Há quatro meses da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025, a COP30, o clima não é um dos melhores. Como ocorre em todas as edições, o maior evento sobre o tema servirá para fazer novos – ou velhos – alertas sobre a questão climática no mundo. E é a provável ausência dos Estados Unidos que coloca em risco grandes negociações, como uma de suas pautas essenciais: o financiamento climático.
“Essa não é uma COP onde teremos grandes negociações internacionais, como foi em Paris, em que foi criado o Acordo de Paris, ou Glasgow. Quando tiramos um país como os Estados Unidos da mesa, a situação não vai para frente”, disse Marcello Brito, engenheiro de alimentos, enviado especial para os estados subnacionais da Amazônia pelo Consórcio Amazônia Legal, secretário executivo do Consórcio Interestadual de Desenvolvimento Sustentável da Amazônia Legal (CAL), e ex-presidente do conselho de administração da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG).
Os EUA, maior emissor histórico de gases de efeito estufa e o principal articulador com outros países ricos, são a maior economia do mundo. No Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, os EUA são um dos cinco membros permanentes, com poder de veto. Em questões de clima, sua posição ainda é de autoridade.
O Acordo de Paris, tratado que definiu metas de combate ao aquecimento global, só saiu do papel porque EUA, chefiado por Barack Obama, e China chegaram a um entendimento prévio e sinalizaram um compromisso conjunto. Os demais países seguiram o fluxo dos dois gigantes e aprovaram o acordo. Agora, o cenário é diferente.
“Neste momento, não há espaço geopolítico para negociar nada. O modelo da ONU é por consenso. Ou seja, se um país levanta a mão dizendo ser contra, acabou. Os debates sobre financiamento podem até ser abordados, mas não vão para frente”, afirma Brito. Para avançar ou bater o martelo sobre o novo valor do fundo climático e sobre seus principais financiadores na COP de Belém, a presença do país é imprescindível.
Essa é uma das pautas mais batidas e polêmicas discutidas em todas as COPs. Trata-se de um conjunto de compromissos financeiros assumidos pelos países desenvolvidos para ajudar os países em desenvolvimento a reduzir suas emissões de gases de efeito estufa e se adaptar aos impactos das mudanças climáticas. Os recursos podem ser empréstimos, doações ou garantias, e são enviados por fundos financeiros criado pela ONU ou de bancos multilaterais de desenvolvimento, com o Banco Mundial.
Na COP de Copenhague, em 2009, as nações ricas se comprometeram a mobilizar US$ 100 bilhões (R$ 550 bilhões na cotação atual) por ano até 2020. Em 2015, no Acordo de Paris, esse compromisso foi prorrogado até 2025. No último dia 7, os países que integram o Brics, bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, divulgaram uma declaração conjunta pedindo que as nações desenvolvidas ampliem de forma significativa o financiamento climático para US$ 1,3 trilhão (R$ 7,15 trilhões) até a COP30. O que está em discussão é um aumento do montante e sobre quem paga a conta, mas a resposta para essas questões não virá na COP de Belém.
Ciente do cenário atual, André Corrêa do Lago, presidente da COP30, afirmou em cartas à comunidade internacional, que o foco do evento será mobilizar atores e iniciativas já existentes para avançar esforços globais. Deter e reverter o desmatamento e a degradação florestal até 2030, apoiar a aceleração da transição energética global para o abandono dos combustíveis fósseis e a transformação da agricultura e dos sistemas alimentares estão entre os principais compromissos.
Para Brito, o Brasil foi pragmático. “Será uma COP de implementação de melhorias. Pode haver a tentativa de fazer construções com os países que estão dispostos, como a China, que já demonstrou interesse em continuar evoluindo dentro das metas do Acordo de Paris, e a União Europeia. Não serão feitos em tempo recorde, como quando os EUA estão presentes, mas pode ter evolução”, disse ele. Brito completa que o setor privado pode entrar como protagonista nas discussões sobre financiamento e soluções. O agronegócio brasileiro entra aqui.
“Há 30 anos, todo financiamento do agro brasileiro vinha do Plano Safra. Depois, o setor privado entrou no jogo. E hoje, quase 70% do agro brasileiro é financiado pelo setor privado”, afirma Brito. “Tenho certeza de que no decorrer dos próximos meses e anos, o agro vai investir ainda mais na transição climática. Somos uma caixinha de soluções.”
Especialistas ouvidos para a série Forbes COP30 são enfáticos: o setor tem uma grande chance de mostrar suas soluções na COP. Quando concedeu entrevista à Forbes, Brito estava na Semana do Clima de Londres, um evento anual para debater, planejar e divulgar soluções para a crise climática, que aconteceu no final de junho. Questionado sobre como o Brasil foi posicionado no evento, Brito afirmou que somos vistos com bons olhos.
“Eles sabem que podemos ter uma agricultura resiliente e regenerativa ou mesmo acabar com o desmatamento. Temos condições de fazer a coisa acontecer e por isso essa é uma forte área de absorção de novos investimentos”, afirma Brito.