Carla Bolla: Comer é um ato de amor

Ao longo do tempo, compartilhar refeições ganhou uma simbologia que vai muito além da mera ingestão de alimentos como forma de preservação da espécie.

Carla Bolla
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Nitat Termmee/Getty Images
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Alimentar-se em companhia de alguém proporciona uma relação de intimidade com o outro

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Embora o ato de comer acompanhe a espécie humana desde sua origem, o termo “alimento” surgiu no início do século XI. E foi apenas séculos depois, somente a partir do XVI, que a palavra passou a substituir a expressão “carne”, até então utilizada para se referir a todos os tipos de comida considerados bons para manter a sobrevivência.

Hoje, o ato de compartilhar uma refeição ganhou toda uma simbologia que vai muito além da mera ingestão de alimentos com forma de preservação da espécie. Alimentar-se em companhia de alguém proporciona uma relação de intimidade com o outro, pois envolve hábitos culturais e influencia até mesmo na organização social.

Na cultura brasileira, uma “refeição” é considerada um ato social que deve ser feito em grupo para ser efetivamente percebida como tal. Os brasileiros criaram até mesmo significados diferentes para esta ação, diferenciando o comer cotidianamente do comer em eventos especiais. Comer no aconchego do lar tem uma conotação diferente de comer fora.

Há também um caráter simbólico e ritual no hábito de convidar pessoas para jantar em nossa casa, ou no ato de “jantar fora” em determinadas ocasiões, bem como o “almoço de domingo”. Estes convites não são feitos somente para nutrir as pessoas enquanto corpos biológicos; servem, sim, para criar vínculos, alimentar e reproduzir relações sociais.

Enquanto alimento é aquilo que o indivíduo ingere para se manter vivo, a comida ajuda a definir uma identidade-de, um grupo, uma classe, uma pessoa. Também é um modo, um estilo e um jeito de alimentar-se.

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Tempero ou veneno?

Um dos mitos mais importantes da Grécia antiga é justamente o do Deus do Amor, Eros (Cupido, para os ro-manos). Conta a história que Psiquê era uma mortal por quem Eros nutria um profundo amor. O rei, pai de Psiquê, consulta o oráculo de Apolo para saber com quem a filha se casaria. Ao receber a resposta de que ela se casaria com uma entidade monstruosa, resolve abandoná-la no alto de um rochedo. Enquanto dormia, Psiquê foi levada pelo vento Zéfiro a um palácio suntuoso.

Getty Images
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Afresco do “Banquete dos Deuses”, de Giulio Romano (1499-1546), na Câmara do Amor e Psiquê, no Palazzo Te, em Mântua, Lombardia, norte da Itália

Ao acordar, sente fome e vê um banquete com comidas e bebidas deliciosas, com as quais sacia sua fome. Depois disso, ao ouvir a doce voz de Eros, entrega-se ao encantamento e ao prazer com o próprio Deus do Amor, com quem acaba passando a vida. Esta história mostra que oferecer comida é um meio de demonstrar afeto, bons sentimentos, bem querer, além do desejo de fazer o outro feliz.

Como diz o grande escritor Mia Couto: “Cozinhar é o mais privado e arriscado ato. No alimento, se coloca ternura ou ódio. Na panela, se verte tempero ou veneno. Cozinhar não é serviço. Cozinhar é um modo de amar os outros.”

Esta é a nossa filosofia, aqui no La Tambouille: sempre oferecer amor na forma dos mais sofisticados e saborosos pratos, fazendo do nosso cardápio uma aventura amorosa que nossos clientes desvelam a cada garfada.

Carla Bolla é Restauratrice do La Tambouille, em São Paulo

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