1. Início
  2. /
  3. Forbes Money
  4. /
  5. O Risco Que Levou o Citi a Rebaixar o Nubank
Forbes Money

O Risco Que Levou o Citi a Rebaixar o Nubank

Banco rebaixou a fintech para neutro, cortou o preço-alvo para US$ 13 e afirmou que a expansão do consignado privado pode pressionar instituições mais expostas a cartão de crédito e empréstimos pessoais

5 min

O Citi rebaixou a recomendação das ações da Nu Holdings, controladora do Nubank, de compra para neutro e reduziu o preço-alvo dos papéis de US$ 18 para US$ 13. O banco também cortou suas projeções de lucro para os próximos anos e afirmou que a fintech enfrenta um desafio crescente para manter o ritmo de expansão da carteira de crédito sem pressionar rentabilidade e qualidade dos ativos.

“Nubank parece pouco propenso a desacelerar sua trajetória de crescimento sem sacrificar monetização e rentabilidade”, escreveram os analistas no relatório.

O Citi afirma que cerca de 60% do ARPAC (receita média por cliente ativo) da companhia já está ligado ao crédito. Segundo o banco, essa dependência ajuda a explicar a forte relação entre crescimento da carteira e custo de risco.

De acordo com os cálculos dos analistas, existe uma correlação próxima de 90% entre a expansão da carteira de crédito do Nubank e o aumento do custo de risco da operação.

O Risco Que o Citi Considera Subestimado

A principal novidade da tese apresentada pelo Citi está relacionada ao avanço do crédito consignado privado no Brasil.

Segundo o banco, cartões de crédito e empréstimos pessoais acabam ficando em posição secundária em relação ao consignado privado, modalidade em que as parcelas são descontadas diretamente da folha salarial.

“Exposições a cartão de crédito e empréstimos pessoais são efetivamente subordinadas ao crédito consignado privado”, afirma o relatório.

Na avaliação dos analistas, a expansão dessa modalidade pode reduzir a capacidade de pagamento dos consumidores para outras dívidas, concentrando o estresse financeiro justamente em produtos sem garantia.

O Citi considera que esse risco ainda é pouco refletido nas avaliações de mercado e tende a afetar principalmente instituições mais expostas a cartões de crédito, empréstimos pessoais e clientes de menor renda.

Carteira concentrada em crédito sem garantia

O relatório destaca que aproximadamente 96% da carteira de crédito do Nubank está concentrada em modalidades sem garantia.

Desse total, cerca de 82% correspondem a cartões de crédito e 14% a empréstimos pessoais.

Segundo o Citi, a carteira de crédito da companhia cresceu aproximadamente 60% nos últimos 12 meses, enquanto o banco ainda tem participação limitada no mercado de crédito consignado privado.

Os analistas observam que cerca de 9% dos clientes de crédito do Nubank possuem exposição ao consignado. Essa participação, porém, tende a aumentar devido à ampla presença nacional da instituição e à sua base de clientes.

Corte nas projeções

O Citi reduziu suas estimativas de lucro em 9% para 2026 e em 15% para 2027.

As novas projeções apontam para lucro líquido de US$ 3,7 bilhões (R$ 18,5 bilhões) em 2026 e de US$ 4,4 bilhões (R$ 22 bilhões) em 2027.

O banco também reduziu sua estimativa de retorno sustentável sobre patrimônio líquido (ROE) de 30% para 25%, citando menor capacidade de geração de resultados, perspectiva de crescimento mais desafiadora e incertezas relacionadas à expansão internacional.

Com isso, o Citi cortou o preço-alvo das ações para US$ 13 e afirmou que vê espaço limitado para uma nova reprecificação relevante dos papéis.

O rebaixamento do Citi ocorre poucas semanas após o Nubank anunciar a saída de Guilherme Lago da diretoria financeira.

O executivo será substituído por Rob Livingston, ex-CFO da operação da Visa na América do Norte. A mudança levou as ações da companhia a recuarem mais de 10% em Nova York no início de junho e motivou o Bank of America a rebaixar sua recomendação para underperform.

Na ocasião, o BofA afirmou que a troca ampliava as incertezas sobre estratégia e execução em um momento em que investidores já acompanhavam com atenção a evolução da qualidade dos ativos e dos planos de expansão internacional da fintech.

O que o Nubank havia sinalizado

Na divulgação dos resultados do primeiro trimestre, realizada em maio, a administração do Nubank afirmou que o aumento das provisões não representava deterioração da carteira de crédito.

O CEO David Vélez disse que a alta das provisões refletia sazonalidade, crescimento da carteira e mudanças na composição dos produtos.

“O aumento das provisões reflete nossa capacidade de continuar ganhando participação de mercado com uma economia unitária resiliente e não sugere sinais de deterioração da qualidade dos ativos da carteira”, afirmou.

Na mesma conferência, o CFO Guilherme Lago afirmou que 86% do aumento das provisões do trimestre estava relacionado ao crescimento da carteira e a fatores sazonais.

A carteira de crédito encerrou março em US$ 37,2 bilhões (R$ 186 bilhões), alta de 40% em relação ao mesmo período do ano anterior. Os empréstimos sem garantia cresceram 53% e atingiram US$ 10 bilhões (R$ 50 bilhões).

Vélez também afirmou que o Nubank vinha adotando uma postura mais cautelosa no consignado privado. Segundo ele, a companhia identificava índices de inadimplência inicial entre 10% e 15% em algumas operações da modalidade.

A preocupação com a qualidade do crédito ganhou força entre analistas e investidores ao longo deste ano. Os resultados do primeiro trimestre dos grandes bancos brasileiros indicaram aumento das provisões para perdas e avanço da inadimplência. Banco do Brasil, Caixa, Santander, Itaú e Bradesco ampliaram as reservas para possíveis calotes em um cenário de juros elevados e maior pressão sobre o orçamento das famílias. Nesse ambiente, a evolução da qualidade das carteiras de crédito passou a ocupar papel central nas análises do setor financeiro.

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.