Como as empresas vão lidar com quem tem medo de voltar ao escritório?

Luis Alvarez/Getty Images
Luis Alvarez/Getty Images

Mais do que nunca, as mensagens vindas da organização com relação aos protocolos de segurança e a possíveis novos modelos de trabalho terão de ser claras

Quase todos os países desenvolvidos que já vacinaram uma parcela significativa de suas populações, começam a dar início à volta ao trabalho presencial. No Brasil, ainda que não tenhamos chegado a esse nível de vacinação visto em países como Israel, Estados Unidos e Alemanha, as organizações já começam a se mobilizar para o retorno aos escritórios. Algumas, inclusive, já voltaram.

Esse deverá ser, sem dúvida nenhuma, um dos maiores desafios para as empresas a partir de agora. Quem vai retornar ao ambiente de trabalho? Todo mundo? Uma parcela menor? Vai haver uma combinação de trabalho em home office e presencial? Quantos dias por semana? A verdade é que muitas organizações têm se debruçado sobre esse tema. Por quê?

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Dados internacionais apontam que ao menos 20% dos empregados estão sofrendo com o que está sendo chamado de FOGO, sigla em inglês para fear of going out, ou, em português, medo de sair de casa.

Não por acaso. A maior parte das pessoas passou por muita coisa desde que a pandemia começou: solidão por causa do isolamento social, luto pela morte de familiares e amigos, dificuldade financeira, filhos em educação virtual e medo de contrair Covid-19. Tudo isso levou ao enorme crescimento de três problemas de saúde mental: depressão, ansiedade e consumo de bebidas alcoólicas.

O trabalho em home office, por outro lado, trouxe para a maioria de nós a segurança de conseguir dar conta do trabalho sem o risco de estar num ambiente muitas vezes repleto de pessoas como são os escritórios e coworkings. Como lidar com quem tem medo de voltar ao formato original, o do trabalho presencial?

O medo é uma reação natural desse momento em que vivemos, até porque sabemos que as vacinas não são 100% eficazes para evitar que alguém pegue Covid-19. O que elas fazem é reduzir, e muito, as chances de alguém ter casos graves da doença e de morrer por causa dela.

Soma-se a isso o desconforto que muitos têm de voltar a enfrentar trânsito para ir ao trabalho e a dificuldade de administrar a rotina dos filhos. Uma boa parcela deles, ao menos os que estudam em escolas particulares, ainda continua no modelo virtual. Já se fala no retorno das aulas presenciais do ensino público para agosto. Mas essas crianças estarão protegidas, já que a vacinação ainda não chegou às faixas etárias mais baixas? O que fazer com o medo que esses pais sentem? Essa é realmente uma situação desafiadora para as organizações.

Nós, profissionais que lidamos com questões de saúde mental, sabemos que algumas pessoas podem ter desenvolvido um medo doentio de aglomerações, quase uma espécie de fobia. No retorno ao modelo presencial, as lideranças precisarão estar ainda mais atentas a seus times, porque os líderes são as pessoas mais capacitadas a identificar possíveis mudanças de comportamento nos seus liderados e sugerir que busquem ajuda médica para resolver aquele problema.

A comunicação com os empregados deverá ganhar ainda mais importância. Mais do que nunca, as mensagens vindas da organização com relação aos protocolos de segurança e a possíveis novos modelos de trabalho terão de ser claras. É muito importante que os colaboradores se sintam ouvidos por seus líderes.

Por fim, o trabalho de educação dos funcionários com relação às medidas de proteção pessoal e do coletivo não termina com a redução do número de novos casos de Covid-19. É algo que veio para ficar.

Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.

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