A história secreta do primeiro coronavírus

Cientistas e estudiosos tiveram dificuldade de identificar todos os tipos de coronavírus desde sua descoberta.

Alex Knapp
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GettyImages/ Thana Prasongsin
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As pesquisas para identificar os diferentes tipos de vírus são um assunto em alta com a atual crise da Covid-19

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Em 2016, uma professora de 45 anos de idade, em Atenas, na Grécia, chegou à sala de emergência do Hospital Hygeia. Não fumante, sem grandes problemas de saúde, apresentou sintomas incomuns: febre acima de 39,5ºC, tosse seca e dor de cabeça intensa. Quando o médico da emergência a examinou, notou-se que a parte inferior do pulmão esquerdo estava tremendo quando ela respirava, e uma radiografia de tórax confirmou uma anormalidade.

Pensando que poderia ser um caso de pneumonia bacteriana, os médicos a trataram com antibióticos. Nos dois dias seguintes, porém, a condição da mulher se deteriorou e o teste laboratorial de pneumonia voltou negativo. Quando sua respiração começou a falhar, ela recebeu oxigênio e um novo conjunto de medicamentos. Enquanto isso, foi testada para uma ampla variedade de possíveis doenças, incluindo várias cepas da gripe, as bactérias que causam a doença dos legionários, tosses e outras doenças respiratórias graves. Tudo voltou negativo, assim como os testes para SARS e MERS.

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Na verdade, apenas um teste deu positivo, mas foi um resultado tão surpreendente que os médicos o fizeram novamente. O resultado foi o mesmo: a paciente estava sofrendo de uma infecção familiar, mas incompreensível, conhecida como 229E, o primeiro coronavírus humano já descoberto.

A gravidade da condição da professora escolar foi uma surpresa para os pesquisadores que no início dos anos 1960 descobriram o 229E. Isso porque eles estavam procurando os vírus responsáveis ​​pelo resfriado comum. Em meados do século 20, os cientistas haviam elaborado técnicas para isolar alguns vírus, mas as pesquisas deixaram muitos deles sem explicação: cerca de 35% das pessoas com resfriados tinham vírus que os cientistas não conseguiram identificar.

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Em 1965, Dorothy Hamre, pesquisadora da Universidade de Chicago, tomou esse ponto cego médico como um desafio. Ao estudar as culturas de tecidos de estudantes com resfriados, descobriu um novo tipo de vírus, que ficou conhecido como 229E.

Ao mesmo tempo, um grupo de pesquisadores na Inglaterra, liderado por David Tyrrell, estava aprendendo mais sobre o resfriado comum. Eles também isolaram o que parecia ser um novo tipo de vírus na cultura de tecidos. Quando a equipe de Tyrrell o examinou sob um microscópio eletrônico, descobriu que se assemelhava a um vírus que havia sido isolado na década de 1930 em galinhas com bronquite. Era um coronavírus: o primeiro comprovado a infectar humanos.

“Estes sempre foram vírus muito importantes em animais”, diz Ken McIntosh, pesquisador da Harvard Medical School. “Existia um vírus chamado vírus da bronquite aviária em galinhas. Era muito importante comercialmente e as vacinas estavam disponíveis.”

Há um aspecto fascinante ao se olhar na linha do tempo nessa pesquisa inicial. Enquanto hoje são realizados estudos biológicos com procedimentos rigorosos de contenção e segurança, as coisas eram um pouco mais livres há meio século. Um relato de jornal contemporâneo das descobertas de Tyrrell observou como sua equipe garantiu que o vírus que eles isolaram não estava presente nas culturas de órgãos em que o cultivavam: “Eles colocaram amostras do meio no nariz de 113 voluntários. Apenas um resfriado. O resultado foi suficiente.”

Na época das descobertas de Hamre e Tyrrell, McIntosh fazia parte de uma equipe do National Institutes of Health que também estava analisando as causas do resfriado comum. (“Independentemente”, acrescenta ele, pois essas equipes ainda não haviam publicado nenhuma pesquisa.) A equipe de McIntosh descobriu o que agora é conhecido como OC43, outro coronavírus humano comum que ainda hoje causa infecções respiratórias. Em 1968, o termo “coronavírus” foi cunhado, com base em como, sob um microscópio eletrônico, sua superfície em forma de coroa se assemelhava à camada externa do Sol, chamada corona.

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A descoberta de novos coronavírus, como o 229E e o OC43, gerou grande interesse da mídia na época, mas um artigo proclamou com ousadia que “a ciência triplicou sua chance de eventualmente dominar o resfriado comum” –McIntosh lembra que a comunidade científica não se concentrou ativamente na investigação de coronavírus até o surgimento da SARS em 2003. Como o 229E e o OC43 causavam doenças relativamente leves nas pessoas, os médicos podiam tratá-los como resfriados causados ​​por outros vírus: com antitérmicos, supressores de tosse e uma tigela ocasional de canja de galinha.

Depois veio o surto de SARS de 2003, que começou com um coronavírus na China e finalmente se espalhou para 29 países. Embora a doença tenha infectado apenas 8.096 pessoas, houve 774 mortes atribuídas a ela, uma taxa de mortalidade chocantemente alta que levou os pesquisadores a dar uma segunda olhada na classe de vírus. “Quando surgiu a SARS, o mundo dos coronavírus mudou repentinamente e ficou muito maior e muito mais técnico”, lembra McIntosh.

Desde então, foram descobertos mais dois coronavírus que também causam resfriados: NL63 e HKU1. E foi só em 2012, quase 50 anos após a sua descoberta, que o genoma completo do 229E foi finalmente sequenciado. Enquanto isso, vários relatos de casos foram publicados, mostrando que o 229E poderia causar sintomas respiratórios graves em pacientes com sintomas imunológicos comprometidos, embora para a maioria das pessoas saudáveis ​​o impacto seja limitado a um resfriado.

Apesar da intensa pesquisa realizada sobre coronavírus desde a SARS, ainda não está totalmente claro por que três coronavírus (SARS-CoV-1, MERS-CoV e SARS-CoV-2, a fonte da pandemia da Covid-19) levaram a sintomas mais graves e maior taxa de mortalidade, enquanto os outros quatro coronavírus humanos conhecidos permanecem muito mais leves.

Uma coisa que todos eles têm em comum: morcegos. Todos os coronavírus conhecidos que infectam humanos parecem se originar em morcegos. Os vírus geralmente se espalham para outro animal antes de finalmente chegar aos seres humanos. Os “mercados úmidos” e as barracas de comida ao ar livre são os criadouros perfeitos para várias espécies. Com o OC43, por exemplo, ele foi transmitido aos seres humanos por gado e pode estar circulando desde o século 18. Enquanto MERS-CoV, por outro lado, foi transferido para seres humanos a partir de camelos. Outros animais também são suspeitos de fazer o papel de intermediários de outros coronavírus humanos, incluindo o SARS-CoV-2.

A professora na Grécia acabou se recuperando de sua doença e felizmente nunca precisou de respiração mecânica. Exames de seus pulmões realizados dois anos após sua primeira passagem pelo pronto-socorro mostraram que eles haviam se recuperado e estavam saudáveis. Ainda assim, essa resposta severa ao que a maioria das pessoas considera “apenas um resfriado” destaca um dos aspectos mais difíceis de lidar com os coronavírus: eles produzem uma vasta gama de sintomas com uma grande quantidade de impactos na saúde em toda a população.

“Se você der uma olhada no espectro de doenças no surto agora”, diz Wayne Marasco, pesquisador do Instituto de Câncer Dana Farber em Boston, que estudou SARS, MERS e Covid-19, “existem pessoas que são assintomáticas e pessoas que estão morrendo”.

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McIntosh suspeita que os coronavírus continuarão a deixar os pesquisadores perplexos. Primeiro, porque são grandes e complexos, e segundo porque podem mudar com relativa facilidade em nível genético. Ele observa que esses vírus também podem se recombinar com bastante facilidade na mesma célula e que essas mutações são provavelmente a causa da origem do coronavírus que causa a SARS e o novo coronavírus que causou a pandemia atual.

“Os coronavírus têm o maior genoma de RNA de qualquer um dos vírus animais”, diz McIntosh. “E possuem muitos segredos.”

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