Os grandes bancos brasileiros atravessaram um dos períodos mais rentáveis de sua história recente. A combinação entre crescimento do crédito, desemprego baixo, expansão do consumo e spreads elevados sustentou balanços robustos mesmo em meio à volatilidade política e fiscal do país. Agora, porém, os números do primeiro trimestre de 2026 sugerem que o ciclo virou. Os resultados de Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Santander Brasil, Itaú Unibanco, Bradesco e até da fintech Nubank revelaram um ponto em comum: o forte aumento das provisões para perdas com crédito, espécie de colchão financeiro que os bancos criam para se proteger de possíveis calotes futuros.
Embora o aumento das provisões tenha sido disseminado pelo sistema financeiro, alguns bancos sentiram a deterioração de forma mais intensa. Juntos, Banco do Brasil, Santander, Itaú e Bradesco somaram 44,8 bilhões em despesas com provisões no trimestre, alta de 33% em relação ao ano anterior.
Isoladamente, o caso mais emblemático foi o do Banco do Brasil. A instituição elevou as provisões em 46% em doze meses, para R$ 16,8 bilhões, movimento que contribuiu para uma queda de 54% no lucro líquido ajustado do trimestre, para R$ 3,4 bilhões. O custo do crédito disparou 85,8% no período, alcançando R$ 18,86 bilhões, pressionado sobretudo pela deterioração da carteira do agronegócio.
Na operação rural, historicamente uma das fortalezas do banco, a inadimplência acima de 90 dias saltou para 6,22%, avanço de 3,5 pontos percentuais em relação ao ano anterior.
Em outras instituições, a pressão também aumentou. A Caixa Econômica Federal ampliou provisões em 225% em doze meses, enquanto o Nubank reforçou reservas diante da expansão acelerada da carteira em modalidades de maior risco.
Parte desse movimento reflete a entrada em vigor da Resolução 4.966 do Conselho Monetário Nacional, que alterou a lógica de provisionamento dos bancos ao exigir reconhecimento antecipado de perdas esperadas. “A resolução trouxe uma mudança importante porque o banco passa a separar provisões conforme a perda esperada, e não mais apenas pela perda ocorrida”, afirma Rafael Minotto, analista da Ciano Investimentos. “Esse movimento é fruto de sistemas inteligentes de previsão e também reflete a situação das famílias brasileiras, que apresentam níveis recordes de endividamento.”
Por outro lado, o avanço das provisões também revela algo mais profundo: a deterioração gradual do ciclo de crédito brasileiro após um longo período de juros elevados, aumento do endividamento das famílias e pressão crescente sobre empresas e produtores rurais.
Os números da inadimplência sugerem que a pressão deixou de ser pontual. Segundo dados do Banco Central, a inadimplência total do crédito alcançou 4,3% em março, contra 3,3% um ano antes. Já os levantamentos da Serasa mostram um país em crescente saturação financeira: 81,7 milhões de brasileiros convivem hoje com restrições no CPF. Quase metade da população adulta possui algum tipo de dívida em atraso. O dado talvez mais inquietante seja estrutural: 42% dos inadimplentes atuais já estavam negativados há dez anos. A inadimplência deixou de ser apenas um fenômeno conjuntural para assumir contornos permanentes em parte relevante da população.
Percepção de risco
O movimento, embora técnico, costuma funcionar como um dos sinais mais sensíveis de deterioração econômica dentro do sistema financeiro. Para os bancos, isso altera profundamente a percepção de risco. “O que aconteceu foi um aumento da percepção de risco por parte dos bancos. O perfil de crédito se deteriorou”, diz Saulo Abouchedid, professor de macroeconomia da FIA. “Muitas famílias passaram a refinanciar dívidas em condições mais caras, e isso levou as instituições a reforçarem suas provisões.”
A deterioração, no entanto, não ocorre de forma homogênea. Há hoje uma divisão clara dentro do sistema financeiro brasileiro. De um lado, bancos mais expostos a segmentos vulneráveis – especialmente agronegócio, pequenas empresas e consumidores de menor renda. De outro, instituições que adotaram postura mais conservadora nos últimos anos e tentam atravessar o ciclo com crescimento mais seletivo da carteira.
No Santander Brasil, a inadimplência acima de 90 dias avançou para 3,3% da carteira, o maior aumento entre os grandes bancos privados. O CEO do banco, Mario Leão, afirmou que a instituição acompanha com maior cautela três áreas específicas: pequenas empresas, agronegócio e operações de cartão de crédito. Segundo ele, o Santander vem reduzindo deliberadamente o ritmo de expansão da carteira há pelo menos um ano e meio, numa estratégia de redução de risco. “Estamos crescendo menos de forma intencional. Isso reduz o efeito de diluição da carteira sobre os indicadores de inadimplência e custo de crédito, mas faz parte da nossa estratégia de de-risking”, afirmou.
O executivo reconheceu que o cenário continua pressionado, especialmente para famílias de menor renda, pequenas empresas e produtores rurais, mas disse que o banco não espera deterioração material adicional do custo de crédito neste ano. “O agro ainda está longe de uma normalização completa, e pequenas empresas seguem exigindo cautela. Mas esperamos manter o custo de crédito relativamente estável ao longo de 2026”, disse Leão. Ele afirmou que os efeitos mais relevantes da estratégia de redução de risco devem aparecer nos próximos anos. “Quando olhamos para 2027 e 2028, vemos um banco estruturalmente menos arriscado, com uma carteira mais equilibrada e tendência de redução mais consistente do custo de crédito.”
Já o Bradesco registrou inadimplência de 4,2% no trimestre, enquanto as despesas com provisões cresceram 26,5% em relação ao mesmo período do ano passado, alcançando R$ 9,66 bilhões. No atacado, as provisões quadruplicaram em doze meses.
“É importante separar os bancos em dois grupos”, afirma Antonio Martins, analista da Kinea. “Há os que não enfrentaram grandes problemas de crédito e os que tiveram pressão maior. No caso de Itaú, Bradesco e Santander, a piora veio mais de casos específicos envolvendo grandes empresas. Já Banco do Brasil e Caixa possuem maior exposição a segmentos mais sensíveis, como agronegócio e clientes de renda mais baixa.”
No caso do Banco do Brasil, a deterioração do agro começou a contaminar também parte da carteira de varejo. Segundo Geovanne Tobias, diretor financeiro do banco, mais de 40% do reforço de provisões em pessoa física veio de operações de cartão de crédito, parte delas ligadas a produtores rurais. “A dinâmica da carteira de pessoas físicas já traz essa antecipação da deterioração, principalmente na linha de cartão de crédito e reflexo dessas operações feitas com os mesmos produtores rurais”, afirmou. Segundo Tobias, o banco passou a antecipar perdas que antes só apareceriam mais adiante nos balanços. “As pontualizações vieram abaixo do esperado. Isso não significa inadimplência imediata, mas indica deterioração no comportamento de pagamento e maior necessidade de esforço para recuperação dessas operações”.
O executivo afirmou ainda que a escalada do conflito no Oriente Médio aumentou as preocupações sobre custos da próxima safra agrícola. “O prolongamento do conflito aumenta incertezas sobre fertilizantes e insumos. Já incorporamos esse cenário mais adverso no provisionamento atual”, afirmou Tobias.
Há também um efeito silencioso vindo do pós-pandemia. Muitas linhas de crédito subsidiadas ou garantidas por fundos públicos – como FGI e FGO – começaram a sair do período de carência justamente agora. Durante os anos de liquidez abundante, essas carteiras cresceram rapidamente. Com o vencimento das primeiras parcelas, a inadimplência começou a emergir de forma mais evidente, especialmente entre pequenas e médias empresas.
Segundo Leandro Vilain, presidente da Associação Brasileira dos Bancos (ABBC), o sistema financeiro atravessa um momento de ajuste natural do ciclo de crédito. “Os modelos passaram a olhar para perdas esperadas. Se o mercado enxerga um período prolongado de desaceleração e maior risco, naturalmente as provisões aumentam”, afirma.
O resultado é um sistema financeiro mais cauteloso.
Em ciclos anteriores, os bancos brasileiros frequentemente reagiam ao aumento da inadimplência elevando spreads e expandindo linhas mais rentáveis para compensar perdas. Desta vez, o foco parece ser preservação de capital, qualidade das carteiras e redução de risco.
Segundo especialistas, esse cenário deve resultar em maior cautela e desaceleração das concessões de crédito nos próximos meses. Isso tende a produzir um efeito macroeconômico importante: desaceleração do crédito justamente quando a economia já perde tração.
A ironia é que o sistema bancário brasileiro talvez esteja mais sólido exatamente porque ficou mais conservador. Ao antecipar perdas esperadas, os bancos absorvem parte do choque antes que ele se transforme em uma crise sistêmica. O aumento das provisões, nesse sentido, não representa necessariamente fragilidade bancária. Em certa medida, é justamente o oposto: um mecanismo de defesa.
Ainda assim, a proteção tem custo. Provisões maiores corroem lucro, reduzem retorno sobre patrimônio e pressionam as ações do setor. O Banco do Brasil viu seu lucro cair mais de 50% no trimestre. A Caixa teve retração de 34%. Mesmo bancos privados passaram a enfrentar questionamentos crescentes do mercado sobre a duração do ciclo de inadimplência.
“O principal indicador a ser monitorado continua sendo a inadimplência”, afirma Abouchedid, da FIA. “Se ela continuar avançando, os bancos tendem a seguir mais conservadores na concessão de crédito.”
Historicamente, os efeitos da política monetária aparecem com defasagem. E é justamente essa defasagem que começa a emergir nos balanços bancários de 2026. O aperto monetário iniciado há muitos trimestres finalmente alcançou famílias, empresas e bancos simultaneamente.
O sistema financeiro brasileiro continua longe de uma crise. Os índices de capital permanecem robustos, a regulação é considerada uma das mais rígidas entre emergentes e os grandes bancos seguem altamente rentáveis em termos internacionais. Mas os resultados recentes revelam algo mais relevante: o custo do dinheiro alto por tempo prolongado começa a se infiltrar lentamente nas engrenagens do crédito brasileiro.
E quando os bancos passam a reservar bilhões para se proteger do futuro, normalmente é porque acreditam que o futuro ficou mais arriscado.