Os mercados de previsão se tornaram, em pouco mais de meia década, uma das categorias financeiras de maior crescimento nos Estados Unidos. O segmento movimentou mais de US$ 64 bilhões em 2025, com expansão superior a 400% em relação ao ano anterior, e tem como principal protagonista a Kalshi: bolsa fundada em 2018, sediada em Nova York, regulada pela CFTC sob a mesma classificação de Designated Contract Market que se aplica à Chicago Mercantile Exchange. Hoje avaliada em US$ 22 bilhões, a empresa opera uma categoria de bolsa cuja arquitetura é familiar para o investidor brasileiro, ainda que o ativo negociado seja inédito. Entre seus investidores estão Sequoia Capital, Charles Schwab e Henry Kravis.
Categoria financeira, não jogo
A distinção em relação a uma casa de aposta esportiva é estrutural. Em uma aposta, a casa é a contraparte: define as odds, lucra com a derrota do apostador, e a relação é assimétrica por desenho. Em um mercado de previsão, a bolsa não toma posição em momento algum. Os próprios usuários se enfrentam entre si, e a liquidez é provida pelos participantes do mercado e por market makers institucionais, como a Susquehanna, uma das maiores firmas de trading proprietário do mundo. O resultado de cada contrato é definido por dados objetivos divulgados por fontes oficiais, como BLS, Federal Reserve, IBGE ou bancos centrais.
A arquitetura é a mesma da NYSE, da Nasdaq, da B3 ou da CME: bolsa neutra, liquidez peer-to-peer, contratos padronizados liquidados por dado objetivo. É por isso que a CFTC, o regulador federal americano dos mercados de derivativos e commodities, classificou a Kalshi como bolsa, e não como casa de aposta. Em 2024, a empresa venceu uma ação judicial contra a própria CFTC, consolidando o reconhecimento dos contratos de eventos como instrumentos financeiros legítimos sob a lei federal americana.
O Federal Reserve começou a estudar a Kalshi
Em fevereiro de 2026, três economistas publicaram um artigo na série Finance and Economics Discussion Series do Board of Governors do Federal Reserve com um título sintomático: Kalshi and the Rise of Macro Markets. Os autores, Anthony Diercks (Federal Reserve Board), Jared Katz (Northwestern University) e Jonathan Wright (Johns Hopkins e NBER), avaliam de forma sistemática se os preços negociados na plataforma servem como bom indicador de expectativas macroeconômicas em tempo real. A conclusão é direta: sim, e em vários casos, melhor do que as ferramentas tradicionais.
Em uma das tabelas centrais do estudo, a mediana e a moda dos preços da Kalshi para o dia anterior a cada reunião do FOMC mostram um histórico perfeito de previsão da decisão do Fed, com resultado estatisticamente superior aos contratos futuros de juros (fed funds futures), instrumento padrão usado por Wall Street há décadas. Para inflação ao consumidor (headline CPI), a Kalshi também supera, em termos estatísticos, o consenso da Bloomberg. Os pesquisadores anunciam, no próprio paper, a intenção de disponibilizar a base distribucional da Kalshi em um portal público (EconFutures.com) para uso por pesquisadores e formuladores de política monetária.
A imprensa de negócios adotou o ticker
Os preços da Kalshi se tornaram referência editorial nos Estados Unidos. Em coberturas macroeconômicas e de política monetária, a Bloomberg passou a citar regularmente os contratos da plataforma como indicador ao vivo de expectativas de mercado. A CNN integrou os preços da Kalshi em seus segmentos de cobertura macro, exibindo as probabilidades implícitas em tempo real em segmentos sobre decisões do Fed e indicadores econômicos. A Fox News adotou o mesmo modelo. Wall Street Journal, Financial Times, CNBC e The Economist passaram a citar regularmente os contratos da Kalshi como benchmark de expectativas em suas análises macroeconômicas. Em setembro de 2025, o volume agregado de contratos sobre a próxima decisão do FOMC se aproximou de US$ 100 milhões, sinal de que a liquidez tem acompanhado o reconhecimento institucional.
A empresa por trás dos números
A Kalshi foi fundada em 2018 por Luana Lopes Lara e Tarek Mansour, ambos egressos do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Luana Lopes Lara, brasileira, cresceu em São Paulo, foi bailarina do Bolshoi antes de se formar em matemática aplicada pelo MIT, e atua hoje como COO da Kalshi. Tarek Mansour passou pelo desk de derivativos do Goldman Sachs antes de fundar a empresa. A companhia foi a primeira plataforma a obter licença federal nos Estados Unidos para operar uma bolsa de mercados de previsão, sob designação direta da CFTC. O acesso ao varejo americano é feito por meio de plataformas como Robinhood e Webull. A exposição máxima por mercado chega a US$ 7 milhões, parâmetro institucional.
A bolsa opera hoje contratos sobre CPI, decisões do FOMC, payroll, taxa de desemprego, PIB, taxa básica de juros mês a mês, probabilidade de recessão americana, e centenas de outros indicadores macroeconômicos, além de eventos públicos.
O Brasil no mapa global
A Kalshi não opera no Brasil. A regulamentação dos mercados de previsão ainda é tema em discussão no cenário brasileiro, dado que se trata de uma categoria financeira relativamente nova no cenário global, com classificação regulatória ainda se desenhando em diferentes jurisdições. Por ora, investidores brasileiros com interesse em mercados de previsão podem acessar a Kalshi por meio de corretoras internacionais como a XP International, dentro de estrutura regulada offshore, da mesma forma como historicamente acessam ações listadas na NYSE ou na Nasdaq.
O que vem a seguir
A categoria é jovem. Há cinco anos, o volume global anual de mercados de previsão era inferior a US$ 1 bilhão. Em 2025, superou US$ 64 bilhões. O crescimento de 400% ano a ano sugere que o setor ainda está nos estágios iniciais de adoção institucional, com paralelos no desenvolvimento do mercado de derivativos nos anos 70 ou do mercado de ETFs no início dos anos 2000: novo, complexo, gradualmente integrado ao sistema financeiro principal.
Para o investidor brasileiro, o aprendizado vale o tempo. Em mercados desenvolvidos, contratos sobre inflação, decisões de bancos centrais e indicadores macro têm sido usados como instrumentos de hedge e de descoberta de preço por instituições, gestoras e pesquisadores. A trajetória global da categoria, do underground da pesquisa acadêmica para os papers do Federal Reserve, sugere que o reconhecimento institucional avança em ritmo mais rápido do que se previa há poucos anos.
*Infomercial é de responsabilidade exclusiva dos autores.