“De tédio eu não morro”, brinca Paula Benevides. Aos 46 anos, a vice-presidente de pessoas da Natura e mãe de quatro é conhecida por liderar transformações nos negócios. “Sou incompetente em manter as coisas como estão. Se tem um agito, é ali que eu me meto, independentemente de ser um escopo de recursos humanos.”
Há dois anos, assumiu a cadeira para conduzir a estratégia de pessoas em meio ao reposicionamento da Natura: venda da Avon International, concluída em dezembro de 2025, simplificação das operações e retomada do foco na América Latina. “A convite do João [Paulo Ferreira, CEO] e do Fabio [Barbosa, então chairman], meu papel era agilizar e garantir uma cultura que resgatasse as raízes da empresa, mas para um contexto de mercado diferente.”
São cerca de 13 mil funcionários em 8 países da região, além de mais de 3 milhões de revendedoras. “Elas são fundamentais. As pessoas ainda pensam na mulher com a revistinha embaixo do braço. Hoje elas são digitais, vendem no WhatsApp e no TikTok.”
Antes da Natura, a carioca criada em Vitória (ES) passou por diferentes setores. Chegou a São Paulo há mais de 20 anos para trabalhar na Sadia e ocupou diferentes posições em 17 anos no grupo Cosan. Foi diretora de RH da Comgás, VP de RH e líder do braço social da Raízen, além de vice-presidente da holding.
Psicóloga de formação, com MBAs pela Unicamp e pela FGV, escolheu o RH ainda na faculdade. “Falavam que era o capitalismo selvagem da psicologia.” Ela discorda. “Quando comecei, há mais de 20 anos, o RH era quase um tirador de pedidos. Hoje evoluímos para um lugar de designer do futuro. Somos business e people centric.”
Bem-estar é estratégia de negócio
Um dos principais focos da executiva hoje é o desenvolvimento de uma metodologia que correlaciona o bem-estar dos funcionários aos resultados do negócio. “Não dá para dissociar.” Com implementação prevista para 2026 no Brasil, Argentina e México, o projeto avalia seis dimensões, como saúde, remuneração, propósito e autonomia. É desenvolvido em parceria com o economista Jan-Emmanuel De Neve, da Universidade de Oxford, que já aplica o modelo em empresas da Europa e dos Estados Unidos.
O pano de fundo é acrise de saúde mental no Brasil, com recorde de afastamentos por burnout. “Além de estimular que as pessoas se cuidem, estamos invertendo a lógica. Precisamos criar um ambiente mais saudável, seguro e com lideranças inclusivas.” E também a meta pública da Natura de se tornar, até 2050, uma “empresa de regeneração”. Ou seja, que não apenas mitiga os impactos negativos, mas efetivamente gera impacto positivo na sociedade e no planeta. “As pessoas saem melhor do que entraram todos os dias, e o business chega em outro patamar muito mais rápido.”
Quando comecei, há mais de 20 anos, o RH era quase um tirador de pedidos. Hoje evoluímos para um lugar de designer do futuro. Somos business e people centric.
Paula Benevides
A era das habilidades
Paula também lidera a transição para um modelo skill-based, baseado em competências, não mais em cargos. A empresa usa a plataforma da startup acaso para mapear as habilidades dentro de casa. “Olhando para a estratégia de negócio, identifico de quais habilidades preciso, então decido se vou comprar, desenvolver, emprestar ou agentificar.”
A Natura já tem estruturas híbridas, em que agentes e humanos trabalham juntos. “Estamos indo por um caminho com muitos dados e IA, sem perder a dimensão humana, que é a escolha das pessoas.” A plataforma interna Maia, por exemplo, responde dúvidas sobre a empresa e auxilia na definição de metas.
Liderança e maternidade
Em uma companhia onde as mulheres ocupam 60% da diretoria executiva, Paula se lembra de uma outra realidade. “Já precisei interromper conversas e mudar meu tom de voz”, diz. “Entendi que não seria no grito, mas que pelo caminho tradicional não chegaria onde ambicionava.” Passou, então, a dedicar mais tempo ao negócio e a estar em campo. “Se tenho competência e conheço os temas críticos, também posso sentar na mesa e discutir alocação de capital.”
Quando engravidou pela primeira vez, só sabia chorar ao contar para o seu chefe. “Meus dois primeiros filhos não são da barriga, mas do coração. Depois das minhas duas gestações, fui promovida ao voltar da licença.”
Mãe de quatro homens – de 9 a 31 anos –, Paula excluiu a palavra “equilíbrio” do seu vocabulário. “Me levava para um lugar de culpa péssimo. Sou intensa, mergulho de cabeça com o meu melhor. Hoje penso: ‘Qual é o bom balanço agora?’”
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