1. Início
  2. /
  3. Forbes Tech
  4. /
  5. Especial Inovadores Negros
  6. /
  7. ESPECIAL INOVADORES NEGROS: 19 profissionais que estão promovendo a transformação digital em grandes corporações
Especial Inovadores Negros

ESPECIAL INOVADORES NEGROS: 19 profissionais que estão promovendo a transformação digital em grandes corporações

Ao atuar nas mais diversas áreas, eles provam que inovação não está apenas nos laboratórios ou nos computadores

9 min
Divulgação
DivulgaçãoMoisés Nascimento, CDO do Itaú: o debate sobre a ausência de negros em funções relacionadas à inovação e na liderança tem se intensificado, mas avanços ainda precisam ser feitos

Assunto cada vez mais frequente nas falas de CEOs e líderes seniores de áreas de negócio, a transformação digital em grandes corporações ganhou novas nuances: entre elas, está a diversidade dos times responsáveis pelo desenvolvimento dos sistemas por trás destes novos produtos e serviços.

Tornada prioridade desde a emergência da Covid-19 por conta de fatores como a necessidade aumentada de comprar produtos e serviços através da internet, a transformação digital é um tema que vinha ganhando espaço em empresas. Segundo um relatório de dezembro de 2019 publicado pela consultoria IDC, mesmo antes da pandemia empresas na América Latina já tinham planos de gastar US$ 48 bilhões nestes projetos em 2020.

LEIA MAIS: Ana Bavon: empresas brasileiras precisam criar algoritmos inclusivos

O relatório cita uma aproximação da “supremacia digital”, era em que a economia digital ultrapassa o tamanho da economia dita analógica. Neste contexto, grandes empresas estão investindo pesado em tecnologias como computação em nuvem, mobilidade e aplicações sociais, bem como big data e outras tecnologias baseadas em dados, como inteligência artificial (IA). Quando se trata de IA e automação em particular, mais de 80% de grandes empresas na América Latina já tem projetos em andamento nestas áreas e já começaram a colher benefícios iniciais como eficiência operacional e melhor tomada de decisão, segundo um estudo da MIT Technology Review publicado em junho deste ano.

A franca expansão no uso de tecnologias que usam dados intensivamente traz questões sobre vieses algorítmicos, trazidas pelo fato de que a maioria dos programadores que desenvolvem estes sistemas pertencem a um grupo nada diverso. Segundo o estudo “Quem Coda o Brasil?” realizado pela PretaLab, iniciativa em parceria com a organização social Olabi e a consultoria ThoughtWorks, a maioria dos profissionais da área é masculina (68,3%) e branca (58,3%). Ainda segundo o levantamento, 32,7% dos entrevistados disseram não ter nenhuma pessoa negra na equipe.

Segundo Amanda Ferrareto, do estúdio de inovação weme, a imperativa da transformação digital faz com que empresas se vejam em uma posição em que são forçadas a pensar “fora da caixa”, e a falta de diversidade em equipes e na liderança dificulta estes processos: “Esses líderes, majoritariamente homens-cis-héteros-brancos, querem times capazes de terem ideias transformadoras, e que tenham impacto significativo na sociedade. Mas como falar sobre pessoas, como focar em soluções centradas em indivíduos tão diversos, se ainda não temos essa diversidade refletida no nosso próprio espaço?”, questiona.

Divulgação
DivulgaçãoAmanda Ferrareto, do estúdio de inovação weme: a falta de diversidade em equipes impede o pensamento “fora da caixa”

A participação de pessoas com diferentes vivências e culturas é essencial para garantir que a ideação aconteça de forma legítima, diz Amanda, ressaltando que pessoas negras, assim como pessoas da comunidade LGBT+ ou pessoas com deficiência carregam visões econômicas, políticas e culturais que podem influenciar a criação de um produto de forma positiva. “Pessoas iguais pensam de formas iguais: além de chato, isso não gera inovação, muito menos lucro”, afirma.

A onda do #BlackLivesMatter têm gerado um debate mais intenso sobre a necessidade de inclusão do povo negro, e sobre a importância dos pretos em posições de liderança, segundo Amanda. A especialista argumenta que, apesar do debate aparentemente intensificado, as pessoas pretas querem mais resultados, como a inclusão da diversidade nos objetivos e resultados chave pretendidos por empresas.

“Isso ainda não acontece. E o resultado são processos seletivos ineficazes, ambientes não plurais ou pessoas negras atuando apenas em serviços braçais”, aponta, frisando o ponto de que as mudanças só vem com ações.

VEJA TAMBÉM: Especial Inovadores Negros: 16 profissionais que estão democratizando o acesso à saúde no Brasil

“É preciso contratar pessoas negras e as qualificar. Construir processos seletivos que realmente expressam o entendimento de um contexto histórico e cultural. Colocar mulheres negras aos cargos de liderança, que servirão de inspiração para a comunidade”, ressalta a especialista da weme. “E, acima de tudo, compreender que a jornada de uma pessoa negra jamais foi como a de uma pessoa branca.”

Hackeando o sistema

No atual contexto de transformação digital e inovação tecnológica acelerada nas grandes corporações, o Brasil passa por um processo de conscientização a respeito do racismo estrutural presente nos departamentos que lideram essas mudanças. Esta é a opinião de Moisés Nascimento, chief data officer (CDO) do Itaú e líder de uma organização de mais de 1000 pessoas. Tendo passado mais de 15 anos trabalhando nos Estados Unidos, em empresas como o PayPal, o executivo nota uma mudança em curso em relação ao tema com base em suas observações ao longo dos anos em que ficou fora.

Segundo Nascimento, que assumiu o cargo no Itaú em abril do ano passado, o racismo até recentemente era um tópico que não era discutido – e de certa forma, até negado – na sociedade em geral e no mundo corporativo. “Foi interessante voltar para o Brasil e encontrar quase um outro país em relação a estes temas. Eu vivi em um país pré-ENEM, pré-cotas, pré-afirmação racial, e as dificuldades por conta disso sempre foram muitas, relacionadas não só à cor da pele ou ao cabelo, mas no meu caso, o sotaque, a questão de classe”, conta (ver perfil da trajetória pessoal de Moisés, abaixo).

Com base em sua vivência no Vale do Silício, Nascimento diz que o realmente “move o ponteiro” quando o assunto é racismo corporativo é a educação, em particular treinamentos de vieses inconscientes. “Você pode até ter programas de diversidade e falar que quer equidade de gênero e de raça, mas existe um processo sistêmico que exclui quem não estava no poder e vai excluir a mulher do board, o negro do programa de trainee, o gay do trabalho científico. É preciso trabalhar em autoconhecimento e nos vieses que estão excluindo minorias para combater a exclusão”, afirma.

O CDO ressalta o ponto de Amanda, da weme, de que o racismo também impacta diretamente os esforços de inovação das grandes corporações. A inovação digital de uma empresa nasce centrada no cliente, diz o CDO, que gera dados que alimentam sistemas inteligência artificial e motores de dados. Os insights destes sistemas, por sua vez, criam produtos e serviços que precisam ser úteis para todos. Isso só reforça a noção de que a inovação anda de mãos dadas com a inclusão, bem como a responsabilidade ética de empresas em garantir que seus times tenham a mesma representatividade da base de clientes que buscam manter e atrair:

“Inclusão é um dever de qualquer empresa que queira ser digital e inovadora. O processo anterior do capitalismo era centrado em um modelo em que o poder era centrado em quem detinha o capital, fazia um produto e colocava na mão do cliente, em um processo de distribuição unilateral, onde clientes só consomem algo que é oferecido”, ressalta o executivo, acrescentando que essa relação foi completamente alterada com a transformação digital.

LEIA MAIS: Especial Inovadores Negros: 20 creators que têm muito a dizer

“Neste [novo] processo, onde o cliente é protagonista, se eu não entender seu comportamento de forma holística, não consigo resolver seus problemas nem inovar para ele de forma natural – e esse é o grande paradoxo da inteligência artificial e do toque humano e intuitivo do design de inovação. É aqui que a diversidade e inclusão entram como grande força motriz para empresas que estão em processo de digitalização ou para as nativas digitais”, aponta.

Considerando as atuais demandas da economia digital, Moisés afirma que a palavra de ordem é “hackear” o sistema – e isso é verdade especialmente quando se trata de executivos negros como ele: “Estamos atualmente obcecados com um voltar ao passado neste atual momento de polarização política, mas só temos como ir para a frente. E para fazer isso, é preciso mudar o sistema de dentro: o termo hackear é interessante porque foi de algo ilegal a uma coisa bacana, que se faz para acelerar a inovação, quebrando o software para que ele se torne mais resiliente”, aponta.

No que diz respeito a suas próprias conquistas como líder nesse processo de mudança, o CDO tem resultados concretos para mostrar: nos últimos 12 meses, o Itaú tem elevado o número de pretos e pardos em cargos de tecnologia, e a proporção desta população passou de 18% no primeiro quadrimestre de 2019 para 31% no mesmo período em 2020. O executivo busca a interseccionalidade em sua abordagem de contratação e gestão: “Elevei e promovi muitos negros e mulheres nestes últimos 15 meses de Itaú. Sou homossexual, negro, nasci pobre e tenho vários ângulos de diversidade que se aplicam a mim, então tento ser bem holístico em relação a isso”, pontua.

Segundo Moisés, não é só desejável fazer a transformação digital em empresas com negros, mas é impossível conduzi-la com sucesso sem eles: “Isso será essencial para a nossa competitividade”, aponta o CDO, acrescentando que isso vale para outras categorias sub-representadas da população nos processos de design: “Temos um contingente enorme de pessoas semi-letradas, por exemplo, que tem dificuldades cognitivas, temos a cultura indígena brasileira e todos estes segmentos precisam ser representados na construção de sistemas. Toda aplicação tecnológica digital tem cunho social.”

Veja, na galeria de fotos a seguir, 19 profissionais que estão promovendo a transformação digital em grandes corporações:

Siga FORBES Brasil nas redes sociais:

Facebook
Twitter
Instagram
YouTube
LinkedIn

Baixe o app da Forbes Brasil na Play Store e na App Store.

Tenha também a Forbes no Google Notícias.

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.