Com as sanções à Rússia, de onde o mundo vai comprar petróleo?

Brasil vê a oportunidade para ampliar sua produção, mas afirma não poder acelerar planos para compensar embargo.

Amanda Péchy
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Segundo o BofA, um boicote mundial ao petróleo russo significa queda de 5 milhões de barris por dia no mercado internacional, o que pode elevar seu valor para US$ 200

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Os Estados Unidos chacoalharam os mercados globais ao anunciarem, no começo do mês, a proibição total da importação de petróleo da Rússia. No dia 6 de março, o preço do barril de Brent subiu para quase US$ 140 (R$ 679,29), o dobro do registrado em 1º de dezembro de 2021.

Segundo projeção do Bank of America, um boicote mundial ao petróleo russo pode elevar o valor do barril para US$ 200 (R$ 970,42). Este cenário sombrio desencadeou uma busca frenética por substitutos para o segundo maior exportador de petróleo do mundo.

A Rússia fornece cerca de 4,5 milhões barris de petróleo e 2,5 milhões de barris de derivados por dia ao mercado global. Sanções contra o petróleo de Moscou têm o potencial de causar danos severos à economia russa e pressionar o governo de Vladmir Putin a recuar da guerra contra a Ucrânia – metade da arrecadação fiscal vem do setor, que é dominado pelas companhias Rosfnet e Gazprom, ambas controladas pelo Kremlin.

Depois que o embargo foi anunciado, as projeções para o PIB (produto interno bruto) da Rússia em 2022 foram revisadas e chegaram a apontar queda de 11%.

A Rystad Energy, empresa independente de pesquisa de energia com sede na Noruega, disse na segunda-feira (21) que as partidas de carga bruta dos principais portos ocidentais da Rússia caíram pelo menos 1,5 milhão de barris de petróleo desde o início do conflito. Desde o dia 12 de março, não há relatos de partidas.

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Para amenizar o golpe no curto prazo, os EUA e seus aliados têm recorrido a estoques de emergência. A AIE (Agência Internacional de Energia) anunciou antes mesmo da proibição de Washington que seus 31 países membros liberariam cerca de 60 milhões de barris de petróleo de reserva.

A estratégia só foi utilizada anteriormente durante a Guerra do Golfo, nos anos 1990, após a passagem do furacão Katrina, em 2005, e durante a guerra civil da Líbia, em 2011. No entanto, a medida só tem efeito temporário.

Mas o verdadeiro dilema acerca da medida é que nenhum outro fornecedor, nem qualquer combinação deles, tem capacidade de aumentar a produção com rapidez suficiente para substituir a perda de todas as exportações russas. A demanda global por petróleo está em cerca de 100 milhões de barris por dia.

Por isso, aliados dos EUA ainda estão relutantes a impor sanções. Enquanto apenas 3% das importações norte-americanas de petróleo cru vêm da Rússia, a Europa é o maior cliente de Putin. Dos 4,5 milhões de barris que o país exporta por dia, mais da metade vai para a Europa. E cerca de um quarto de todas as importações europeias de petróleo vêm da Rússia.

Austrália, Reino Unido e Canadá já se juntaram aos EUA e buscam alternativas de abastecimento que vão desde produtores consolidados, como a Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), até aqueles que exigem negociações delicadas, como Irã e Venezuela. O Brasil também foi abordado sobre a possibilidade de aumentar a produção.

Os países da Opep poderiam aumentar a produção para suprir a falta do petróleo russo?

Estima-se que a Opep tem uma capacidade ociosa de produção de petróleo na ordem dos 3 milhões de barris por dia, além dos 33 milhões que já fornece ao mercado global. Essa produção poderia ser um grande tapa-buraco para garantir a oferta e segurar os preços em caso de sanções mais amplas à Rússia.

Os principais produtores do grupo são a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. A Arábia Saudita sozinha poderia aumentar a oferta em cerca de 1 milhão de barris por dia, por exemplo. No entanto, Alexandre Szklo, professor de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro), é cético quanto à capacidade da organização de levar a capacidade ociosa a zero.

“O equilíbrio entre demanda e oferta já estava apertado no ano passado. O consumo de combustíveis fósseis já se recuperou muito da queda induzida pela Covid-19 em 2021, então se a Opep quisesse e pudesse aumentar a oferta, provavelmente já o teria feito”, avalia o professor.

A Opep vem sendo acusada de não aumentar a produção para manter os preços altos e aumentar os seus lucros. Além disso, dependendo dos acordos que países compradores desenharem com fornecedores, membros do grupo podem boicotar esforços para suprir a demanda de petróleo russo.

“Apesar de ambos estarem na Opep, Arábia Saudita e Irã são rivais, por exemplo. Não só como competidores no mercado energético, mas também devido a disputas religiosas. Caso os Estados Unidos levantem as sanções contra o Irã, é possível que a Arábia Saudita fique ainda mais relutante em explorar sua capacidade ociosa”, diz Szklo.

A AIE espera que a demanda global de petróleo retorne aos níveis pré-pandemia até o final deste ano e estima que o mercado já estava sub-abastecido em cerca de 1 milhão de barris por dia antes da guerra na Ucrânia.

E o petróleo do Irã, poderia compensar o embargo ao óleo russo?

Desde 1979, os EUA e seus aliados mantêm sanções contra o petróleo iraniano por causa do programa de enriquecimento de urânio de Teerã. O governo americano e seus aliados temem que o país use a tecnologia para desenvolver armas nucleares – o que o Irã nega, dizendo que seu programa nuclear é para fins civis.

Um acordo para retirar as sanções contra o Irã vem sendo desenhado no último mês e poderia aumentar as exportações em cerca 1,3 milhão de barris de petróleo por dia em um ano, segundo o professor da UFRJ.

No entanto, as negociações sofreram um revés devido à demanda da Rússia a Washington e a Teerã por uma garantia de que um acordo entre eles não afetaria o comércio russo com o país muçulmano.

“O Irã tem um óleo de boa qualidade que poderia suprir parte da produção russa. Tiraria o doente da UTI”, afirma Szklo. “Mas retirar as sanções contra um país para manter as de outro é uma espécie de cobertor curto: puxa de um lado e descobre do outro.”

A Venezuela conseguiria tomar o lugar da Rússia como fornecedora de petróleo?

Negociadores americanos também se voltaram para a Venezuela, outro país com exportações de petróleo restringidas por sanções. Um acordo com o país latino-americano não resolveria totalmente o problema de oferta da commodity, já que Caracas só consegue produzir a cerca de 500 mil a 1 milhão de barris extras de petróleo por dia, e conseguiria entregar esse volume daqui a um ano.

O especialista em planejamento energético também ressalta que a Venezuela produz óleo extra-pesado, com grau API (escala que mede a densidade dos líquidos derivados do petróleo) abaixo de 10. Ou seja, mais denso que a água.

Isso requer investimentos em melhoradores de petróleo e capacidade de pré-processamento. Além do dinheiro, que é curto para o governo venezuelano, isso demanda tempo – o que os países consumidores não têm diante da possível crise energética devido às sanções contra a Rússia.

E o petróleo dos EUA?

Os EUA olham para dentro de seu próprio território para tentar substituir o petróleo russo. Uma alternativa possível seria o xisto, obtido pelo fraturamento hidráulico. O processo faz uma injeção a alta pressão de uma mistura de água, areia e diversos produtos químicos, com objetivo de ampliar as fissuras no substrato rochoso que guarda reservas de petróleo e gás natural.

A prática, contudo, tem elevado impacto ambiental. O fraturamento hidráulico envolve uma injeção de uma solução sob alta pressão – cerca de 45% do volume total é retido pelo subsolo, incluindo os produtos químicos e resíduos da extração. Há riscos significativos de contaminação dos lençóis freáticos e de poluição do ar pelos gases e produtos químicos do processo.

Desde sua campanha à Casa Branca, o presidente dos EUA, Joe Biden, tem colocado as questões ambientais no centro de sua agenda política, o que significa que é pouco provável que seu governo apoie o aumento do uso do fraturamento hidráulico. Os campos de xisto também não devem receber investimentos devido à agenda ESG (governança ambiental, social e corporativa, na sigla em inglês) de investidores.

Mesmo assim, estima-se que a produção de xisto norte-americana cresça cerca de 1 milhão de barris por dia este ano. Além de entraves políticos, disrupções na cadeia de suprimentos (como a alta do preço da areia) dificultam que a produção aumente ainda mais.

Oportunidade para o Brasil?

O governo norte-americano pediu formalmente ao Brasil que aumente a produção de petróleo. A solicitação partiu da secretária de Energia dos EUA, Jennifer Granholm, e foi dirigida ao ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque.

Com a guerra na Ucrânia, o Brasil vê novamente a oportunidade de ampliar a sua produção para aproveitar o alto preço do barril, que tem sido negociado próximo aos US$ 100.

O país espera adicionar gradualmente 3 milhões de barris por dia de petróleo e gás à sua produção nesta década. No entanto, Rodolfo Saboia, diretor-geral da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), disse que o Brasil não pode acelerar esses planos para compensar o embargo à Rússia.

“A produção brasileira é baseada em offshore, águas ultraprofundas. Desenvolver campos demanda muito dinheiro e é um processo que leva mais de seis anos”, explica Szklo. O professor da UFRJ ressalta que o Brasil não possui capacidade ociosa.

No caso do pré-sal, as 13 novas plataformas que a Petrobras está construindo para expandir sua produção ainda não estão prontas, e outros parceiros internacionais também começaram a operar nos campos do pré-sal a partir de 2019.

Nos últimos três anos, as grandes petroleiras tiveram um decréscimo de produção de 9%. Até 2026, 15 plataformas de petróleo, todas da Petrobras, devem entrar em produção – cada uma deve entregar em média entre 200 mil e 250 mil barris por dia.

Em dezembro de 2015, o planejamento oficial do governo previa que o país terminaria 2021 produzindo 4,3 milhões de barris de petróleo por dia apenas em áreas já contratadas. Seis anos mais tarde, depois de uma forte crise econômica, de mudanças na dinâmica do setor de energia e da redução do preço da commodity na comparação com a década anterior, a produção brasileira de óleo ficou em 2,9 milhões de barris por dia.

Mesmo entregando menos que o previsto, o país se firmou como um dos maiores produtores do mundo.

“Apesar da impossibilidade de aumentar a produção rapidamente, o óleo do Brasil tem boa qualidade e somos superavitários em petróleo. Por isso, devido ao conflito na Ucrânia e às sanções contra a Rússia, devemos ver a receita de vendas aumentar”, afirma Szklo.

Para o especialista em planejamento energético, o que mais preocupa é o fato de o Brasil ser deficitário na conta de derivados, especialmente de diesel – 25% do produto consumido no país é importado.

Szklo afirma que, devido às condições criadas pela guerra, é possível que o mercado fique tão apertado no Brasil e no mundo, com preços tão altos, que aconteça uma espécie de auto-racionamento. No médio prazo, ele enxerga uma saída pelo aumento da eficiência energética, com investimentos em veículos elétricos e fontes de energia mais sustentáveis. No curto prazo, no entanto, o consumidor terá de pagar o preço pelo conflito.

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