A quase três horas da capital de Ruanda, fica Musanze, o distrito mais montanhoso do país africano, e onde se localiza grande parte do Parque Nacional dos Vulcões. Conhecida por ser uma cidade prática e vibrante, Musanze oferece ampla variedade de restaurantes, acesso confiável a caixas eletrônicos, vida noturna ativa, mercados movimentados e produção artesanal.
Foi ali que Karen Sherman fundou a Kari Vodka, uma bebida artesanal premium de batata feita a partir de “batatas rejeitadas”, adquiridas de cooperativas locais de agricultores.
Em 2013, após trabalhar na organização Women for Women International, ela retornou aos Estados Unidos, seu país de origem. A Women for Women é uma organização que ajuda mulheres sobreviventes de guerra a reconstruírem suas vidas.
Mas pouco tempo depois, Sherman voltou a Ruanda para integrar o Akilah Institute, a primeira e única faculdade exclusivamente feminina do país.
Ela se inspirou nas formandas de hotelaria da instituição que atuavam em hotéis, lodges e restaurantes por todo o país, todas empenhadas em construir uma vida melhor para si e para suas famílias.
“Sempre pensei nelas como as filhas simbólicas da geração da Women for Women, as mulheres que sacrificaram tudo para que suas filhas pudessem ter educação e uma vida melhor. Isso foi extremamente marcante para mim”, afirma Sherman. “E é fascinante ver os negócios que elas estão construindo.”
Desenvolvimento social para o empreendedorismo
Motivada por essa experiência, Sherman decidiu que queria migrar do desenvolvimento social para o empreendedorismo.
“Passei anos ensinando mulheres sobre desenvolvimento econômico e empreendedorismo, e senti que finalmente era a minha vez de colocar em prática o que defendia e construir algo próprio. Para ser honesta, estava cansada de trabalhar para outras pessoas. Queria criar o meu próprio negócio.”
Durante suas visitas a Musanze, Sherman percebeu que muitos dos belos lodges da região serviam apenas bebidas alcoólicas importadas de alto padrão, o que mostrava uma lacuna na oferta de produtos locais de qualidade.
Diversificação além do turismo
Ela também identificou a necessidade de diversificação além do turismo de gorilas, observando que muitos visitantes buscavam mais opções de atividades após as trilhas para observação dos animais.
“Essa ideia atendia a vários pilares centrais da estratégia de desenvolvimento de Ruanda: promover produtos ‘Made in Rwanda’, criar bens de alta qualidade para os mercados local e de exportação, fortalecer a cadeia da batata, estimular a substituição de importações e avançar no agroturismo. Como operamos do campo à mesa e da lavoura à garrafa, pegamos essas batatas rejeitadas e as transformamos em um produto premium. Tudo o que usamos vem diretamente de Musanze.”
A vodka de batata

Tradicionalmente, a vodka é produzida a partir da fermentação de grãos como trigo, centeio ou milho. No entanto, a ideia de utilizar batatas descartadas para criar um produto com identidade local atraiu Sherman.
O mercado de vodka em Ruanda é considerado pequeno, com receita projetada de cerca de US$ 213 mil em 2025 (R$ 1,07 milhão na cotação atual) e volume total de produção estimado em 24.510 litros.
Dados da Statista indicam que a maior parte dessa receita vem do consumo doméstico, cerca de US$ 209,4 mil (R$ 1,05 milhão), enquanto o consumo fora de casa, em bares e restaurantes, é significativamente menor, em torno de US$ 3.620 (R$ 18,1 mil). O mercado doméstico deve crescer a uma taxa anual de 6,65%.
“Queria criar uma vodka para ser apreciada pura, como fazem nos países do cinturão da vodka: Rússia, Ucrânia, Cáucaso, Ásia Central, Polônia. Essa era a minha visão: algo que pudesse competir com esses países”, explica Sherman.
“Fiz uma análise de mercado original em 2014 e 2015 para esse negócio, mas as tendências ainda não existiam. A avaliação mostrava que eu teria que começar exportando imediatamente para torná-lo viável, o que não era a minha intenção. Eu queria criar algo primeiro para o mercado local.”
Com isso, Sherman decidiu deixar a ideia em espera por alguns anos. “Quando revisitei o mercado em 2021, todas as tendências estavam em alta. Havia uma classe média crescente em Ruanda, e o país havia se tornado um polo de turismo, não apenas de gorilas, mas também de conferências, exposições e eventos esportivos. Pareceu o momento certo.”
Batizada em referência ao pico mais alto de Ruanda, a Kari Vodka recebeu medalha de ouro no World Vodka Awards 2025, um reconhecimento que Sherman não esperava, por ser uma estreante no mercado.
“Queria um retorno das pessoas, sobre a vodka, além daquelas que já estavam degustando e comprando, não apenas de quem gosta de você, mas também de quem não te conhece. Queria um teste cego de verdade, em que alguém provasse e depois dissesse sinceramente o que achou”, afirma.
“Adoro quando as pessoas dizem: ‘Nunca provei vodka de batata’. Apenas cerca de 3% das vodkas no mundo são feitas de batata, então é algo que a maioria nunca experimentou. Gosto da ideia de apresentar um produto completamente novo, um novo perfil de sabor, e ver as pessoas se apaixonarem por ele. O melhor é que metade das pessoas que visitam nossa destilaria são ruandesas.”