Por que o TikTok está no foco da indústria musical

Rodolpho Pupo
Rodolpho Pupo

Giulia Be lançou uma das músicas mais populares do TikTok nos últimos meses

Cerca de 1,3 milhão de vídeos no TikTok utilizaram a música “Se Essa Vida Fosse Um Filme”, lançada no início de 2020 pela jovem cantora Giulia Be. Produzida com recursos sonoros curiosos, como o de um projetor no começo, um pause estratégico no meio e palmas, a criação se tornou um grande viral em meio a desafios e esquetes que a utilizam como trilha sonora de fundo. O sucesso foi tanto que a faixa chegou à 1ª posição das músicas mais populares na plataforma a nível nacional e à 26ª no cenário mundial. 

“Se essa vida fosse um filme, eu dava pause nessa cena”, cita a música, enquanto milhares de jovens aproveitam dessa interação com o ouvinte para realizar transições de cenas em que aparecem com maquiagens marcantes e fazem brincadeiras e piadas. “Eu demorei horas construindo esses barulhos artesanais. Quando eu vi o primeiro desafio que fizeram com a minha música, mandei mensagem para o pessoal que trabalha comigo e falei: ‘Precisamos fazer algo com isso’. Foi a partir daí que eu comecei a fazer desafios também e, de repente, o negócio explodiu”, relembra Giulia. 

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Embora a cantora já estivesse ativa no mundo musical desde 2019, quando suas primeiras músicas foram lançadas, não é segredo para ninguém que o TikTok a ajudou a alcançar novas conquistas no mercado – como a posição de 4ª cantora brasileira com mais ouvintes mensais no Spotify, uma média de 5 milhões de reproduções por mês com o álbum “Solta”, e parcerias com personalidades como Luan Santana, com quem lançará uma música na próxima sexta-feira (9). Isso porque a plataforma tem se tornado uma grande impulsionadora de hits, capaz de alavancar a carreira de muitos artistas a partir das viralizações no aplicativo. 

Instalado mais de 1,9 bilhão de vezes em dispositivos de todo o mundo, segundo pesquisa do blog “Cloutmeter”, o serviço desenvolvido pela Bytedance é uma tendência global que oferece alta competitividade a seus concorrentes. Esse mesmo estudo revelou que ele foi o segundo app gratuito mais baixado mundialmente na Apple Store e no Google Play, perdendo apenas para o WhatsApp. Já em outra seleção de dados, feito pela Statista no mês de agosto, o TikTok surge como a plataforma dominante nos downloads mundiais, com 72,8 milhões, número expressivamente superior aos do Instagram e do Facebook, que alcançaram 38,5 milhões e 31,4 milhões, respectivamente. 

O Brasil não foge à regra. Com 7 milhões de usuários, o TikTok é o 2º colocado no ranking da GlobalWebIndex sobre países que passam mais tempo nas redes sociais, impulsionando ainda mais o poder de disseminação do aplicativo. Além disso, o público-alvo da plataforma é a Geração Z, extremamente organizada e focada no compartilhamento de virais. 

Tudo isso faz com que o TikTok seja um caminho favorável para aqueles que querem se lançar no meio musical, e os artistas já perceberam isso. Muitos já estão até produzindo com foco exclusivo nos challenges, o que, para Giulia, é uma tática perigosa. “Tentar fazer música só para o aplicativo é algo que não vai funcionar nunca. Se dez segundos funcionarem no TikTok, mas o resto não for bom, não vai ser estourar em nível nacional.” Esse é um ponto importantíssimo, já que a plataforma funciona quase como um canal de marketing, mas dificilmente gera renda direta. 

COMO O TIKTOK FUNCIONA 

“Sabemos que a monetização é importante para os criadores. Mas valor, autenticidade, expressão, uma comunidade de apoio engajada e todas as outras coisas que o aplicativo oferece de maneira exclusiva também são”, destaca Rodrigo Barbosa, gerente de comunidade do TikTok. Embora o lucro financeiro dos influenciadores já esteja sendo discutido em países como os Estados Unidos, aqui no Brasil o principal valor ainda é outro: o alcance de novos públicos. 

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Quase como uma alavanca para o sucesso, o algoritmo da plataforma funciona de uma maneira diferente das demais redes sociais. Ao contrário de seus concorrentes, Instagram, Facebook e Twitter, que priorizam a entrega de conteú­dos publicados pelas pessoas seguidas pelos usuários, o TikTok tem uma distribuição mais ampla e diversa. Ao se cadastrar pela primeira vez, o usuário recebe cerca de dez vídeos de diferentes tendências que estão bombando na rede. A partir de sua interação com esses conteúdos — curtidas, compartilhamentos, tempo assistindo –, a inteligência artificial molda seus interesses a fim de oferecer um entretenimento mais personalizado. Outras informações, como localização geográfica, hashtags e personalidades seguidas também ajudam no combo de informações. 

Esse sistema faz com que as pessoas recebam conteúdos diversos do mundo inteiro, impulsionando novas descobertas. “A entrega de conteúdo em um feed único e personalizado e o alcance global da plataforma provaram ser mecanismos promocionais muito eficazes para a indústria da música”, explica Barbosa, ressaltando o benefício tanto para criadores quanto para espectadores. “Do ponto de vista do artista, o formato é um marketing extremamente eficaz para um público aficionado. Já para os usuários, os vídeos curtos são bem-sucedidos ao apresentar lançamentos — ou músicas até então desconhecidas — de maneira orgânica.”

 

@giuliae se eu escrevi ##seessavidafosseumfilme pra você? 😍 ##fyp ##viral ##dublagem ##crush ##POV ##giuliabe♬ se essa vida fosse um filme – GIULIA BE

É a plataforma perfeita para que músicos emergentes ganhem exposição e conquistem novos seguidores, que provavelmente vão acompanhá-los em outras redes também, impulsionando a carreira. Para o gerente de comunidade, muito disso é resultado de uma celebração da “originalidade e criatividade” que percorrem a plataforma como uma marca própria. Giulia concorda, dizendo que é possível criar uma música que vá além do mundo TikTok e, mesmo assim, seja inovadora. “Isso faz toda a diferença: prestar atenção nos detalhes, nas batidas e em como as pessoas vão conseguir ser criativas com a sua música.”

O PODER DAS REDES

A cantora já sabia que o caminho das redes sociais era uma boa escolha quando iniciou sua carreira. No entanto, com covers no YouTube e no Instagram, sua única estratégia era a constância de conteúdo. “Se você joga com o algoritmo, ele joga junto com você”, ressalta. Quando o TikTok surgiu, como uma combinação de outros dois aplicativos, Musical.ly e Douyin, ela nem imaginava que a plataforma teria potencial em sua trajetória. 

Com apenas 20 anos, ela já se achava “velha” para o TikTok. “Quem domina aquilo ali é a Geração Z, uma audiência muito jovem que faz tudo girar. E eu ainda tinha dúvida sobre qual era o meu público-alvo.” Mas, em pouco tempo, a plataforma começou a crescer e a conquistar novas gerações. Ao acompanhar o mercado internacional, a cantora percebeu que as músicas que alcançavam o top 10 da Billboard, por exemplo, estavam sendo convertidas porque haviam viralizado no aplicativo. Foi assim que conheceu o “Bedroom Pop”, um estilo que circula pela rede e conquista muito espaço na indústria musical. 

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“Basicamente, são artistas que fazem o que eu chamo de música artesanal. Como se fosse algo feito do seu quarto para o mundo”, conta Giulia. Essa foi a base da música viralizada, que oferece aspectos sonoros que remontam à construção caseira. “Você deixa algumas mensagens ali para os ouvintes. Montagens que, criativamente, podem ser usadas no TikTok.” Mais uma vez, uma tendência que nasceu de um recorte geracional somado às redes sociais. 

Embora já tenha alcançado fãs de todas as idades, a cantora carioca revela apreciar essa oportunidade de falar com meninas mais jovens. Desde os seis anos, Giulia canta e toca piano, mas sempre enxergou a carreira artística como algo fictício. “Música era uma catarse para mim. Meu piano era meu psicólogo. Mas eu cresci na geração Hannah Montana, então o sonho de seguir esse caminho parecia algo da Disney”, relembra. Foi apenas quando já estava com a matrícula encaminhada para cursar Direito que o rumo de sua vida mudou. No backstage do Rock in Rio, em 2017, ela teve a oportunidade de mostrar sua voz para um dos integrantes da banda Maroon 5, que a incentivou a investir em seu talento. “Como eu não ia levar isso a sério?”, brinca. 

Ainda com humor, ela diz que o momento foi uma intervenção divina para que seguisse o que amava desde criança, fazendo seu trabalho com propósito e sentimento. Com a viralização de suas músicas nas redes sociais, Giulia sente que consegue passar sua mensagem com muito mais clareza. “Nos stories e nos desafios, histórias são contadas a partir da minha música. Isso é muito poderoso.”

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