Aberta ao público desde 9 de maio, a 69ª Bienal de Veneza transforma a Cidade Flutuante em uma verdadeira galeria de arte. Composta pela mostra principal tradicionalmente instalada no Arsenale e nos Giardini della Biennale e por diversos pavilhões nacionais como o do Brasil, a feira de arte se estende até 22/11.
Com literalmente uma cidade inteira para explorar, pedimos para as art advisors Júlia Clemente e Marina Kauffmann trazerem seu olhar para a Bienal com os destaques principais:

Realizada um ano após a morte de sua curadora, a camaronesa Koyo Kouoh, a exposição central da Bienal de Veneza surge como um manifesto silencioso: potente, denso mas confuso de percorrer. Logo na entrada, o convite da curadora — “respire fundo, solte os ombros, feche os olhos” — funciona quase como uma preparação para atravessar uma mostra marcada por sutilezas, murmúrios e frequências baixas. Reunindo 110 artistas, muitos apresentados ao grande público pela primeira vez, In Minor Keys propõe diálogos atravessados por traumas históricos, espiritualidade e resistência.
Diferente das duas últimas edições, a mostra não aposta em revisões históricas ou “redescobertas”, mas concentra-se majoritariamente em artistas em plena atividade. Ao mesmo tempo, a Bienal acabou dominada por discussões políticas: o retorno do pavilhão russo e a presença de Israel desencadearam protestos e reacenderam debates sobre arte, governos e neutralidade institucional. A crise se intensificou com a saída do júri poucos dias antes da premiação, levando diversos artistas a retirarem suas candidaturas aos prêmios.

Apesar desse clima de tensão, o Arsenale é atravessado por jardins, corredores verdes e espaços de contemplação, sugerindo a pausa e a escuta como formas possíveis de resistência em meio ao caos contemporâneo.
Entre os destaques está a instalação de Alfredo Jaar, um santuário vermelho pulsante que enumera minerais do mundo enquanto comenta a destruição ambiental e os conflitos globais. Já Torkwase Dyson apresenta Liquid A Place (2026), um grupo de estruturas monumentais de aço e vidro que investiga como o corpo atravessa espaços de contenção e liberdade.
Kaloki Nyamai exibe três grandes pinturas de dupla face instaladas para serem vistas em circulação. Inspirado pela mãe, artista têxtil, o artista transforma a costura em metáfora de reparação histórica e reconstrução comunitária. Seyni Awa Camara, por sua vez, apresenta esculturas em argila entre o humano e o animal, figuras quase míticas que parecem emergir de um universo onírico para observar silenciosamente os visitantes da Bienal.
Nos Giardini, Álvaro Barrington atrai multidões com Labor Day Parade ’91 (2026), um caminhão monumental coberto por imagens ligadas às sua origem caribenha e à história da arte. Instalado ao lado do controverso pavilhão austríaco, o trabalho rapidamente se tornou um dos pontos mais fotografados da Bienal.
O pavilhão da Áustria, Sea World Venice, vem gerando debates intensos ao apresentar performers nus em piscinas, reservatórios e ambientes permanentemente úmidos. Misturando referências a parques aquáticos decadentes, sistemas sanitários e espaços ritualísticos, a instalação imagina Veneza como uma cidade submersa, exausta e à deriva. Ao sair a sensação é um mix de repulsa ao grotesco e impacto de algo que precisava ser exposto.
O Pavilhão do Japão apresenta Grass Babies, Moon Babies, instalação de Ei Arakawa-Nash que transforma o público em participante ativo de uma experiência sobre cuidado coletivo e parentalidade. Inspirada no nascimento dos gêmeos do artista em 2024, a obra aborda cuidado, parentalidade LGBTQIA+ e intimidade em espaços públicos. Ao trocar a fralda de bonecas espalhadas pela instalação, visitantes recebem “poemas-fralda” digitais via QR code.
No pavilhão espanhol, a exposição Los restos transforma o espaço em um “anti-museu”. O artista Oriol Vilanova reúne milhares de cartões-postais garimpados durante duas décadas em mercados de pulga, criando um grande mural sem ordem ou hierarquia. A instalação propõe uma reflexão sobre memória coletiva, turismo e as maneiras pelas quais construímos e preservamos a história.
O Holy See Pavilion, talvez um dos espaços mais sensíveis desta edição, propõe uma pausa espiritual com The Ear Is the Eye of the Soul. Inspirado em Hildegard of Bingen e com curadoria de Hans Ulrich Obrist, o projeto reúne nomes como Brian Eno, Patti Smith e FKA Twigs em uma experiência sonora imersiva guiada por headphones geolocalizados.
O pavilhão da Ucrânia, instalado no Palazzo Contarini Polignac, oferece uma resposta delicada e contundente à guerra, reunindo obras que narram sobrevivência e resiliência de maneira profundamente humana.
Resta agora saber se esta edição conseguirá transformar em realidade as mudanças radicais que propõe — ainda que aconteçam em “minor keys”.