Colocar Bradesco BBI, BTG Pactual, Galapagos Capital, Itaú Private Bank e XP em torno da mesma mesa não é tarefa simples. Geyze Diniz conseguiu fazer isso na noite de terça-feira, 1º de setembro, em São Paulo, durante o jantar anual de captação de recursos do Pacto Contra a Fome.
O lema escolhido para o encontro justificava a reunião dos rivais: “Contra a fome não há concorrência”. As cinco instituições, que disputam clientes e recursos no mercado financeiro, patrocinaram o evento, que reuniu empresários, CEOs e representantes do terceiro setor.
“Quando a gente se junta, pode tomar outra dimensão”, afirmou Geyze, em entrevista à Forbes antes do jantar. Para ela, o envolvimento das empresas não precisa terminar na assinatura de um cheque. “Se um banco apoia, ele pode chegar para os clientes e falar: ‘Eu apoio, vamos juntos’. E vai abrindo essa corrente.”
Economista, empresária e cofundadora do Pacto Contra a Fome, Geyze transformou a articulação entre o setor privado, governos e organizações sociais em seu principal trabalho nos últimos anos. O jantar é uma das ferramentas para financiar a organização, mas também funciona como tentativa de levar a fome para uma agenda empresarial na qual, segundo ela, o assunto ainda ocupa pouco espaço.
“A empresa pode ter uma causa de apoio ao esporte, por exemplo. Maravilha. Mas ela precisa olhar para a sua base e ver se existe alguma outra carência. Às vezes, oferece incentivo para academia, mas o funcionário não precisa de academia. Ele precisa comer.”
A provocação tem base. Segundo o Pacto, a partir de dados do IBGE, 16,6% dos lares cujo principal responsável tem emprego formal no setor privado convivem com algum grau de insegurança alimentar. Em 3,7% deles, a situação é grave.
O problema, portanto, não está restrito a quem se encontra fora do mercado de trabalho. Pode alcançar trabalhadores com carteira assinada, salário e benefícios corporativos.
“Por isso, o pedido é que as empresas olhem para dentro de casa, para a sua base, e entendam se existe algum funcionário com algum grau de insegurança alimentar”, diz Geyze. “A empresa pode fazer uma pesquisa e nem precisa compartilhar os dados. Ela fica com as informações, mas passa a ter um instrumento para atuar.”

A fome como custo para as empresas
O argumento usado por Geyze para convencer executivos combina impacto social e retorno econômico. Uma pessoa que não se alimenta adequadamente tende a adoecer mais, aprender menos e produzir abaixo de sua capacidade.
“Tem uma palavra da vez, que é produtividade. As empresas estão perdendo produtividade à medida que os seus funcionários têm algum grau de insegurança alimentar. É fato”, afirma.
O material apresentado no jantar cita uma estimativa atribuída à Organização Internacional do Trabalho segundo a qual a fome e a má alimentação podem reduzir a produtividade em até 20%. O documento também informa que cada R$ 1 aplicado em segurança alimentar pode gerar R$ 4 em retorno de produtividade.
Outra comparação apresentada no evento indica que as consequências da fome e da má nutrição custam o equivalente a 6,4% do Produto Interno Bruto, enquanto fechar a lacuna de renda necessária para o acesso a uma dieta saudável exigiria 1,5% do PIB.
Os percentuais têm origem em um estudo da FAO, da Cepal, do Programa Mundial de Alimentos e do IICA e representam médias dos países analisados na América Latina e no Caribe, não uma estimativa exclusiva para o Brasil. O cálculo de 1,5% também não inclui despesas administrativas e de implantação.
Ainda assim, Geyze usa a comparação para mostrar que os efeitos da insegurança alimentar se espalham por diferentes áreas da economia. “Se a gente visse o custo disso, só no SUS (Sistema Único de Saúde), depois o efeito sobre uma criança que não aprende, na segurança pública e na produtividade das empresas, perceberia que o custo de acabar com a fome é menor do que o custo que ela gera.”

“Por que a filantropia a gente faz pequeno?”
A cobrança de Geyze não se limita às empresas. Durante a conversa com a Forbes, ela direcionou o recado também às famílias de maior patrimônio do país.
“Tem muitas famílias que ficaram muito ricas e não têm nenhum lado filantrópico. Ainda está tudo muito voltado para o capital, para o acúmulo de capital”, afirma.
Na avaliação da empresária, a ausência de incentivos fiscais dificulta a expansão das doações, mas não explica sozinha o baixo envolvimento dos brasileiros mais ricos. O país dispõe de mecanismos de incentivo para áreas como cultura, esporte, saúde, infância e proteção ao idoso, mas não conta com uma lei federal específica para estimular doações destinadas diretamente ao combate à fome.
Geyze diz que também realiza doações como pessoa física, com recursos livres, e que, dependendo da operação e do estado, ainda pode haver incidência do Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação, o ITCMD.
“Sem sombra de dúvidas, precisamos de incentivo. É só olhar para outros países e ver como existe muito mais fôlego para isso”, afirma. “Mas o incentivo fiscal é uma das alavancas. Antes disso, tem um querer fazer.”
É nesse ponto que ela introduz o conceito de “policapitais”. A contribuição pode envolver dinheiro, mas também conexões, conhecimento, capacidade de mobilização ou a prestação de serviços por uma empresa.
“O mundo é capitalista, a gente depende de dinheiro. Mas existem outras formas de fazer filantropia. Às vezes, é uma conexão. A própria empresa pode prestar um serviço sem necessariamente colocar dinheiro.”
Na visão de Geyze, o problema está também na distância entre a ambição aplicada aos negócios e aquela dedicada às causas sociais.
“Os empresários querem fazer o negócio crescer. Querem fazer grande. E por que a filantropia a gente faz pequeno?”, questiona. “O tamanho tinha que ser do tamanho do problema.”
Embora reconheça que o volume de doações depende da decisão de cada pessoa, ela diz perceber uma concentração do investimento social nas mãos de um grupo relativamente pequeno.
“Eu sinto que é sempre o mesmo grupo. Quem doa para cultura, para ONG ou para empreendedorismo é quem doa para tudo. Essa pessoa entendeu o lugar da filantropia.”
O avanço existe, segundo ela, mas é lento. “A cada dez empresas, uma converte, sei lá. Não tenho uma estatística. Às vezes, a gente comove uma pessoa que poderia dar um tíquete maior, mas ela dá um tíquete pequeno.”

Da gestão empresarial à articulação social
Formada em Economia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e com MBA pela Fundação Getulio Vargas, Geyze trabalhou durante nove anos no Grupo Pão de Açúcar. Foi diretora de Planejamento Estratégico e integrou o conselho de administração da companhia. Atualmente, participa dos conselhos da Península Participações, do Instituto Península e da Fiesp.
Foi no Grupo Pão de Açúcar que conheceu o empresário Abilio Diniz, morto em 2024, com quem se casou. Nos últimos anos, passou a empregar na atuação social parte da experiência acumulada no ambiente corporativo.
O Pacto Contra a Fome foi lançado em 2023, depois de uma mobilização iniciada durante a pandemia, quando Geyze participou de campanhas de arrecadação de alimentos. A organização nasceu com duas metas: contribuir para que nenhum brasileiro passe fome em 2030 e para que toda a população tenha alimentação adequada em 2040.
“Nós começamos com um estudo, um desejo e uma vontade, por causa da incoerência do país em que vivemos”, afirma. “Olhando três anos depois, a instituição amadureceu muito.”
Segundo ela, uma das principais mudanças foi a ampliação do trabalho em conjunto com organizações que já atuavam na área, pesquisadores, universidades e representantes do poder público.
“Trabalhar em coalizão às vezes demora mais, mas é muito mais impactante. Se o plano mostra que não vai atingir o objetivo, recua, ajusta, muda o foco e bola para frente.”
A organização atua hoje na produção de estudos, articulação de políticas públicas e apoio a iniciativas de redução do desperdício. No primeiro semestre de 2026, o projeto Ceasa Desperdício Zero mobilizou mais de R$ 12 milhões para implantação e modernização de bancos de alimentos, segundo balanço divulgado pelo Pacto.
O Brasil desperdiça anualmente 55,4 milhões de toneladas de comida ao longo da cadeia, de acordo com levantamento divulgado pela entidade. Isso equivale a aproximadamente um terço dos alimentos produzidos no país. O próprio Pacto ressalva, porém, que ainda não existe uma metodologia oficial e integrada para medir as perdas em todas as etapas, do campo ao consumidor.
No jantar, o tema apareceu também por meio da intervenção “A fome não é para ser contemplada”, criada pelo cenógrafo Marcelo Bacchin. Seu Jorge deu um depoimento sobre a causa, e a cantora Agnes Nunes se apresentou acompanhada pela acordeonista Lívia Mattos.
Fora do Mapa da Fome, mas longe do fim do problema
A saída do Brasil do Mapa da Fome das Nações Unidas, anunciada em 2025, foi recebida por Geyze como uma conquista. O indicador da FAO considera a prevalência de subalimentação na população, calculada por médias de três anos.
Isso não significa, porém, que a fome tenha sido eliminada. São métricas diferentes. Dados mais recentes do IBGE indicam que 54,7 milhões de brasileiros conviviam com algum grau de insegurança alimentar em 2024. Desse total, 6,4 milhões estavam em situação grave, classificação na qual há falta efetiva de alimentos.
“A gente saiu de 33 milhões de brasileiros que passavam fome para pouco menos de 7 milhões. É uma grande conquista”, afirma Geyze. “Mas ainda são quase 7 milhões de pessoas. Não dá para falar ‘são só 2,5% da população’ em um país com mais de 200 milhões de brasileiros.”
Para ela, o desafio agora é transformar a melhora dos indicadores em um resultado permanente, menos vulnerável a crises econômicas ou mudanças de governo.
“Tudo isso que foi feito é estruturante? Se o governo para de fazer esse impulso, o que acontece? Provavelmente a fome volta. Se a economia não funciona e há problema de geração de emprego, provavelmente vai ter fome.”
É por isso que Geyze insiste em dividir a responsabilidade com empresas, organizações sociais e famílias de grande patrimônio. O setor público, afirma, é indispensável, mas não deve carregar a tarefa sozinho.
“Ninguém sozinho resolve. É uma soma de ações”, diz. “Eu sigo porque realmente acredito que é possível acabar com a fome no Brasil. Mas tem que ser de um jeito estruturante.”