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“Ser Reconhecido Também É Saúde”, Diz CHRO do Einstein

Miriam Branco relembra como foi da matemática à área de pessoas, a missão de acolher a linha de frente na pandemia e o foco na formação de novas lideranças

4 min

Quando o Einstein atravessou a maior crise sanitária da história recente, a área de recursos humanos deixou de ser bastidor para assumir protagonismo. À frente dessa virada estava Miriam Branco, diretora executiva de pessoas, uma matemática de formação que costuma resumir sua entrada na área com bom humor: “Eu brinco que fui parar no RH de castigo.”

A trajetória da executiva soma mais de quatro décadas. Começou nos anos 1980, no Grupo Pão de Açúcar. Ainda no primeiro ano da faculdade, Miriam participou de um processo seletivo para trainee. Depois de várias etapas, acabou reprovada na entrevista final com a psicóloga.

Inconformado com a reprovação, um gestor pediu que ela tivesse uma nova chance. O diretor de RH quis conhecê-la pessoalmente. A conversa terminou com um convite inesperado: trabalhar na área de remuneração. “Comecei em recursos humanos e de lá não saí mais. Me encantei”, afirma.

Uma matemática na área de pessoas

A matemática nunca deixou de acompanhar sua trajetória. Em um Brasil de hiperinflação, Miriam criou um programa de treinamento para ajudar os gerentes do Pão de Açúcar a entender os resultados financeiros das lojas. “A inflação era tão alta que precisava entender matemática para acompanhar os números”, diz.

No Einstein, onde chegou em 1992, o conhecimento técnico voltou a abrir portas. O hospital começava a importar ferramentas de qualidade da indústria para a saúde. “Achei aquilo muito inovador”, diz. Conceitos como histograma e pareto, pouco comuns no ambiente hospitalar da época, passaram a fazer parte dos treinamentos conduzidos por ela.

A instituição tinha cerca de 2 mil funcionários quando Miriam entrou. Hoje, são mais de 34 mil. Ela acompanhou a transformação do RH de um departamento operacional para uma área estratégica. “Antes era um departamento pessoal que fazia contratação e desligamento. Não tinha uma visão estratégica de recursos humanos.”

Entender o significado do que você faz, ter prazer naquilo que faz e ser reconhecido também é saúde.

Miriam Branco

O maior teste veio durante a pandemia. Em uma reunião de crise, Miriam ouviu que o hospital precisaria contratar 1.500 profissionais. Perguntou para quando. “A resposta foi: ‘para ontem’.”

A operação exigiu mudanças radicais. Processos seletivos migraram para o digital em 36 horas. Entrevistas passaram a ser feitas à distância. Áreas que atuavam separadas precisaram trabalhar juntas. “Nós tivemos que quebrar esses muros”, lembra.

O maior desafio era conseguir contratar naquele momento. “Eu pensava: como vou atrair pessoas para trabalhar numa linha de frente de uma batalha que a gente não sabia onde ia dar?”

Com escolas fechadas e 70% do quadro formado por mulheres, o hospital passou a absorver problemas familiares dos funcionários. O Einstein criou parceria com uma escola para acolher filhos de colaboradores. Também ofereceu estrutura para profissionais que precisavam se isolar da família durante os plantões.

A escuta virou prioridade. Antes dos turnos, grupos eram reunidos para falar sobre medo, exaustão e insegurança. Ela conta que o impacto emocional foi profundo. “Num primeiro momento, as pessoas tinham dificuldade até de andar uniformizadas na rua. Trabalhar na saúde era visto como um risco.”

Internamente, o hospital assumiu um compromisso: qualquer colaborador infectado seria tratado na própria instituição. “As pessoas sabiam que seriam cuidadas aqui”, afirma. O resultado virou um dos marcos da gestão. “Não tivemos perdas de profissionais na linha de frente.”

Olhar para diversidade

Passada a pandemia, Miriam lidera hoje a agenda de diversidade e inclusão. Um dos programas de maior destaque é o Sankofa, voltado ao desenvolvimento de lideranças negras. O termo, de origem da cultura Akan, de uma região do noroeste da África, tem o sentido de olhar para trás para buscar a sabedoria com que se pode ir para a frente (o símbolo é um pássaro mítico com a cabeça voltada para trás, segurando um ovo no bico). “Chamamos lideranças pretas da instituição para construir o programa”, diz Miriam. “Elas foram percebendo o quanto precisavam aceitar mais o próprio passado.” E hoje atuam como mentoras de outros profissionais.

Depois de mais de três décadas na área, Miriam ainda fala sobre trabalho em termos humanos. “Entender o significado do que você faz, ter prazer naquilo que faz e ser reconhecido também é saúde”, afirma.

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