Como o mindfulness pode ajudar a liderar em momentos disruptivos

fizkes/gettyimages
É preciso desenvolver novas capacidades para liderar em ambiente de crise e pandemia

A crise global causada pela pandemia de Covid-19 tem afetado cada um de nós de várias e únicas maneiras.

Recentemente, durante uma chamada de vídeo com um CEO, ele parecia cansado, com bolsas nos olhos. Perguntei como ele se sentia e ele falou sobre alguns dos desafios de liderar neste novo ambiente. Discutimos como tomar decisões quando não se tem as respostas. No entanto, na posição de CEO, a cada momento ou ligação existe uma nova decisão a ser tomada. O líder precisa se concentrar rapidamente nas discussões sobre planejamento de cenários, cadeia de suprimentos, novas diretrizes de bloqueio por parte do governo e cuidados com os funcionários.

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Está claro que o contexto de liderança mudou. É preciso desenvolver novas capacidades para liderar neste ambiente. A Forbes conversou com o neurocientista Rick Hanson, autor do livro “Neurodharma”, que ainda será lançado, para falar sobre como o mindfulness pode ajudar a adquirir novas capacidades e ser mais resilientes.

A nova obra de Rick Hanson é uma obra de pesquisa repleta de neurociência que pode realmente nos ajudar a desenvolver novas capacidades para enfrentar o caos com calma e criatividade.

FORBES: Quais são os benefícios do mindfulness em geral?

Rick Hanson: O mindfulness é muito simples. Trata-se da percepção sustentada do momento presente. Atualmente, existem pesquisas sobre os benefícios dessa atenção plena como uma força que podemos desenvolver que nos ajuda a adquirir outras habilidades.

À medida que as pessoas desenvolvem uma prática de mindfulness, elas se tornam mais conscientes de seu próprio interior, aprofundam-se no autoconhecimento. Partes do cérebro envolvidas com a autoconsciência, como a ínsula, tornam-se mensuráveis. É como levantar pesos para ganhar massa muscular. O mindfulness proporciona maior capacidade de estar presente no que está acontecendo com você e ao seu redor. Isso pode ajudá-lo a dar respostas mais eficazes ao que a vida lhe apresenta.

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F: Estamos no meio da crise pandêmica, tentando o nosso melhor para gerenciá-la. Trabalhamos em planos de negócios para o momento, lidando com crianças em idade escolar e preocupados com a economia. Nesse contexto, como o livro “Neurodharma” pode ser útil?

RH: Uma metáfora para esta época é que uma tempestade chegou e estamos sendo atacados do lado de fora com eventos ao nosso redor. Internamente, estamos sofrendo surtos intempestuosos dentro de nossas próprias mentes, com base em nossas reações às coisas. Quando tudo estiver calmo e tranquilo, você poderá relaxar. Mas, durante a crise, é preciso trabalhar o que temos dentro.

Quando a tempestade chega, geralmente tudo o que você tem é o que já desenvolveu dentro de si. É a soma do capital emocional próprio, com o capital interpessoal desenvolvido com outras pessoas. É tudo o que você tem. Quando o mundo começa a desmoronar ao seu redor, é um alerta para muitas pessoas que, na verdade, o tempo todo estiveram vazias.

F: Você pode compartilhar mais sobre o seu novo livro?

RH: O livro cobre sete qualidades principais que podemos desenvolver com a prática. Reúne a ciência mais avançada sobre o cérebro e a sabedoria mais profunda dos tempos. “Neuro” diz respeito ao nosso sistema nervoso. O termo “dharma” significa a verdade das coisas. O livro trata essas duas formas de nos conhecermos. Podemos nos conhecer de dentro para fora experimentalmente. Também podemos nos conhecer objetivamente de fora para dentro, biologicamente, fisicamente e neurologicamente. No “Neurodharma” os dois caminhos para o autoconhecimento se unem. Eles são baseados em evidências em termos de corpo e ciência e em conhecimentos milenares. As pessoas podem experimentar a aplicação de tudo no laboratório de sua própria vida e obter as evidências próprias também.

Vamos focar nas três primeiras práticas: estabilizar a mente, aquecer o coração, descansar na plenitude. Estabilizar a mente é manter a atenção com foco. Você consegue se concentrar o suficiente diante das distrações que vêm de fora ou borbulham por dentro? Aquecer o coração significa ser capaz de manter estima por outras pessoas, reconhecendo que elas estão estressadas e assustadas. Descansar na plenitude é praticar se sentir satisfeito com o que você já tem. Penso nos professores do jardim de infância que têm placas na parede: preste atenção, seja gentil, compartilhe seus brinquedos. É aí que começa.

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Existem outros quatro pontos que nos levam mais fundo nessa piscina, mas os três primeiros são as bases. Os recursos internos são muito úteis em bons momentos e especialmente eficazes em tempos difíceis.

F: Qual prática simples seria realmente benéfica para as pessoas que querem experimentar o mindfulness?

RH: O mais simples é respirar três vezes seguidas com total consciência. Isso leva menos de um minuto, mas já é um desafio para começar a construir o músculo da atenção plena.

Você é capaz de desenvolver uma estabilidade de percepção do momento presente diante das distrações que vêm de fora ou borbulham por dentro? É importante reservar um minuto ou mais por dia para isso e depois entender o que funciona para você. Existem muitas meditações gratuitas para ouvir online. Ofereço muito material gratuito, curto e agradável no meu site.

A melhor meditação para a prática da atenção plena é aquela que você é capaz de praticar sempre.

F: Muitas pessoas estão enfrentando estresse relacionado à saúde ou economia. Como o mindfulness pode ajudar a aliviar isso?

RH: Na maioria das vezes, estamos colados à tela do filme de nossas vidas. Um desses momentos é quando você está preocupado ou com raiva.

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Quando passamos à atenção plena, saímos da tela. O filme ainda está em execução, mas passamos a assistir da vigésima fileira da sala e ainda com um pouco de conforto em uma cadeira aconchegante. Não estamos lutando contra o filme no momento. Trazemos aceitação, curiosidade e compaixão pelo que está acontecendo na tela com as pessoas. Com essa distância, talvez possamos ver a mágoa subjacente à raiva ou ao medo ligado ao comportamento de alguém.

F: Muitas pessoas estão preocupadas com o que acontecerá no futuro. Como o mindfulness pode ajudar?

RH: O mindfulness pode nos ajudar a deixar de lado as emoções negativas que estamos sentindo. Pergunte-se: esse pensamento está me ajudando ou me machucando? Este é um bom filme para mim agora?

Duas coisas realmente funcionam e são baseadas em como o cérebro opera. Uma estratégia é chamar a atenção para o interior do seu corpo, como o peito subindo e descendo enquanto você respira. Isso acalma acalma a atividade verbal, que tende a ser um driver de muitos filmes em nossas cabeças que nos deixam loucos. Ele provoca um curto-circuito em uma parte do cérebro chamada rede de modo padrão, que está ligada à expressão negativa.

A segunda estratégia é ter uma noção das coisas por inteiro: o ambiente ou seu corpo são um todo. Assim que você percebe as coisas em sua completude, reduz a atividade em partes do cérebro envolvidas em atividades estressantes.

F: No momento, precisamos reinventar a rapidez com que fazemos as coisas. Como o mindfulness pode nos ajudar a ser mais criativos em momentos de perturbação?

RH: John Piaget era um psiquiatra pediatra suíço que estudou como as crianças aprendem e apontou que acontece de duas formas. A primeira é uma simulação em que coisas novas acontecem e as incorporamos a uma estrutura existente que é importante. A segunda forma de aprendizado, ele chamou de acomodação, na qual temos que mudar nossa estrutura. As pessoas não gostam de se acomodar. Eles mantêm suas estruturas familiares e rejeitam informações que não se encaixam nessas estruturas familiares e visões de mundo –é possível identificar isso em grandes empresas. Algumas companhias são mais ágeis e capazes de acomodar.

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Hoje estamos sendo chamados pela pandemia para acomodar, mudar nossas estruturas. Isso é desafiador para muitas pessoas, mas precisamos fazer isso. O mindfulness é realmente útil para acomodação, porque nos puxa para fora da estrutura familiar. Não estamos mais colados a esse filme da família. Somos capazes de observar as velhas suposições ou maneiras de ver as coisas, os velhos paradigmas. Não somos capazes de identificá-los quando estamos colados a eles por conta da proximidade. Mas se nos afastarmos com atenção plena, podemos adquirir consciência de como ficamos presos em posições sobre algo ou necessidade de estarmos certos.

Na verdade, a pesquisa mostra que ser capaz de estar atento expande a criatividade. Abre novas possibilidades que não tínhamos imaginado antes. E também nos dá uma sensação contínua de segurança e bem-estar. Quando você sai do filme, muda para um tipo de bem-estar centralizado. É reconfortante e calmante e você fica mais disposto a experimentar novas idéias, ser flexível e, assim, acomodar-se às novas informações.

Por exemplo, estamos discutindo com um colega sobre a próxima ação em uma situação complexa. Quando estamos atentos, podemos nos afastar da tela do filme e olhar para o sistema e perceber qual é o empecilho.

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