O argentino Walter Hernández, 60 anos, trocou os circuitos do Turismo Carretera pelos campos férteis de Nicanor Otamendi, na província de Buenos Aires, localizada na região costeira do país, e que fica a cerca de 440 quilômetros da capital Buenos Aires.
A Turismo Carretera é uma espécie de Stock Car, categorias mais tradicionais do automobilismo naquele país, na qual Hernández sagrou-se campeão de 1993. Mas hoje ele pilota outro tipo de máquina: tratores equipados com GPS e sistemas de precisão para plantar batatas. Mais especificamente nessa direção, com um olho na lavoura e outro olho no Brasil.
À frente da El Parque Papas, considerada a maior produtora individual de batatas da Argentina, Hernández comanda uma operação de 10 mil hectares, dos quais 2 mil são próprios, colhendo cerca de 14 mil toneladas por ano.
“Nossa empresa é como uma equipe de corrida. Tudo precisa estar no lugar certo, na hora certa”, define o ex-piloto.
A comparação não é mera figura de linguagem. A gestão da fazenda segue uma lógica de performance, controle e eficiência herdada das pistas. E foi essa mentalidade que colocou a empresa no mapa global da inovação agrícola, unindo tecnologia de ponta, sustentabilidade e propósito.
Atualmente, a El Parque Papas entrega cerca de 14 mil toneladas de batatas por ano para a indústria argentina, incluindo marcas líderes de chips e batatas pré-fritas congeladas. O foco está nas parcerias como as americanas PepsiCo e Lamb Weston, com contratos de longo prazo que garantem estabilidade financeira em meio às oscilações globais de preço.
A El Parque Papas tem registrado um lucro líquido equivalente a US$ 2,5 mil (R$ 10,8 mil na cotação atual) por hectare, o que significa US$ 35 mil (R$ 184,7 mil) a cada colheita.
“Mesmo com o preço mundial em baixa, tivemos um bom ano. O contrato com a indústria nos deu estabilidade”, relata Hernández.
O próximo passo é dobrar a capacidade de armazenamento até 2029, chegando a 24 mil toneladas para batata industrial e 13 mil para batata-semente, consolidando a empresa como líder na América do Sul.
Batatas da Argentina para o Brasil

E se você já comeu batatas fritas em algum bar, restaurante ou mesmo em fast-food brasileiro – o que é muito provável –, esse petisco pode ter vindo da Argentina. É nesse filão de comedores que Hernández está de olho.
Segundo dados do Agrostat, plataforma do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento que reúne dados de exportação e importação do agro, em 2024 o Brasil registrou o maior volume importado de batatas congeladas na última década.
No ano passado, foram 220,3 toneladas importadas por US$ 241,1 mil (R$ 1,3 milhão na cotação atual). O valor saltou 27,8 vezes e o volume foi 39,4 vezes maior ante 2023.
Foram os ‘hermanos argentinos’, entre eles Hernández, que responderam por 83,2% do volume comprado pelo Brasil. O comércio deve crescer ainda mais, se depender do ex-piloto, que vem apostando em uma gestão refinada do negócio para que o selo de sustentabilidade ligado à sua marca ganhe ainda mais tração.
Rumo ao carbono neutro: energia solar em escala industrial
Com um investimento de cerca de US$ 1 milhão (R$ 5,28 milhões na cotação atual) em painéis solares, no ano passado a El Parque Papas deu a largada para se tornar carbono neutro até 2030. O projeto faz parte de uma estratégia de geração de energia distribuída on-grid (conectada à rede elétrica daquele país).
A planta solar terá 530 kVA de potência, gerando 1 milhão de kWh por ano, valor superior ao consumo da propriedade (923 mil kWh). O excedente será convertido em créditos energéticos, transformando a empresa em um “usuário gerador”.
“Vamos nos tornar uma empresa de carbono neutro. O consumo de todo El Parque Papas até 2026 estará 100% com energia solar”, afirma Hernández.
O projeto, segundo ele, será o maior ponto de geração distribuída na região de Nicanor Otamendi, e deverá servir de modelo para os demais empreendimentos agrícolas do país.
O investimento em energia, para ele, será um marco nesse sentido. Hernandéz projeta que para o seu negócio, a economia total nos próximos 25 anos será equivalente a 4.700 toneladas de CO₂, o mesmo que tirar de circulação 200 carros por ano ou plantar 20 mil árvores. Além disso, por adotar um sistema híbrido, o excedente é injetado na rede, que por sua vez alimenta as bombas de irrigação elétrica nas áreas produtivas.
Cultivo verde: batatas com fertilizantes de carbono zero
Campo de cultivo de batatas no El Parque PapasOutra aposta, o uso de fertilizantes verdes (matéria orgânica), começou em 2022 também visando zero emissão na produção das batatas com redução de carbono desde a origem. A fazenda também introduziu o uso de fertilizantes biológicos ( microrganismos vivos ) e sistemas de plantio direto com culturas de cobertura, reduzindo também o uso de herbicidas e melhorando a saúde do solo.
Vale registrar que como o Brasil, com 45 milhões de hectares em sistema de plantio direto, a Argentina também aposta nele: dos cerca de 35 milhões de hectares de cultivo do país, 90% estão no sistema. Nos EUA, não chega à metade disso. Com rotação de um ano de batata e oito de descanso, Hernández orgulha-se por seu solo apresentar índices de matéria orgânica entre 6,5% e 6,8%, patamar elevado para o cultivo intensivo de tubérculos.
“É muito importante ter solos saudáveis. Quando você tem vida no solo, alimenta a batata e ela cresce com menos estresse”, explica.
Há também uma gana por novas tecnologias nessa corrida. Na última safra, o produtor foi em busca de novas variedades de batata importadas da Alemanha. Aliadas às tecnologias de precisão, a produtividade cresceu cerca de 15%, alcançando 66 toneladas por hectare. A média nacional fica entre 30 e 40 toneladas por hectare, com algumas regiões chegando próximo de 47 toneladas.
“Não cultivo batata por dinheiro. Cultivo batata porque eu gosto”, diz o ex-piloto , com um sorriso de quem ainda acelera forte, agora, na direção de um agronegócio mais verde, eficiente e que tem o Brasil na rota.
