeiras aulas de inglês fora da escola.

    Camila conciliava o trabalho com o curso de graduação em marketing na Universidade de São Paulo, onde também se envolvia em atividades de iniciação científica e monitoria. Todas estas atividades, a ajudavam a se manter financeiramente, juntamente com o apoio da Embraer, como ex-aluna do instituto de educação e pesquisa da empresa.

    A primeira oportunidade de trabalhar em uma grande empresa veio com o estágio, na Nielsen, empresa de pesquisa de mercado que a contratou mesmo sem ainda falar inglês fluente. A especialista em consumer insights, que hoje é fluente em inglês e espanhol, comenta que a dificuldade no acesso a cursos extracurriculares foi um dos desafios que enfrentou: ela conta que a grande melhora no inglês veio com o apoio de um colega de trabalho que se ofereceu a dar aulas a ela e outros dois amigos. No entanto, ela cita dificuldades de outra natureza:

    “Além dessas dificuldades técnicas, comecei a perceber e reconhecer meu lugar como mulher e negra – reconheço que sou uma mulher negra de pele mais clara,” ressalta, referindo-se à pequenas agressões verbais e comportamentos machistas. Citando Djamila Ribeiro em seu livro Pequeno Manual antirracista, Camila frisa que “é impossível não ser racista tendo sido criado numa sociedade racista”, e afirma que alguns comportamentos estão inseridos na sociedade.

    “Meu papel atuante junto ao grupo de inclusão e diversidade é plantar uma semente e criar consciência sobre esse tema dentro do universo da empresa em que trabalho, lembrando que as empresas são parte da sociedade civil e são constituídas por pessoas. Eu acredito num futuro em que mulheres negras e pretas sofrerão menos agressões verbais, físicas e psicológicas”, aponta.

    No ano seguinte ao ingresso no estágio na Nielsen, Camila conseguiu uma bolsa de mérito pela USP Inovação para participar de um programa de intercâmbio na cidade de Porto, em Portugal, no Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto, onde teve seu primeiro contato mais aprofundado com o ecossistema de Inovação. “A experiência do intercâmbio me trouxe uma outra visão de mundo, eu fui a primeira pessoa da minha família nuclear a viajar e morar fora do Brasil”, conta.

    Logo após o retorno de Portugal, foi recontratada pela Nielsen e antes de concluir a graduação foi efetivada pela empresa, onde ficou até 2016, para entrar na gigante de produtos de higiene pessoal Kimberly-Clark. Como analista sênior, passou a focar na perspectiva do cliente, atuando na área de consumer insights na categoria de fraldas. Em 2018, entrou no Grupo Heineken, como especialista, com foco em inovação e produtos não alcoólicos. Depois de um ano, passei a trabalhar também com cervejas premium. Em abril de 2020, assumiu a liderança do grupo Origens da empresa, que discute inclusão e diversidade no aspecto de raça dentro da companhia.

    Segundo a joseense de 28 anos, seu trabalho na Heineken foca em reduzir incertezas: “Faz parte do processo de inovação cometer erros, [e usar a abordagem de] ‘test, learn and reapply’, mas muitas vezes numa grande indústria alguns erros podem custar muito dinheiro”, ressalta a especialista, que busca entender junto aos consumidores, qual o potencial de possíveis inovações e como elas podem ser melhores para atender a essas necessidades e, assim, contribui para minimizar estas potenciais incertezas.

    Camila acredita na inovação enquanto um processo bem executado para resolver um problema, construído passo a passo. “Grandes inovações que conhecemos hoje são massificadas e começaram com protótipos ou são versões beta antes de ganharem escala, e os grandes nomes que conhecemos hoje como inovadores não necessariamente são grandes criadores, eles souberam estruturar suas ideias e organizar processos”, aponta.

    É através de sua visão pessoal de inovação que Camila espera contribuir para um mundo melhor. “Acredito numa construção gradativa, o meu mundo são as pessoas – família, comunidade, amigos, empresa – e os seres ao meu redor, e as ações são as pequenas do dia a dia, como cuidar do planeta por meio do que eu consumo.”

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  • Camila Valério Novaes, Visa

    Com nomes como White Martins, Sony do Brasil e Cielo no currículo, a paulistana Camila Valério Novaes está à frete do marketing da Visa desde 2016. Formada em relações públicas pela Unesp, trabalha na área há 20 anos, e em sua atual função é responsável pela estratégia e implantação de ações com clientes, além de trabalhar na frente de mobilidade urbana, onde atua em um squad como a responsável por toda a estratégia de comunicação e sinalização da aceitação de cartões com pagamento por aproximação no
    transporte público.

    Comentando sobre trabalho no squad multidisciplinar de mobilidade urbana, Camila ressalta o caráter inovador do projeto: “[A aceitação de cartões com pagamento por aproximação em transporte] vai além de impactar positivamente no comportamento do consumidor, lhe trazendo inúmeros benefícios a partir do uso dos pagamentos digitais. Segurança e agilidade são fatores que influenciam em seu dia a dia, principalmente por conta da pandemia, que tem acelerado ainda mais esse processo de digitalização e inclusão de todes pela tecnologia”, ressalta.

    Camila fala das dificuldades enfrentadas em sua caminhada: “No meu caso, encontrei a barreira de gênero e raça, o que faz com que a gente aprenda a lidar com um sistema que, em dados momentos, não enxerga o fato de vivermos em uma sociedade plural, na qual todos partem de lugares e trajetórias diferentes”, aponta a relações públicas, que acredita que seu trabalho na frente de inclusão e diversidade da Visa contribui para impactar a transformação cultural da sociedade.

    “Aperfeiçoar processos e melhorar soluções e situações também são parte dessa cultura de inovação, que tem nas pessoas o centro de sucesso de qualquer mudança positiva que queremos ver no mundo”, frisa.

    Além de suas atividades como gerente de marketing, Camila lidera a frente de inclusão e diversidade da subsidiária brasileira da Visa, além de contribuir oferecendo e participando de mentorias em diversos níveis hierárquicos da empresa. Atuou também como voluntária em projetos fora da empresa, que buscam inclusão de profissionais negros no mercado: a Rede de Profissionais Negros e Publicitários Negros.

    Camila adota a análise de dados e tecnologia como ferramentas para criar formatos mais inovadores para o marketing da Visa, com o intuito de levar ofertas e benefícios relevantes para os clientes. “Isso significa que adotamos técnicas do human centered design para aprimorar as soluções que lançamos no mercado e para atender dores reais dos consumidores. Esse tem sido nosso guia em todas as campanhas e lançamentos”, detalha.

    A gerente de marketing descreve a inovação como “entender soluções de determinado ambiente e tratar da resolução de problemas complexos em cenários adversos.” Segundo ela, outro elemento da inovação é “ter pessoas e líderes que têm escuta, perspicácia e coragem de expor seu desconhecimento sobre determinado tema”- segundo ela, isso possibilita que grupos encontrem soluções para questões complexas.

    Como objetivo pessoal, Camila quer adotar a sua bicicleta como meio de transporte: “Quero me aprimorar ainda mais nisso para poder ajudar e ensinar outras pessoas a andar de bike. Vejo na bicicleta um meio que nos ajuda muito a lidar com nossos medos e inseguranças.”

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  • Carlos Eduardo da Silva, Electrolux

    Filho de descendente de escravos que trabalhavam em uma fazenda histórica em São Carlos (SP), a vida de Carlos Eduardo da Silva, supervisor de EHS (Meio Ambiente, Saúde e Segurança, na sigla em inglês) na Electrolux, começou neste local, onde cresceu e desenvolveu uma paixão pelo meio ambiente. Lá, era responsável por atividades como plantio de árvores e cuidado com os animais. Conciliava as jornadas de trabalho com a rotina de aluno da zona rural, em que acordava de madrugada para estudar na cidade.

    “Um dia, quando estava passando o arado na roça do milho, ouvi um barulho de um avião que cruzava o horizonte. Pensei: ‘um dia vou viajar num desses aviões, conhecer outros países’“, conta. Estimulado pelos pais, buscou se desenvolver e buscar outras oportunidades, na própria fazenda, em serviços de pintura e pequenas reformas da casa grande e da colônia, e passou a prestar serviços.

    Isso começou a mudar a vida de Carlos, que trabalhava meio período e usava o dinheiro que ganhava para fazer o curso técnico de mecânica durante o período da manhã. Completou o primeiro certificado de técnico de manutenção mecânica em 1997 e conseguiu um estágio na empresa em que o irmão trabalhava, como desenhista de máquinas e ferramentas. Logo foi promovido como chefe do setor de desenho, mas começou a entender as barreiras que enfrentaria: “É nítido
    que o racismo perdura em pessoas que ainda vivem do passado. Eu preciso me esforçar “n” vezes mais do que uma pessoa branca para provar que sou capaz. Infelizmente é uma realidade ainda vivida no atual momento. Meu pai sempre falava: haverão momentos na sua vida que você vai ter que ser sempre 200% por causa da sua cor de pele”, constata Carlos.

    “Percebi que este mundo da cidade trazia muito preconceito de ver um negro ocupando um cargo de confiança. Mas nesta altura do campeonato eu não mais olhava pelo retrovisor e sim para frente com visão mais ampla do que eu queria para minha vida”, acrescenta Carlos, que passou a trabalhar na área de manutenção com os projetos e acompanhamento de obras civis. Investiu então mais seis anos para concluir o curso de Engenharia Civil e, posteriormente, investiu mais dois anos na especialização de Engenharia de Saúde e Segurança do Trabalho.

    Hoje, na Electrolux, onde está há 28 anos, lidera programas que buscam trazer uma abordagem inovadora à saúde e bem-estar das pessoas. Ele cita o exemplo do programa Educação para um futuro melhor , que tem 18 anos de existência e mais de 5000 alunos treinados, bem como a automação de postos críticos para segurança e ergonomia dos colaboradores, e digitalização de permissão de trabalho: “Meu trabalho é diretamente com o público, o cuidado de transformar a vida das pessoas para o melhor, na empresa, na comunidade local e na extensão dos projetos sociais”, conta.

    Carlos, que entende a inovação como um processo onde o indivíduo “se deixa transformar para transformar a vida das pessoas mostrando que são capazes de conquistarem seus projetos e objetivos.” Ele tem entre seus objetivos pessoais uma imersão para fluência no inglês, bem como ser ativo no comitê de diversidade racial da Electrolux. “[Quero] colaborar nas tomadas de decisão no processo de inclusão e disseminação de um ambiente de trabalho diverso, que pode ser mais rico e inovador, com ideias e culturas se conectando a todo instante através das pessoas”, ressalta.

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  • Eduardo Germano da Silva, Lojas Renner

    “Por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor”, diz um trecho de “A Vida é um Desafio”, do Racionais MC’s, que Eduardo Germano usa como mantra. Aos 17 anos, o jovem deixou Campinas, cidade do interior de São Paulo, para cursar Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC) na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Entre 2013 e 2014, trabalhou no núcleo de inovação da Thompson Reuters e, no final de 2014, mudou-se novamente, desta vez para Porto Alegre (RS), para cursar um mestrado em Ciência da Computação na UFRGS.

    No ano seguinte, Germano apresentou um estudo sobre inteligência artificial voltado para a rede de computadores em um evento acadêmico internacional em Ottawa, no Canadá. Em setembro do ano seguinte, foi contratado pela Renner como analista de suporte do Meu Cartão, um cartão de crédito internacional e contactless oferecido pela Realize CFI, braço financeiro da varejista.

    “Meu gestor sabia que eu tinha conhecimentos em IA e, naquele mesmo ano, passamos a utilizar a tecnologia para categorizar os atendimentos de TI. Os clientes que entravam em contato com a Renner passaram a ser direcionados a partir do uso de IA. Também desenvolvemos a tecnologia de identificação de produto por imagem, disponível no aplicativo”, conta o jovem de apenas 28 anos.

    Há cerca de dois anos, Germano passou a integrar a equipe que começou a desenvolver chatbots para diferentes usos no negócio. No final de 2018, trabalhou em um projeto piloto para WhatsApp que permite que o cliente consulte seu limite do cartão. “Isso foi aprimorado a partir de 2019, com a disponibilização de diferentes serviços financeiros aos clientes. Também iniciamos o atendimento no e-commerce da Renner utilizando IA, via chatbot”, conta ele.

    Com a pandemia de Covid-19 e o fechamento temporário das lojas físicas, o WhatsApp ganhou papel de protagonista nas operações da varejista. “Recentemente apoiei o desenvolvimento do projeto de vendas por meio da ferramenta de mensagem instantânea, que foi colocado em funcionamento em cerca de uma semana”, explica o chatbot advocate

    Atualmente, Germano também contribui com squads de outras empresas do grupo e procura compartilhar ao máximo conhecimento com outras áreas para novos desenvolvimentos, promovendo a colaboração para gerar valor ao negócio. “Procuro servir de exemplo de liderança inspiradora”, diz generosamente o jovem que seguiu à risca as lições do grupo paulistano de rap.

    “O preconceito racial ainda existe. Somos minoria e grande parte das oportunidades nem chega até nós. Enfrentei muitos desafios para chegar aonde cheguei, mas não podemos sonhar com pouco. Temos o direito de sonhar com o que quisermos porque somos capazes.”

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  • Igor Valentim dos Santos, Bradesco

    Filho de soteropolitanos da periferia de Salvador que foram para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor, o gerente sênior e líder de engenharia, governança e qualidade de dados no Bradesco Igor Valentim dos Santos entendeu muito cedo que sua herança seria estudo. A mãe, pedagoga, abdicou da carreira por uma década para cuidar dos filhos e o pai, oficial da marinha mercante, passava a maior parte do ano trabalhando embarcado.

    A vida no subúrbio carioca do Méier não tinha grandes luxos, mas alguns privilégios, como estudar em escolas particulares e fazer curso de inglês, que estudou até os 18 anos por insistência da mãe, sem saber o quanto isso lhe seria valioso mais à frente. Fez engenharia de produção na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, e em seu primeiro estágio na Losango, braço financeiro do HSBC Brasil, trabalhou com o motor de decisão. Logo foi
    efetivado e passou a liderar a modernização do motor de decisão da empresa em parceria com o time dos Estados Unidos.

    O destaque global que a implementação ganhou trouxe a Igor a oportunidade de apresentar as melhores práticas do projeto em fóruns em Londres e Chicago. Em 2009, foi convidado para se mudar para Cidade do México, para implementar os diversos sistemas de risco para os países da América Latina, atuando no entendimento dos diversos cenários dos países e desenhando adaptações necessárias: “Foi uma experiência fantástica. Aprendi muito sobre multiculturalidade no âmbito profissional e pessoal”, recorda.

    Voltou para o Brasil no final de 2010, para trabalhar em data analytics, uma carreira então recém-estruturada no grupo HSBC, assumindo mais uma vez um foco regional com implementação de projetos de dados para a América Latina. Igor então decidiu permanecer e se desenvolver neste espaço de análise avançada de dados, área em que trabalha no Bradesco, onde ingressou em 2017.

    Logo que entrou no banco, ajudou a montar o departamento de gestão de dados. Segundo Igor, a missão era apoiar a criação de uma cultura orientada a dados. “Ao longo desses três anos saímos de um grupo de 13 pessoas para mais de 200 colaboradores envolvidos nesse desafio, e estamos protagonizando uma série de ondas de inovação, não só no Bradesco, como na indústria financeira”, aponta o especialista, que está atualmente trabalhando na implementação dos processos de monitoração em tempo real do Pix, sistema de pagamento instantâneo do Banco Central.

    Aos 37 anos, Igor atua constantemente com temas voltados para inovação e modernização dos mais diversos processos de negócio do banco e provoca reais mudanças através de sua contribuição na evolução de uma cultura baseada em dados: “Atualmente, o tema dados é essencial em diversos aspectos, desde trazer mais visibilidade para coisas que ficavam escondidas atrás de processos ineficazes, até iniciativas que desafiam o status quo”, afirma.

    Igor vê a inovação como um processo de desafio a si próprio, onde não aceita um “sempre foi assim” como resposta: “É praticar a escuta ativa e buscar constantemente a excelência em qualquer esfera da nossa vida”, ressalta. O expert em dados quer se tornar um executivo de destaque, para proporcionar à sua família mais do que recebeu: “Afinal de contas, como disse [o fundador do Bradesco] Amador Aguiar, ‘Só o trabalho pode produzir riqueza’- e disso eu não tenho medo.”

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  • Kherolayne Costa Ribeiro, P&G

    Kherolayne Costa Ribeiro associa a inovação a expansão de conhecimento: “É algo que a pessoa consegue aprender, há diversos processos que ajudam a expandir esse conhecimento e fazer alguma coisa de uma forma mais fácil”, define. A busca por aprender constantemente é o que move a gerente de compras de marketing da P&G Brasil e representante do pilar de inovação da companhia, onde entrou em 2016, como estagiária.

    A mineira de Coronel Fabriciano é a primeira da da família a entrar em uma universidade pública. Começou o curso de Engenharia Química em Minas Gerais depois de completar o curso técnico em química, mas perseguiu seu sonho de estudar em São Carlos e se mudou para lá um ano depois.

    Neste meio tempo, realizou um intercâmbio pelo programa do governo Ciência Sem Fronteiras, e estudou por um ano e meio nos Estados Unidos. O intercâmbio trouxe a oportunidade de enfrentar um desafio pessoal, porém muito marcante: “Em toda minha passagem pela faculdade, eu mantive meu cabelo liso. Com a oportunidade de realizar o intercâmbio, resolvi aceitar meu cabelo e fiz a transição capilar”, diz Kherolayne, lembrando que sua família a aconselhava a manter o cabelo escovado quando buscou estágios, como forma de a proteger de preconceitos.

    “Eu acreditava que, se a empresa não me quisesse do jeito que eu sou, então eu que não ia querer trabalhar nesse ambiente. Aceitar como sou e como meu cabelo é, foi muito importante para ser uma mulher mais forte e confiante para tomar decisões”, ressalta.

    Na volta do exterior, entrou na P&G e conciliava a conclusão da graduação com o estágio, que nada tinha a ver com sua área de formação: “Fui percebendo habilidades necessárias para trabalhar nessa função, e me encontrei”, conta. Em marketing, Kherolayne conseguiu até aplicar seus conhecimentos em engenharia em projetos inovadores na P&G, como uma calculadora de produção.

    “Eu me via cada vez mais inserida no mundo da inovação e, confesso, que me apaixonei. A partir disso, fui uma das primeiras funcionárias a entrar no pilar de inovação que a companhia estava criando, onde, desde então, pude contribuir com muitos projetos e ações inovadoras”, aponta. Kherolayne hoje é responsável pela contratação de celebridades e influenciadores, e conseguiu desenvolver uma inteligência de racionalização da área para orientar estes processos.

    A criação do pilar de inovação da P&G trouxe mais oportunidades para que Kherolayne pudesse colocar suas ideias em prática, em áreas como treinamentos dos colaboradores com foco em expandir habilidades e processos internos focados em formas de inovar. O programa traz especialistas externos para compartilhar conhecimentos sobre a inovação e contempla o relacionamento da companhia com as startups. Nesta frente de inovação, criou na P&G a Open House, feira de startups que visa aproximar a P&G de empresas disruptivas dos segmentos de distribuição, mídia e crescimento de categoria, além de identificar modelos que contribuam com os negócios da companhia.

    “Acredito que o suporte de toda a liderança e da Juliana Azevedo, presidente da P&G, foi ainda mais importante para endossar todo esse trabalho e dar vida para o que o grupo vem criando nos últimos tempos”, ressalta.

    Segundo Kherolayne, seu propósito é ensinar as pessoas que não gostam do padrão ou do que é igual, a inovar, criar e conectar informações para que criem soluções e contribuam na evolução da sociedade: “Não importa o que eu vou fazer, sempre vou olhar para o meu propósito e entregar da melhor forma possível. Uma das minhas paixões, a partir da ideia de inovação, é ensinar e aprender e, com isso, acredito que posso ajudar o mundo.”

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  • Leila Luz, BRF

    Quando reflete sobre sua trajetória até aqui, Leila Luz prefere contar o que aprendeu com as dificuldades ao invés de somente citá-las. A soteropolitana de 32 anos é a líder global de diversidade e inclusão na gigante de alimentos BRF, onde entrou em 2019 depois de passagens por multinacionais do setor químico nos últimos 8 anos. Segundo Leila, suas experiências profissionais em setores majoritariamente masculinos e brancos a fizeram perceber as implicações de quem ela representava naqueles espaços: “Isso me fez experienciar diferentes situações em questões raciais que me trouxeram amadurecimento e aprendizagens que, com toda certeza, moldaram minha carreira até aqui”, ressalta.

    “Para mim, ter a oportunidade de transformar as variadas micro agressões que sofri em uma oportunidade de olhar o todo, entender o contexto que eu e outras mulheres negras também atravessaram e qual era meu lugar no mundo, me trouxeram um sentido de propósito”, conta Leila, referindo-se ao foco na educação corporativa sobre como pessoas podem se conectar com distintas realidades de maneira inclusiva.

    Em seu trabalho em diversidade e inclusão, Leila vê a inovação como um dos pilares. “É uma troca quase simbiótica entre os temas num campo ainda em recente estudo e exploração no mercado”, aponta. Em seu tempo na BRF até aqui, criou a área de D&I, e foi responsável pela revisão de processos, estudos demográficos, treinamentos, e eventos. “A cada atividade, como todas as propostas eram novidade no ambiente, precisava adaptar o formato, a linguagem, explorar conceitos, sensibilizar”, lembra.

    Leila cita como exemplo de novas ideias colocadas em prática a parceria com o Instituto BRF e área de benefícios da empresa para a criação de um processo de diagnóstico que considerava a jornada do colaborador estrangeiro em uma das unidades. O objetivo era ter uma visão holística sobre a atuação da empresa e os impactos sociais da presença dessas populações nas cidades que a companhia está presente. “Para evitar o envio de uma longa
    apresentação ou documento do word, traduzimos o conteúdo em formato de jornada, em um estilo de jogo de tabuleiro, com os principais aspectos levantados e recomendações de práticas para as outras unidades do Brasil buscando levar para os diferentes públicos na BRF os achados do processo e como eles poderiam contribuir com a inclusão dos estrangeiros adaptando o processo às necessidades locais”, conta.

    A experiência individual de Leila a fez olhar o mundo por outras lentes, mas a vontade de mudá-lo. Ela conta que isso a conectou com um senso de propósito e a valorização do conhecimento. Essa busca está presente em sua formação, que inclui uma graduação em relações públicas pela Universidade do Estado da Bahia com especialização em gestão de projetos pela FGV, além de curso de extensão em administração de empresas pela Universidade de Oregon, nos Estados Unidos, e a qualificação como coach.

    Para Leila, que busca se firmar como referência no tema de diversidade e inclusão, a inovação é um processo de geração de novas ideias, revisão de processos e propostas de melhoria: “A inovação se traduz em um esforço contínuo que envolve desde a gestão do conhecimento até a visão sistema da cadeia na qual a organização está inserida, uma vez que cada setor possui um nível de velocidade e maturidade em modelos de inovação”, ressalta a especialista. “Compreender o ambiente para engajar e conectar pessoas para um processo de cocriação é um exemplo de como a inovação pode alavancar resultados de negócio e, por meio da diversidade dos sujeitos envolvidos, catalisar a oportunidade de novas ideias.

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  • Paulo Roberto Batista Junior, Ambev

    Apesar de bem jovem, Paulo já tem duas décadas de carreira. Começou a trabalhar aos 16 anos, depois de fazer um curso de html. Construiu um site – seu primeiro – para uma empresa especializada em intercâmbio, e lá ficou até começar o curso de Engenharia da Computação na Unicamp. Pelos próximos seis anos, atuou como desenvolvedor de sistemas. “Decidi, então, migrar para a área de gestão e foi nessa transição que comecei a trabalhar na Ambev”, conta.

    Na gigante de bebidas, Paulo passou por várias áreas relacionadas à tecnologia da informação: contratos, suporte, governança e projetos. No ano passado, assumiu a gestão do time de suporte de sistemas da empresa em Blumenau, Santa Catarina. “Este é o meu primeiro desafio como gestor de uma grande equipe”, diz o gerente de operações.

    Desafio, no entanto, não é um problema para o jovem paulista. “Meu caminho foi repleto deles”, diz. “Sempre fui incentivado a fazer escolhas grandes que, na maioria das vezes, me levaram a ambientes com poucos pares e muitos preconceitos. Nessa trajetória, a família foi meu grande diferencial e incentivou minha autoestima. Isso fez toda a diferença.”

    Atualmente, Paulo lidera um projeto para a criação de uma plataforma de e-commerce que utilize mais inteligência artificial e algoritmos, para aprimorar e oferecer experiências cada vez melhores aos consumidores. “A transformação pela qual o mundo passa hoje exige que novas formas de trabalho e relacionamento sejam criadas, testadas e colocadas em prática”, diz. “Inovação é desafiar padrões e buscar soluções simples e escaláveis para os problemas complexos do dia a dia.”

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  • Renato Almeida Rocha, BASF/Suvinil

    Inovação é sair na frente. É correr mais riscos para crescer mais rápido. Quem diz isso é o diretor comercial para América do Sul da Suvinil, que está prestes a completar 17 anos de carreira na companhia. “Eu acho que sempre fui uma pessoa inovadora, mesmo sabendo que isso ampliava minha exposição ao erro. Porém, aprendi que ‘erramos’ pequeno para inovar com excelência.”

    Formado em Administração e com MBAs em Gestão Estratégica de Mercado e Gestão de Pessoas, o paulistano de 39 anos começou na fabricante de tintas como promotor de vendas, como um colaborador terceirizado. Quatro anos depois de um contato estreito com lojistas e consumidores finais, foi contratado como vendedor júnior com atuação na zona leste de São Paulo. Dois anos mais tarde, foi promovido a consultor de negócios para a região do Vale do Paraíba, com atendimento direto a oito municípios. Mais dois anos e outra promoção – desta vez para consultor sênior do canal Home Center de São Paulo e Rio de Janeiro.

    Em 2007, aos 26 anos, Renato iniciou sua trajetória como gestor. “Eu era muito jovem e passei a liderar meus antigos pares. Foi uma sensação muito especial”, lembra. Foi gerente de vendas de revendas e do canal de distribuição de várias regiões e, três anos atrás, assumiu a diretoria que hoje ocupa. E, para quem acha que vendas e inovação não têm nada a ver, Renato explica: “Meu trabalho me proporciona inovar em diversas iniciativas. Uma delas é na relação com clientes e distribuidores, para quem desenvolvemos campanhas de sell in e sell out com estratégias que apoiam o nosso crescimento. A inovação também está nos planos estratégicos que desenvolvemos de acesso ao mercado, construindo caminhos como fizemos, por exemplo, em 2016 com o projeto piloto de e-commerce.”

    Como gestor, Renato também enxerga a inovação na sua relação com as equipes que lidera, ao desenvolver formas de capacitação que apoiam e promovem o crescimento dos profissionais ao mesmo tempo em que estimulam a estratégia de diversidade da companhia.

    Renato reconhece que chegar até aqui não foi fácil. “Assumi responsabilidades muito cedo para apoiar minha família. Trabalhar viajando e estudar ao mesmo tempo também foi um desafio”, conta. Além disso, o jovem executivo lembra que, muitas vezes, precisou correr atrás de conhecimento para entregar resultados, já que outros profissionais se mostravam mais experientes e preparados do que ele. “Por isso mesmo reitero que nada é impossível”, diz.

    Em alguns momentos, o preconceito também foi uma realidade. “Mas, ao mesmo tempo, foi combustível para as minhas atitudes, que me habilitaram ao lugar que ocupo hoje, e para me fazer enxergar que posso ir ainda mais longe”, diz Renato, que sonha, no médio prazo, apoiar empreendedores sociais.

  • Robson Santos, Magalu

    Nem as quatro horas diárias que gastava para se deslocar do pequeno distrito da Baixada Fluminense, onde morava, para trabalhar no centro do Rio de Janeiro, nem a baixa autoestima por ser de uma região periférica abalaram as convicções do bacharel em Desenho Industrial. “Felizmente, sempre houve pessoas que me apoiaram, fazendo com que eu entendesse que as conquistas são fruto de trabalho árduo e constante”, diz Robson, atual gerente de pesquisa e desenvolvimento do Luizalabs, do Magalu.

    Aos 48 anos, o iguaçuano conta que, desde o começo da faculdade, percebeu que tinha escolhido a carreira certa. “Comecei trabalhando como designer gráfico, mas, no final dos anos 1990, percebi a importância das interfaces digitais. Quando terminei o mestrado, passei a atuar como professor em cursos de graduação e de pós-graduação em temas relacionados a usabilidade e design de interfaces. Uma coisa levou à outra e fui convidado para trabalhar como pesquisador sênior no Instituto Nokia de Tecnologia (INdT)”, explica. O convite obrigou Robson a se mudar para Manaus e lhe deu a oportunidade de atuar em projetos de nível global.

    Com passagens também pela área de inovação em tecnologia do Banco Itaú e por algumas consultorias – além de um doutorado –, o designer foi adequando a abordagem acadêmica às reais necessidades de negócio. Um breve período fora do país o ajudou a consolidar a visão de que o verdadeiro entendimento de culturas e comportamentos é a chave para criar soluções originais e efetivas em produtos e serviços digitais.

    “Assumir a gerência de pesquisa e desenvolvimento em uma empresa como o Magalu é muito importante, pois existe uma possibilidade concreta de realizar estudos e elaborar propostas com foco em necessidades reais, com a possibilidade de nos anteciparmos às necessidades das pessoas, ao mesmo tempo em que entregamos valor para o negócio”, diz.

    No médio prazo, o objetivo pessoal de Robson é estruturar um programa de capacitação que una inovação em design e tecnologia para jovens periféricos e fora das grandes capitais. “A ideia é permitir que as pessoas tenham uma perspectiva de atuação, resgatando os conhecimentos tradicionais e até mesmo ancestrais, e associando a tecnologia de ponta, a partir de uma perspectiva local.”

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  • Sheila Pimentel, Novartis

    Gerente de projetos na diretoria de digital e estratégia da farmacêutica Novartis, a paulistana Sheila Pimentel começou sua carreira na empresa há duas décadas, como estagiária. A jovem periférica cheia de sonhos e esperança no futuro viu na oportunidade uma forma de ter uma fonte de renda, já que as parcelas da faculdade de ciências contábeis estavam atrasadas, e ainda, se identificou com o propósito de ajudar a salvar e prolongar vidas.

    “Tive a grata surpresa de ser entrevistada e contratada por um gestor negro. Esse fato mudou minha perspectiva de crescimento profissional e me fez acreditar que um dia seria possível assumir uma posição como a dele. Desde então, me dediquei em aprender e a dar o meu melhor em tudo que faço”, conta Sheila sobre o início da sua carreira na Novartis.

    A caminhada da profissional, no entanto, teve diversos desafios, que atuaram como um impulso para seguir em frente: “A condição de vida e as oportunidades de ensino que tive eram bem inferiores se comparadas aos meus pares. Porém, nunca vi isso como um problema, mas sim como um desafio, que se superado, me daria mais energia para seguir”, ressalta.

    Ao longo de 20 anos na empresa, Sheila conta que se envolveu no gerenciamento de diversos projetos fora do seu escopo, e com isso, conquistou oportunidades para liderar projetos em pesquisa clínica e na área médica. Inovação, segundo ela, sempre foi uma constante nas atividades que executou ao longo de sua carreira:

    “Pude vivenciar várias mudanças na empresa: culturais, estruturais, fusões, incorporações, cisões e novos sistemas; aprendi que quando algo se movimenta gera oportunidade de crescimento, e por isso, minha escolha sempre foi aproveitar essas oportunidades e me desenvolver com elas. Manter uma mente aberta para receber o novo tem feito a diferença na minha trajetória”, frisa.

    Atualmente, Sheila é gerente de planejamento financeiro no setor de pesquisa e desenvolvimento da empresa. No ano passado, fez uma imersão focada em cultura digital. Mergulhou no tema, e, aos 44 anos, foi em busca de uma oportunidade de aplicar seus novos conhecimentos, e hoje faz parte do grupo de governança para implementação de metodologias ágeis para lançamentos da empresa. “Fazer parte da jornada de transformação digital é incrível”, aponta Sheila, que quer compartilhar experiências e conhecimentos com jovens de periferia que, assim como ela fez hei 20 anos, buscam oportunidades de carreira e desenvolvimento pessoal e profissional.

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  • Shirlei Alexandrino dos Anjos, White Martins

    Aos 44 anos, Shirlei relembra as dificuldades enfrentadas ainda bem no começo da carreira. “Havia pouquíssimos estagiários negros naquela época e os funcionários negros que existiam só atuavam em funções operacionais. Era raro ver um profissional nos escritórios”, conta.

    Formada em Administração pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, a carioca começou sua trajetória na Shell, em 2002, como auditora de frete, na área de logística. Foi nessa época que se aproximou da análise de dados. “Depois passei pelas áreas de contas a pagar, cobrança e, por último, atuei no projeto global da companhia de migração para o SAP (sistema de gestão), que ocorreu em 2009”, diz.

    Em seguida, Shirlei atuou em empresas de engenharia de grande e médio portes como especialista de controles internos – função que exigia ampla utilização de dados para atender diretamente demandas das áreas e dos níveis executivos, utilizando modelos de inteligência de mercado para distribuição dessas informações.

    Com toda essa bagagem – e três MBAs depois –, Shirlei desembarcou na White Martins, multinacional brasileira de gases industriais e medicinais, em outubro do ano passado, e, atualmente, lidera os projetos de Robotic Process Automation (RPA). “Participo ativamente da captura de dados finais para o desenvolvimento de processos automatizados que possibilitam maior sinergia entre as diferentes áreas da empresa. Dessa forma, criamos indicadores que facilitam o trabalho integrado por meio da transformação digital. Ao longo da minha trajetória profissional, desenvolvi competências sempre ligadas à gestão de dados para chegar à criação de robôs, que otimizam as tarefas das equipes, permitindo a realização das atividades de forma mais eficiente, inovadora e estratégica”, explica.

    Shirlei, que sonha com uma experiência internacional na carreira, diz que, ainda hoje, acha difícil encontrar empresas que têm uma cultura inclusiva, com um ambiente de trabalho efetivamente de troca e aprendizado para todos, onde profissionais negros possam se sentir confortáveis como ela se sente atualmente. “Aprendi que não basta ter cursado três MBAs. O mais importante são as conexões que você faz em empresas que valorizam de fato sua capacidade e desempenho profissional”, diz.

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  • Silvio Jorge Silva, Johnson & Johnson

    Antes de chegar ao cargo de diretor comercial da divisão de consumo da Johnson & Johnson, Silvio Jorge Silva fez muitas coisas desde que começou a trabalhar logo cedo: deu aula de matemática, de kickboxing, trabalhou de garçom e vendeu abadá nas ruas da cidade baixa de Salvador, onde nasceu.

    Silvio entrou na faculdade de ciências contábeis aos 19 anos, e os estudos eram custeados por um trabalho de repositor de produtos da Johnson & Johnson num supermercado que surgiu logo no início do curso. De repositor, Silvio foi sendo promovido, e passou de promotor de vendas a vendedor, visitando todo o varejo da Bahia, vendendo loja a loja. As promoções continuaram, e Silvio foi passando por diversos cargos e regiões. Pela J&J, mirou em Teresina, Uberlândia, Rio de Janeiro, Recife, até vir para São Paulo, como diretor de trade marketing e operações. A trajetória na empresa teve uma pausa, em 2016, quando atuou como presidente interino em uma farmacêutica. Em 2018, Silvio retornou à Johnson & Johnson, e desde abril de 2019 atua como diretor comercial.

    Em sua função atual, Silvio usa sua “eterna insatisfação” para colocar novas ideias em prática constantemente: “Em todas as atividades, até as mais simples do dia a dia, com todas as equipes, há em mim uma inquietude por inovar e entregar o melhor. Nada para mim é paisagem. Fico entediado em executar algo da mesma forma por duas vezes. A relação com os clientes, a estratégia com o consumidor, os modelos processuais: tudo sempre está em movimento. Nos momentos normais ou num momento desafiador como a pandemia, sempre tem uma invenção”, conta.

    As dificuldades na caminhada foram muitas, mas Silvio acreditava que eram relacionadas a sua classe social: “Só tive consciência do que é ser negro mais para a frente”, conta, lembrando que um ex-chefe que acreditou nele e o ensinou a acreditar em um futuro melhor em sua própria potência. “Até então tudo era muito distante. Ele foi meu chefe durante muitos anos e hoje está aposentado. Isso me impulsionou e muito do que consegui se deve à minha autoestima e ao meu autoconhecimento”, ressalta.

    À medida em que foi desenvolvendo autoconhecimento, Silvio foi descobrindo a diversidade: ele conta que era preconceituoso, mas se transformou. Hoje, lidera o SoulAfro, grupo que lidera iniciativas de conscientização e educação sobre racismo na Johnson & Johnson e busca maior equidade étnico-racial na companhia, e quer se firmar como referência na luta antirracista no Brasil e no mundo e mudar as próximas gerações: “Quero deixar meu nome na história, mas isso não é com poder ou riqueza. Com a diversidade, eu posso fazer diferença até em vidas que não conheço. Sonho em inspirar cada pessoa a mover sua história para que rompa ciclos e reconstrua suas possibilidades.”

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  • Wanderson Henrique Ramos, Royal Canin

    Nascido em São Carlos, no interior de São Paulo – um celeiro de tecnologia e inovação –, Wanderson começou a trabalhar bem cedo, logo que concluiu o curso técnico de Contabilidade. Empregado numa pequena empresa da cidade, foi levando o trabalho e a faculdade de Ciências Contábeis em paralelo até que, no último ano do curso, foi contratado por uma multinacional, onde teve a oportunidade de atuar com a folha de pagamento.

    “Foi aí que minha relação com a área começou. Tive a oportunidade de conhecer, desenvolver e me aprofundar nesse setor, que é tão importante e, muitas vezes, complexo. Adquiri experiência e bons conhecimentos ao longo de quatro anos. Depois disso, achei que era hora de buscar novos desafios”, conta.

    Em 2018, Wanderson se juntou ao time da Royal Canin Brasil, especializada em nutrição animal, para assumir a gestão integral da folha de pagamento da empresa. “A função não se resume apenas a realizar processos básicos, como admitir, demitir e processar a folha em si. Temos um modelo de recursos humanos descentralizado e meu trabalho está ligado à automação de processos, parametrização e eliminação de riscos para o negócio”, explica o profissional de 33 anos. “Hoje, posso dizer que sou apenas um ‘maestro’ destes processos, pois graças às melhorias e inovações que fizemos nos últimos anos, nossos sistemas estão mais integrados e autônomos. Além disso, ofereço um suporte muito próximo à nossa área de business partnership, apoiando em temas como relações sindicais, por exemplo, e isso só é possível graças aos processos já estabelecidos.”

    O analista sênior diz que enfrentou preconceitos de vários tipos, principalmente por ser negro e ter pouca idade. “Mas, com o tempo, tive a chance de mostrar que sou profissional e construir uma reputação”, diz ele, sonhando com um mundo mais igualitário e diverso, onde cor, sexo, gênero ou qualquer outra característica não seja usada para discriminar, mas sim para incluir.

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Moisés Nascimento, Itaú

Durante sua infância nos anos 1980, o chief data officer do Itaú Moisés Nascimento cresceu em um contexto em que o racismo era amplamente aceito na sociedade. As manifestações diárias de preconceito surgiam em toda a parte, desde os programas humorísticos na TV até as piadas politicamente incorretas dirigidas a ele, por conta de sua cor e sotaque carregado à época. “Cresci aprendendo a ignorar algumas [destas agressões diárias] mas principalmente a confiar em mim mesmo e na minha força espiritual, emocional e executiva – meus pais fizeram um trabalho excelente em construir esta fortaleza”, conta lembrando da sua educação e dos valores transmitidos pelo pai, líder comunitário.

Moisés conta que essa base familiar o equipou não só com a capacidade de enfrentar os desafios com leveza, mas com resiliência para superar muitos dos episódios de discriminação racial que se apresentaram durante sua trajetória, e vontade de se desenvolver. O interesse em computadores surgiu no início da adolescência, e assim que conseguiu juntar dinheiro, comprou o primeiro PC aos 15 anos. Fez o curso técnico em processamento de dados na escola estadual de tecnologia de Contagem, e logo surgiu a veia empreendedora, quando começou a vender sistemas para pequenos negócios como locadoras de vídeo.

Entrou como estagiário na Fiat Chrysler Automobiles (FCA), e pouco tempo depois, entrou no curso de administração de empresas na PUC. A carreira de Moisés então deslanchou no final dos anos 90: além da experiência na Fiat, passou pela TIM e pela Maxitel, e dali virou consultor internacional de software e sistemas de dados através de uma empresa focada em telecom, que renderam trabalhos em diversos países da América Latina e nos Estados Unidos. Casou-se e foi morar em Miami, onde trabalhou no setor farmacêutico e três anos depois, em 2005, foi para o Vale do Silício e entrou na Salesforce, onde deu início a um novo estágio da carreira em posições de liderança. Até 2019, passou por diversos cargos seniores em empresas como a PayPal, até voltar para o Brasil no ano passado, como chief data officer do Itaú.

Com base em sua experiência nos Estados Unidos, onde foi entender o contexto em que estava inserido, também passou por discriminação, Moisés diz que por lá, ações contrárias ao racismo se manifestam mais abertamente. Por outro lado, o racismo nos Estados Unidos também se mostra de forma muito mais direta do que no Brasil, onde tradicionalmente, não havia espaço para diálogo sobre estas questões. “Você sentia uma dor e não tinha espaço, um fórum pra discuti-la, nem para aprender. Eu me perguntava o tempo todo, ‘será que isso é coisa da minha cabeça, será que existe mesmo?’ E isso é parte da negação do problema”, ressalta.

Segundo Moisés, o Brasil começa a afirmar que existe um problema, o que provoca o surgimento de ações para erradicá-lo. Mas ele acredita que o processo da diversidade é longo, pois tem raízes sociais e estruturais muito profundas, que passam por aspectos educacionais, sistêmicas e governamentais. “Por isso, as empresas setor privado elas têm uma missão chave, que tem a ver com ética e humanidade”, ressalta.

Aproveitando os recursos de sua função, que lida com diversas tecnologias de ponta baseadas em dados, Moisés está atualmente fazendo uma série de experimentos sobre como poderá usar análise avançada de dados para endereçar muitos destes problemas sociais. Um sonho pessoal do executivo é ver a população negra inserida no topo da pirâmide social e em todos os lugares: “O negro brasileiro que sobe de classe se sente muito sozinho.”

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