Danielle Nierenberg é pesquisadora, palestrante e uma das principais vozes globais em temas ligados à agricultura e ao sistema alimentar. Em 2013, ao lado de Bernard Pollack, cofundou o Food Tank (foodtank.com), uma organização internacional dedicada a construir uma comunidade global em prol de consumidores seguros e bem nutridos. Danielle é mestre em Agricultura, Alimentos e Meio Ambiente pela Escola Friedman de Ciência e Política da Nutrição da Universidade Tufts e atuou por dois anos como voluntária do Corpo da Paz na República Dominicana. Em 2020, foi reconhecida com o Prêmio Julia Child.
Nesta semana, ela escreveu na Forbes EUA suas impressões sobre a brasileira Mariangela Hungria, cientista da Embrapa laureada em maio deste ano com o Prêmio Mundial da Alimentação, o World Food Prize, reconhecido como “Nobel” da agricultura.
O prêmio foi citado na mídia internacional, entre elas NPR (National Public Radio), KPBS Public Media, Houston Public Media, WRVO Public Media, Devex, Seed World, Farming First, TWAS (The World Academy of Sciences) e também no Food Tank. Confira a reportagem da Forbes EUA:
Quando a brasileira Mariangela Hungria, vencedora do World Food Prize de 2025, ingressou na faculdade de microbiologia, a agricultura havia acabado de passar pela Revolução Verde, e os cientistas estavam focados no uso de fertilizantes artificiais para alimentar uma população crescente.
Mas ela não acreditava que esse fosse o único caminho possível. A doutora Hungria sabia que os microrganismos podiam ajudar na fixação de nitrogênio e na melhoria da saúde do solo. Sabia que fertilizantes biológicos podem ajudar a alimentar o mundo.
Em outras palavras, ela defende a agricultura regenerativa desde antes de esse termo ser amplamente usado.O World Food Prize é uma honraria prestigiosa que reconhece uma trajetória profissional que literalmente mudou os rumos da agronomia desde a base.
Mas, como jovem cientista nas décadas de 1970 e 1980, ela enfrentou forte resistência do meio científico predominantemente masculino, que acreditava que os produtos químicos eram a única solução.
“Não é fácil começar uma carreira quando todos dizem que você não terá futuro”, diz a doutora Hungria no podcast.
Para provar que os microrganismos tinham um papel essencial não apenas na agricultura familiar ou orgânica, mas também em operações de grande escala e alta produtividade, ela explica: “tive que mudar a forma como fazia pesquisa”.
Ela passou a envolver os agricultores como colaboradores no processo de pesquisa. Assim como no caso do seu comprometimento com a agricultura regenerativa, ela não tinha a intenção de ser pioneira. Apenas fazia as coisas do modo que acreditava ser o certo.
“As pessoas falam de ciência participativa, e eu digo: ‘Eu já fazia isso há muito tempo. Só não sabia que se chamava assim!’”, conta ela.
“Toda pesquisa que realizei foi porque um agricultor veio falar comigo sobre algo. Foi porque um agricultor me procurou ou eu o encontrei no campo, e ele me contou o que queria e o que estava acontecendo. Isso me deu ideias para desenvolver meu trabalho.”
E como ela queria demonstrar desde o início, conseguiu provar que os resultados positivos das práticas regenerativas podem ser escalados para propriedades de qualquer tamanho.
“A mesma tecnologia, as mesmas bactérias que ajudam os pequenos produtores também ajudam os grandes”, afirma. “Usamos o mesmo em 1 hectare ou em 100 mil hectares. Então, é maravilhoso trabalhar com algo que serve para todos.”
A doutora Hungria identifica várias barreiras que ainda enfrenta em seu trabalho. Acredito que o movimento global por uma alimentação mais justa pode aprender com isso:
1. O movimento da agricultura regenerativa não pode ser ofuscado pela competição e pelos interesses corporativos.
Mesmo diante de dados que comprovam o sucesso dos fertilizantes biológicos, alguns agricultores continuam céticos por causa do marketing agressivo feito pelos fabricantes de fertilizantes químicos, explica a doutora Hungria.
E, às vezes, as empresas que adotam os fertilizantes biológicos parecem mais interessadas em culturas amplamente cultivadas e lucrativas do que em plantas culturalmente relevantes para as comunidades locais.Como ela explicou, alimentar o mundo não pode ser uma competição. Por isso, torna todas as suas pesquisas e soluções públicas e gratuitas.
2. Precisamos pensar criativamente sobre como conquistar a atenção das pessoas. A doutora Hungria acredita fortemente no poder da comunicação científica.
Mas também expressa frustração ao ver vídeos curtos e bem preparados com dados e explicações técnicas receberem pouca atenção. Enquanto isso, influenciadores que espalham desinformação ou desviam o foco da agricultura conquistam grandes audiências.
3. O futuro da ciência precisa ser colaborativo, inclusivo e igualitário.
Ela fala com franqueza sobre os desafios que enfrentou e ainda enfrenta como mulher e mãe em um meio científico dominado por homens.“Tive muitos problemas porque havia poucas mulheres”, diz. “E pior, eu era uma mulher trabalhando com biológicos em que ninguém acreditava, e com duas filhas. Era muito improvável que eu conseguisse ter uma carreira.”
Mas a doutora Hungria teve êxito. Ela dedicou toda a sua trajetória a reconstruir um campo científico menos competitivo e mais participativo, colaborativo, focado em ouvir os outros e valorizar a diversidade de ideias. Esse é o tipo de abordagem de que realmente precisamos para transformar o sistema alimentar.
Ela conclui: “Acredito mesmo que a ciência do futuro será uma ciência feminina.” Espero que o trabalho da doutora Hungria inspire as futuras gerações de agricultores regenerativos, microbiologistas, defensores da alimentação saudável e cidadãos conscientes. E que também nos inspire agora, nesta geração, a agir com urgência para cuidar dos nossos solos, nutrir nossos corpos e manter o planeta vivo.