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Da Pista À Safra, Ex-Piloto Argentino Coloca Batata No Radar Do Brasil

Conheça Walter Hernández, dono da El Parque Papas, que cultiva 14 mil hectares, é fornecedor da PepsiCo e Lamb Weston e ainda sobra para exportar

6 min

O argentino Walter Hernández, 60 anos, trocou os circuitos do Turismo Carretera pelos campos férteis de Nicanor Otamendi, na província de Buenos Aires, localizada na região costeira do país, e que fica a cerca de 440 quilômetros da capital Buenos Aires.

A Turismo Carretera é uma espécie de Stock Car, categorias mais tradicionais do automobilismo naquele país, na qual Hernández sagrou-se campeão de 1993. Mas hoje ele pilota outro tipo de máquina: tratores equipados com GPS e sistemas de precisão para plantar batatas. Mais especificamente nessa direção, com um olho na lavoura e outro olho no Brasil.

À frente da El Parque Papas, considerada a maior produtora individual de batatas da Argentina, Hernández comanda uma operação de 10 mil hectares, dos quais 2 mil são próprios, colhendo cerca de 14 mil toneladas por ano.

“Nossa empresa é como uma equipe de corrida. Tudo precisa estar no lugar certo, na hora certa”, define o ex-piloto.

A comparação não é mera figura de linguagem. A gestão da fazenda segue uma lógica de performance, controle e eficiência herdada das pistas. E foi essa mentalidade que colocou a empresa no mapa global da inovação agrícola, unindo tecnologia de ponta, sustentabilidade e propósito.

Atualmente, a El Parque Papas entrega cerca de 14 mil toneladas de batatas por ano para a indústria argentina, incluindo marcas líderes de chips e batatas pré-fritas congeladas. O foco está nas parcerias como as americanas PepsiCo e Lamb Weston, com contratos de longo prazo que garantem estabilidade financeira em meio às oscilações globais de preço.

A El Parque Papas tem registrado um lucro líquido equivalente a US$ 2,5 mil (R$ 10,8 mil na cotação atual) por hectare, o que significa US$ 35 mil (R$ 184,7 mil) a cada colheita.

“Mesmo com o preço mundial em baixa, tivemos um bom ano. O contrato com a indústria nos deu estabilidade”, relata Hernández.

O próximo passo é dobrar a capacidade de armazenamento até 2029, chegando a 24 mil toneladas para batata industrial e 13 mil para batata-semente, consolidando a empresa como líder na América do Sul.

Batatas da Argentina para o Brasil

El Parque Papas
El Parque PapasWalter com sua filha, Rosario Hernández, observando as batatas na lavoura

E se você já comeu batatas fritas em algum bar, restaurante ou mesmo em fast-food brasileiro – o que é muito provável –, esse petisco pode ter vindo da Argentina. É nesse filão de comedores que Hernández está de olho.

Segundo dados do Agrostat, plataforma do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento que reúne dados de exportação e importação do agro, em 2024 o Brasil registrou o maior volume importado de batatas congeladas na última década.

No ano passado, foram 220,3 toneladas importadas por US$ 241,1 mil  (R$ 1,3 milhão na cotação atual). O valor saltou 27,8 vezes e o volume foi 39,4 vezes maior ante 2023.

Foram os ‘hermanos argentinos’, entre eles Hernández, que responderam por 83,2% do volume comprado pelo Brasil. O comércio deve crescer ainda mais, se depender do ex-piloto, que vem apostando em uma gestão refinada do negócio para que o selo de sustentabilidade ligado à sua marca ganhe ainda mais tração.

Rumo ao carbono neutro: energia solar em escala industrial

Com um investimento de cerca de US$ 1 milhão (R$ 5,28 milhões na cotação atual) em painéis solares, no ano passado a El Parque Papas deu a largada para se tornar carbono neutro até 2030. O projeto faz parte de uma estratégia de geração de energia distribuída on-grid (conectada à rede elétrica daquele país).

A planta solar terá 530 kVA de potência, gerando 1 milhão de kWh por ano, valor superior ao consumo da propriedade (923 mil kWh). O excedente será convertido em créditos energéticos, transformando a empresa em um “usuário gerador”.

“Vamos nos tornar uma empresa de carbono neutro. O consumo de todo El Parque Papas até 2026 estará 100% com energia solar”, afirma Hernández.

O projeto, segundo ele, será o maior ponto de geração distribuída na região de Nicanor Otamendi, e deverá servir de modelo para os demais empreendimentos agrícolas do país.

O investimento em energia, para ele, será um marco nesse sentido. Hernandéz projeta que para o seu negócio, a economia total nos próximos 25 anos será equivalente a 4.700 toneladas de CO₂, o mesmo que tirar de circulação 200 carros por ano ou plantar 20 mil árvores. Além disso, por adotar um sistema híbrido, o excedente é injetado na rede, que por sua vez alimenta as bombas de irrigação elétrica nas áreas produtivas.

Cultivo verde: batatas com fertilizantes de carbono zero

El Parque Papas

Campo de cultivo de batatas no El Parque PapasOutra aposta, o uso de fertilizantes verdes (matéria orgânica),  começou em 2022 também visando zero emissão na produção das batatas com redução de carbono desde a origem. A fazenda também introduziu o uso de fertilizantes biológicos ( microrganismos vivos ) e sistemas de plantio direto com culturas de cobertura, reduzindo também o uso de herbicidas e melhorando a saúde do solo.

Vale registrar que como o Brasil, com 45 milhões de hectares em sistema de plantio direto, a Argentina também aposta nele: dos cerca de 35 milhões de hectares de cultivo do país, 90% estão no sistema. Nos EUA, não chega à metade disso. Com rotação de um ano de batata e oito de descanso, Hernández orgulha-se por seu solo apresentar índices de matéria orgânica entre 6,5% e 6,8%, patamar elevado para o cultivo intensivo de tubérculos.

“É muito importante ter solos saudáveis. Quando você tem vida no solo, alimenta a batata e ela cresce com menos estresse”, explica.

Há também uma gana por novas tecnologias nessa corrida. Na última safra, o produtor foi em busca de novas variedades  de batata importadas da Alemanha. Aliadas às tecnologias de precisão, a produtividade cresceu  cerca de 15%, alcançando 66 toneladas por hectare.  A média nacional fica entre 30 e 40 toneladas por hectare, com algumas regiões chegando próximo de 47 toneladas.

“Não cultivo batata por dinheiro. Cultivo batata porque eu gosto”, diz o ex-piloto , com um sorriso de quem ainda acelera forte, agora, na direção de um agronegócio mais verde, eficiente e que tem o Brasil na rota.

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