Como um bilionário amigo de Trump está se preparando para sua próxima grande jogada em Las Vegas

ForbesUSA/Tim Pannell
ForbesUSA/Tim Pannell

O bilionário Phil Ruffin é parceiro de negócios e amigo pessoal do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump

É uma tarde de sexta-feira no início de abril, e o bilionário de Las Vegas Phil Ruffin está entediado e procurando algo para fazer. “Estou na minha mesa, sem clientes”, diz o dono de cassinos de 85 anos, que administra um império no valor de US$ 3 bilhões, incluindo os hotéis Treasure Island e Circus Circus. “Não há ninguém nas ruas e nossos telefones não estão tocando.”

Em qualquer sexta-feira típica antes do início da pandemia de coronavírus, a agenda de Ruffin seria repleta de reuniões de estratégia e sua mesa seria uma pilha de relatórios operacionais diários. O telefone dele tocaria sem parar e ele estaria percorrendo os seus cassinos. Em seguida, ele ligaria para Donald Trump Jr. e Eric Trump para ver como os negócios estavam andando no Trump International Hotel, empreendimento que ele divide igualitariamente com seu amigo mais próximo, o presidente norte-americano, Donald Trump.

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Mas, desde 17 de março de 2020, quando o governador de Nevada, Steve Sisolak, ordenou o fechamento de todas as empresas não essenciais (incluindo a força econômica do estado, os cassinos) Ruffin se encontra em uma posição com a qual não está familiarizado. E, como os convidados que visitam suas propriedades, ele está ansioso para apostar em uma propriedade subvalorizada ou subfinanciada, da mesma forma que fez durante a recessão de 2008, quando comprou o Treasure Island da MGM Resorts, que estava sem dinheiro e aceitou vender a propriedade por menos da metade de seu real valor. “Isso é algo totalmente novo para nós: um desligamento pandêmico devido a um vírus”, lamenta. “Eu nunca poderia imaginar que todas as nossas propriedades seriam fechadas, mas elas foram”.

Depois que a ordem do governador foi publicada, Ruffin teve de pedir aos hóspedes que fizessem check-out de seus hotéis e, em seguida, colocou 4.400 funcionários (de 5.500) em licença sem remuneração. Os que não foram colocados em licença são principalmente trabalhadores da construção que estão reformando os quartos dos hotéis. Os hotéis Treasure Island e Circus Circus continuarão a cobrir o seguro de saúde dos funcionários, algo que o sindicato teve de negociar para os membros que trabalham em suas propriedades, mas nenhum dos dois está pagando salários dos funcionários durante a licença.

“Espero que eles recebam um cheque de US$ 1.200 em breve”, diz Ruffin, referindo-se ao primeiro estímulo financeiro que o governo federal enviou aos americanos. Quando perguntado por que ele decidiu não pagar a seus funcionários durante a licença (outras empresas bilionárias de cassino, incluindo Wynn Resorts, Las Vegas Sands e Red Rock Resorts pagaram), Ruffin diz que está seguindo o que os maiores operadores da Strip (rua famosa de Las Vegas, com muitos hotéis luxuosos), MGM e Caesars, fizeram (as duas empresas concederam aos funcionários um pagamento extra de duas semanas durante a licença, enquanto Ruffin não. O Caesars também está permitindo que os funcionários usem folgas remuneradas acumuladas). “Estamos tentando reabri o mais rápido possível. Ninguém está sofrendo mais do que nós”, ele diz com uma risada rápida. “Nossas perdas são enormes e tudo bem, isso faz parte do acordo. O governo nos fechou e nosso pessoal entende isso.”

Ruffin certamente tem dinheiro para cobrir os salários dos funcionários durante o bloqueio: a Forbes estima que seu patrimônio líquido seja de US$ 3,2 bilhões, com um caixa corporativo estimado em US$ 500 milhões em dinheiro. Ele também comentou que, se algum funcionário pedisse dinheiro, ele daria um empréstimo com juros de 3%. E acrescentou rapidamente que o governador Sisolak é o culpado pelo infortúnio de Las Vegas, e não os donos de cassinos. A economia local (um terço da qual está ligada ao turismo e à indústria da hospitalidade) era forte antes da paralisação. Agora, o número de pessoas reportando estarem desempregadas em todo o estado é um recorde de 17%, enquanto a taxa total de desemprego pode chegar a 25% em Las Vegas. “Fomos obrigados a fechar”, diz Ruffin com firmeza. “Você entende isso? Nos mandaram, não tínhamos escolha. O governador fez isso.”

Ruffin, cujo Casino Miami na Flórida também está fechado, afirma que está perdendo de US$ 6 milhões a US$ 8 milhões por mês em cada propriedade. Mas, de acordo com um relatório escrito pela Macquarie Insights, a MGM, maior operadora de Las Vegas com 80 mil funcionários em todo o mundo (cujas propriedades incluem Bellagio e New York, New York) está perdendo US$ 14,4 milhões por dia, enquanto a operadora Red Rock Resorts está perdendo US$ 1,7 milhão por dia.

Os executivos do MGM, incluindo seu CEO interino, Bill Hornbuckle, doaram dinheiro para seu programa de subsídios de emergência que ajuda os funcionários em licença a pagar aluguel e comprar comida. A Red Rock Resorts, de propriedade dos irmãos bilionários Frank e Lorenzo Fertitta, anunciou que pagaria os salários dos funcionários durante o fechamento do cassino. Sem receita, o MGM tem dinheiro suficiente para durar cerca de nove meses, enquanto o Red Rock pode sobreviver quase 14 meses. O analista da Macquarie, Chad Benyon, que escreveu o relatório, acredita que a maioria das empresas de jogos possui balanços fortes o suficiente para sobreviver a quarentena, mas é uma questão de quanto tempo a Strip permanece fechada.

Ruffin diz que está “tudo bem” com seu império porque ele pode se dar ao luxo de queimar dinheiro por mais tempo do que a maioria dos concorrentes. “Temos renda zero e muitas despesas, mas não pretendemos pegar empréstimos”, diz ele. Quando perguntado se ele aceitaria um empréstimo do governo, ele descartou a questão: “Isso está completamente fora de cogitação. Eu não quero o dinheiro deles. Se você não precisa do dinheiro, não aceite. Temos muito dinheiro, eu poderia sobreviver por mais 20 anos, talvez.”

Mesmo assim, ele está ansioso para ligar sua “máquina de dinheiro” novamente. Enquanto Ruffin acredita que o governador Sisolak fez a coisa certa ao fechar a Strip no início, ele diz que permanecer fechado por muito mais tempo causará mais danos ao tecido socioeconômico da cidade. Ruffin acredita que a prefeita de Las Vegas, Caroline Goodman, que chamou a ordem distanciamento social de “insanidade total”, está certa quando diz que a Strip precisa reabrir. Durante uma recente reunião do conselho da cidade, a prefeita reafirmou seu desejo de abrir os cassinos, apesar de não ter nenhum plano para manter os visitantes e a equipe em segurança. (O Venetian divulgou um plano esta semana que utiliza câmeras térmicas e uma equipe de paramédicos disponíveis quando o cassino reabrir.) “Eis o que eu acho”, diz Ruffin sobre a estratégia que ele acredita ser a melhor: “1º de maio é cedo demais, 1º de junho é tarde demais. Então, deve haver uma resposta no meio do caminho: 15 de maio.”

Se o governador Sisolak permitir, Ruffin diz que abrirá apenas um terço de seus quartos no início, suas propriedades estarão completamente higienizadas e existirá um plano instituído para manter os hóspedes a uma distância segura uns dos outros nas máquinas caça-níqueis e nos restaurantes. O desinfetante para as mãos estará disponível em diversos locais dos cassinos e todos os funcionários verificarão a temperatura antes de cada turno e serão enviados para casa se parecerem estar doentes.

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Mas Ruffin está mais animado com os dispositivos portáteis que emitem luz ultravioleta que cada hóspede poderá pegar emprestado no check-in. O dispositivo de Ruffin, ele diz, pode ser apontado para qualquer superfície para matar o vírus. Se a limpeza e os dispositivos portáteis não funcionarem, Ruffin, assim como o prefeito Goodman, acredita que o calor do deserto cuidará da doença. “Em julho, o clima será de 46ºC aqui”, diz ele. “Portanto, se for verdade que o sol mata o vírus, teremos muito sol”.

Como convém a um magnata de sucesso, Ruffin é conhecido por ter momentos extremamente oportunos. Ele é o tipo de homem que guarda muito dinheiro e espera o momento certo para comprar ativos grandes e chamativos por um preço baixo. Em 2007, Ruffin vendeu o lendário Frontier Hotel de Las Vegas por US$ 1,2 bilhão, ou sete vezes o que ele comprou há quase uma década. No ano seguinte, quando a Grande Recessão chegou e o MGM tinha US$ 13 bilhões em dívidas, Ruffin retirou o Treasure Island de suas mãos por US$ 775 milhões. Hoje, a Forbes estima que o cassino vale US$ 2 bilhões.

Ruffin é tão fatalista quanto capitalista. Cerca de dois meses depois que ele comprou o Treasure Island, as ações do Bank of America atingiram uma baixa de quase US$ 3 por ação. “Eu deveria ter investido tudo no Bank of America. Hoje eu estaria tão rico quanto Bezos”, diz ele, referindo-se à pessoa mais rica do mundo.

Com esse tipo de discurso e contabilidade especulativa, é fácil entender como Ruffin se tornou tão amigo de Donald Trump. Ruffin não nasceu rico, mas nasceu com a habilidade de trocar um negócio por outro. Ele cresceu em Wichita, Kansas, onde embalava comida no supermercado de seu pai. Quando adolescente, trabalhou em uma loja de departamentos e desistiu depois que lhe pediram para recuperar um macaco de estimação pelo qual o cliente não havia pago. Antes de deixar a faculdade, ele vendeu sua participação em uma hamburgueria que construiu com um colega de classe e fundou uma cadeia de postos de gasolina em Oklahoma e Kansas. No início dos anos 1990, entrou no negócio de cassinos comprando o Crystal Palace Casino nas Bahamas, negócio que ele vendeu uma década depois por US$ 150 milhões e, em 1998, comprou o Frontier Hotel, no centro de Las Vegas.

Ruffin conheceu Trump há quase 30 anos na Trump Tower, em Manhattan, para elaborar um acordo imobiliário-cassino. Não deu certo, mas os dois se tornaram amigos rápido: “Nós dois estávamos solteiros”, diz Ruffin. Em 2005, Ruffin convidou Trump para jantar em Las Vegas. Depois, ele levou o futuro presidente para ver um terreno baldio que ainda possuía atrás da antiga fronteira e sugeriu que seria um ótimo local para um novo hotel Trump. O magnata imobiliário de Nova York decidiu investir, e os dois construíram uma torre de vidro dourado de 64 andares na Strip, o Trump International Hotel, com 1.283 quartos.

O relacionamento entre os dois bilionários foi forjado através dos negócios, mas logo se tornou pessoal. Em 2008, Ruffin se casou com Oleksandra Nikolayenko, que é quase 50 anos mais nova e ex-Miss Ucrânia. Trump era seu padrinho. Os dois também fazem muitos favores um ao outro: em agosto de 2016, Trump pegou emprestado o jato de Ruffin para visitar Enrique Peña Nieto, presidente do México na época. Uma coisa que eles não fazem, diz Ruffin, é jogar golfe: “Ele não joga comigo porque eu não sou tão bom”, diz. “Ele quer que eu use os percursos menores e eu me recuso a ser insultado dessa maneira.”

Como o presidente Trump, Ruffin gosta de negócios imobiliários: nada o deixa mais animado do que um terreno vazio em uma boa localização. No ano passado, Ruffin comprou o Circus Circus, outro imóvel do MGM, por US$ 825 milhões. Mesmo que o hotel, que foi inaugurado em 1968, tenha registrado um fluxo de caixa (Ebitda) de US$ 62 milhões nos 12 meses encerrados em junho de 2019, Ruffin diz que a parte mais atraente do acordo foram os 72 acres de propriedade não desenvolvida. “Eu amo esse pedaço de chão. É o último disponível na Strip”, diz ele. “Se alguém quiser vir para cá, irá olhar o nosso terreno.”

Ruffin está de olho em muitos terrenos nos dias de hoje. Quando perguntado sobre sua estratégia durante essa Grande Cessação, ele tem uma resposta simples: “Não estamos vendendo, somos compradores se algo acontecer”, diz ele. “Ainda é cedo, mas algo pode surgir.” Considerando como Las Vegas foi uma das cidades mais atingidas pela recessão de 2008, é provável que outra barganha venha à tona, principalmente se a Strip permanecer fechada. Ruffin não deu nenhuma pista sobre as propriedades que ele poderia estar olhando, mas disse que seguirá a ideia de “fique no seu quadrado”, o que significa que ele procurará um bom negócio em um cassino, hotel ou outro imóvel. “Se algo decente aparecer, ainda temos linhas de crédito que poderíamos usar, além de dinheiro”, diz ele. “Mas você tem que ter cuidado. Não é um bom momento para acumular dívidas.”

Ruffin diz que não gostaria de comprar o Mirage da MGM, que fica ao lado do Treasure Island e foi construído para compartilhar serviços de back-office, porque a MGM não é dona do terreno ou do prédio. “Eu gosto de ser dono da terra e do prédio, para receber o aluguel”, diz ele. “Essa não é uma boa compra, você tem todas as despesas de capital e, se você tiver apenas operações, apenas venderá por cinco ou seis vezes o fluxo de caixa.”

Ruffin também não está interessado em adicionar o Tropicana ao seu portfólio, mesmo que ele inclua uma porção de terra não desenvolvida. “Eu odeio o Tropicana. Não gosto da localização”, diz ele. “O terreno tem valor, mas levará muito tempo até que isso se desenvolva e o Tropicana não tem bom fluxo de caixa.”

E os esportes? Como Las Vegas se prepara para receber os Raiders da NFL no estádio Allegiant, que será inaugurado em breve, Ruffin gostaria de levar um time de beisebol para a cidade? “Eu não invisto em esportes, é vaidade”, diz ele. “Eu não me interesso por isso. Eu não conseguiria dormir à noite pagando a algum jogador US$ 30 milhões por ano.”

Ruffin prefere pensar na Flórida, onde ele já é dono de um cassino perto do aeroporto de Miami. E o estado de origem adotado pelo presidente poderia ser mais atraente para ele se a Flórida reduzir seu imposto de 35% sobre os cassinos.

Além disso, dada a dor prolongada que os cidadãos de Las Vegas e as empresas locais estão sentindo agora, Ruffin acredita que tudo que ele precisa fazer é ter paciência. “As coisas vão voltar”, diz ele. “As pessoas vão começar a fazer o que sempre fizeram. Essa coisa surgiu rapidamente e pode não desaparecer tão rápido quanto todo mundo quer, mas se você olhar um ano e meio, dois anos depois, tudo voltará ao normal.”

Em última instância, é o governador Sisolak quem controla quando Las Vegas abre novamente seus negócios, mas Ruffin, que está entre os líderes empresariais da nova força-tarefa econômica do presidente, certamente poderia fazer lobby com seu bom amigo na Casa Branca para conseguir apoio.

Quando perguntado sobre a última conversa que teve com o presidente Trump, Ruffin diz que falou com ele recentemente. “Ele está sob tremenda pressão e estresse. A economia estava progredindo, e então isso nos atinge”, diz ele. “Ele está tomando responsabilidade pelas ações contra o vírus. Não é culpa dele, e as pessoas estão agindo como se fosse. Está machucando ele, eu acho. Eu o aconselhei a não se apropriar disso, mas ele meio que precisava.”

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Quando essa força-tarefa recomendar a reabertura do país, Phil Ruffin estará procurando aquela grande oportunidade. É uma aposta que ele está pronto para fazer.

Após a publicação, um porta-voz do Treasure Island enviou um e-mail dizendo que o hotel decidiu não usar a tecnologia UV quando a propriedade reabrir.

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