Bancos russos fora do Swift: Biden e aliados punem Putin ou a si mesmos?

Europa depende de gás natural de Moscou para se aquecer durante inverno, e EUA querem evitar uma escalada maior dos preços do petróleo.

Jason Bisnoff
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REUTERS/Kevin Lamarque
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EUA e Europa querem evitar sanções à Rússia que sejam severas demais

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As sanções à Rússia que envolvem o sistema mundial de comunicação interbancária, chamado Swift, e têm como alvo punir certos bancos russos por causa da invasão da Ucrânia já provocam turbulência nos mercados de energia europeus mesmo antes de serem implementadas.

O preço do petróleo dos Urais, referência para o petróleo produzido na Rússia, está no chão desde quarta-feira (2). Naquele dia, o barril era vendido US$ 20 abaixo do barril Brent, que estava a US$ 114,25 (referência europeia).

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, está preocupado que uma disrupção na produção de petróleo russa possa contaminar o mercado norte-americano e impulsionar os já crescentes preços da gasolina. Mas a commodity mais afetada pelas sanções não é o ouro negro – é o gás natural.

O produto que vem da Rússia responde por 40% da oferta da União Europeia. Uma interrupção nos embarques do combustível prejudicaria a economia russa, mas também deixaria muitos europeus com frio.

Quando o governo Biden e seus aliados determinaram o banimento da instituições financeiras russas do sistema Swift, que mantém o fluxo de pagamentos, tiveram o cuidado de deixar as transações de energia de fora.

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No total, sete bancos foram excluídos, mas o Sberbank e o Gazprombank, que processam pagamentos de exportação de gás da Rússia, permaneceram intocados.

Há uma linha tênue entre repreender o presidente russo, Vladimir Putin, e se auto-boicotar. Uma guerra econômica total contra o Kremlin, com sanções ao petróleo e ao gás, não está fora de cogitação – depende de quão longe Putin vai levar sua guerra.

“O presidente, trabalhando com nossos aliados, está tentando impor sanções econômicas que prejudicam a economia russa e minimizam os impactos na economia dos EUA”, afirma Cecilia Rouse, presidente do Conselho de Assessores Econômicos, à NPR na quarta-feira (2).

“Como o presidente disse, não podemos esperar passar por isso sem que haja alguns custos domésticos. A Rússia invadiu a Ucrânia, isso é uma ameaça muito séria à democracia em todo o mundo.”

No jogo geopolítico de vontades, os países ocidentais querem manter uma porta aberta para Putin caso ele decida diminuir a escalada militar, diz Henning Gloystein, diretor de energia, clima e recursos da consultoria de risco político Eurasia Group. Por isso, as autoridades financeiras mundiais deixaram para outro momento a expansão de sanções para mais bancos, empresas de carvão e de aço.

Sua última carta na manga, um embargo do petróleo russo, viria por último, se necessário, disse Gloystein. As autoridades “estão considerando seriamente a questão, afirma ele, acrescentando que um bloqueio ao petróleo “não está sendo considerado agora nem é iminente, mas é algo discutido muito mais abertamente hoje do que há dois dias. [Um embargo ao] gás seria o último recurso.”

Se as sanções atingirem o petróleo, os Estados Unidos e a Europa podem ser prejudicados. A Rússia exporta diariamente 2,5 milhões de barris de petróleo bruto para a União Europeia e meio milhão para os EUA. Os preços, já altos, subiriam mais. No entanto, uma escassez de oferta poderia ser remediada em alguns meses se a lacuna for preenchida por outras opções, como o aumento da oferta pelos membros da Opep.

A situação é muito mais grave no caso do gás natural. Se o fornecimento russo fosse cortado, isso poderia significar racionamento de energia na Europa – algo que a maioria dos europeus nunca viveu.

A Finlândia, membro em potencial da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), e a Letônia, que faz parte da Otan, obtêm mais de 90% de sua energia da Rússia. Isso significa que seria necessário elaborar planos de contingência e superar obstáculos logísticos antes de impor sanções ao gás natural, diz Daniel Tannebaum, sócio da consultoria Oliver Wyman, que chefia o departamento anti-crimes financeiros para as Américas.

Enquanto isso, a indústria do petróleo começou a “auto-sancionar” a Rússia. Nos últimos dois dias, BP, Shell, Equinor e até ExxonMobil abandonaram projetos extensos no país – o negócio da Exxon, sozinho, é avaliado em US$ 4 bilhões.

Para evitar o aumento vertiginoso dos preços da energia, a Rússia terá de ser contida sem um embargo total. O analista Michael Hsueh, do Deutsche Bank, afirma que o petróleo pode chegar a US$ 170 o barril se as sanções bloquearem totalmente as exportações russas.

O sistema Swift (sigla para “Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication”) tem sede na Bélgica e processa solicitações e mensagens de pagamento entre 11 mil instituições financeiras em todo o mundo. Em 2021, o Swift registrou 42 milhões de mensagens por dia, e a Rússia respondeu por 1,5% delas.

Os bancos russos que serão retirados do Swift são VTB, Bank Otkritie, Novikombank, Promsvyazbank, Bank Rossiya, Sovcombank e VEB.

As sanções seguem um plano cuidadosamente elaborado para manter a pressão sobre a Rússia e, ao mesmo tempo, garantir que o apoio público não diminua, diz James Angel, professor da McDonough School of Business da Universidade de Georgetown.

“Estamos vendo o cerco lentamente se fechar”, afirma ele. “Há muitos riscos envolvidos neste tipo de ação internacional e você não quer usar toda sua munição de uma vez, já que empregar parte dela pode ser o suficiente. Se os oleodutos forem explodidos agora, a população europeia congelará neste inverno e os países podem perder o apoio público às medidas anti-Rússia”, conclui Angel.

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