1. Início
  2. /
  3. Forbes Agro
  4. /
  5. Tarifas, Clima e Comida: 2025, o Ano em Que a Geopolítica Mandou Mais no Prato do Mundo
Forbes Agro

Tarifas, Clima e Comida: 2025, o Ano em Que a Geopolítica Mandou Mais no Prato do Mundo

Da Ásia às Américas, uma radiografia global de como tarifas, inflação, energia e clima reordenaram fluxos, preços e riscos no agro

14 min

2025 entra para a história do agronegócio como o ano em que a geopolítica passou a mandar mais que a agronomia em boa parte do noticiário global. O mundo colheu volumes altos em vários grãos, mas negociou comida, energia e insumos sob uma nova camada de risco: tarifas amplas e regras ambientais mais duras.

O agronegócio global produziu, embarcou e investiu com uma sensação nova de vulnerabilidade. O risco veio de fora da fazenda, com tarifas amplas e ajustes bruscos em fluxos comerciais. No pano de fundo, o clima manteve o mundo em temperatura excepcional, reforçando que volatilidade deixou de ser evento e virou ambiente. O clima continuou testando limites.

A seguir, 10 fatos que definiram 2025:

1) Trump impõe tarifa ampla e redesenha o comércio agrícola global

Em 2 de abril de 2025, os Estados Unidos anunciaram um novo regime de tarifas recíprocas, com alíquota-base de 10% sobre importações de todos os países, além de sobretaxas diferenciadas para parceiros com grandes déficits comerciais. A medida entrou em vigor em 5 de abril, com escalonamento a partir de 9 de abril.

Segundo a US International Trade Commission (USITC), os EUA importaram US$ 2,9 trilhões em bens em 2024, dos quais cerca de US$ 210 bilhões em produtos agrícolas e alimentos processados. A tarifa passou a incidir diretamente sobre cadeias globais de grãos, carnes, lácteos, frutas, bebidas, óleos vegetais e insumos agroindustriais.

Relatórios do USDA Economic Research Service e análises da OMC indicaram, ao longo de 2025, desvio de comércio e reprecificação de contratos agrícolas, com impacto relevante em exportadores como União Europeia, Canadá, México, Brasil, Argentina, Austrália e países do Sudeste Asiático.

A União Europeia respondeu com estudos de impacto e preparação de medidas defensivas. Canadá e México revisaram listas de produtos sensíveis no âmbito do USMCA. Países asiáticos ampliaram acordos regionais para mitigar exposição ao mercado americano.  O Brasil se manteve irredutível nas suas posições, não negociando concessões.

No segundo semestre, os EUA passaram a introduzir exceções setoriais, inclusive para alimentos, após pressão de importadores, redes varejistas e associações de consumidores, diante do risco inflacionário.

Por que importa:

Foi a maior mudança unilateral de política comercial dos EUA desde a década de 1930. No agro, a tarifa atuou como um choque sistêmico: alterou fluxos globais, incentivou triangulação de exportações, pressionou preços ao consumidor e recolocou segurança alimentar e protecionismo no centro da geopolítica agrícola.

2) Ásia redefine o tabuleiro da demanda global por alimentos

Em 2025, Ásia concentrou mais de 55% do crescimento marginal da demanda global por alimentos, segundo estimativas consolidadas da FAO e projeções do USDA. Juntas, China e Índia responderam por cerca de 38% do consumo mundial de grãos, 32% do consumo de proteínas animais e mais de 60% do crescimento da demanda por óleos vegetais.

A China manteve estoques estratégicos elevados, mas ampliou importações seletivas de soja, milho e carnes, ao mesmo tempo em que reforçou compras de trigo de origens alternativas, como Austrália e Rússia, para reduzir dependência geopolítica.

A Índia, pressionada por inflação de alimentos acima da meta em parte do ano, interveio em mercados domésticos, com restrições pontuais à exportação de arroz e estímulos à produção interna de trigo e oleaginosas.

No Sudeste Asiático, países como Indonésia, Vietnã e Filipinas aumentaram importações de grãos e proteínas para recomposição de estoques, enquanto ajustavam políticas de subsídio alimentar diante do impacto cambial e logístico.

Por que importa:

A formação de preços globais passou menos por oferta no Ocidente e mais por decisões de política alimentar na Ásia. Em 2025, quem mexeu em estoque, tarifa ou subsídio em Pequim, Nova Délhi ou Jacarta mexeu no preço global.

3) Proteínas animais entram em nova fase de expansão, puxada por Ásia e Oriente Médio

O mercado global de proteínas animais cresceu em 2025, com carne de aves e suínos liderando a expansão, segundo a FAO e o USDA. A produção mundial de carnes avançou cerca de 1,4%, enquanto o comércio internacional cresceu acima disso, impulsionado por Ásia e Oriente Médio.

A China seguiu como o maior consumidor mundial de carne suína e ampliou compras externas para equilibrar oferta interna e custos de ração. Países do Sudeste Asiático registraram crescimento consistente no consumo per capita de proteína animal, acompanhando urbanização e renda. No Oriente Médio, importações de carne bovina e de frango aumentaram, sustentadas por crescimento populacional e políticas de segurança alimentar.

Ao mesmo tempo, sanidade animal e custo de ração limitaram ganhos mais agressivos. A persistência da influenza aviária em diferentes regiões manteve volatilidade nos mercados de aves e ovos, com reflexos diretos em preços ao consumidor.

Por que importa:

Proteína animal virou o elo mais sensível entre grãos, clima e inflação. Em 2025, o preço da carne foi o canal mais rápido de transmissão de choques agrícolas para a política econômica.

4 – Preço global de alimentos: sobe no meio do ano e recua no fim, com “motores” claros

Os preços dos alimentos seguiram uma trajetória em arco, segundo o Food Price Index da FAO. O índice atingiu 130,1 pontos em julho, alta de 1,6% em relação a junho, impulsionado principalmente pelos subíndices de carnes (+1,2%) e óleos vegetais (+3,7%), em um contexto de custos elevados de ração, logística ainda cara e demanda firme da Ásia.

No segundo semestre, o movimento se inverteu. Em novembro, o índice recuou para 125,1 pontos, queda de 1,2% no mês e 5,6% abaixo do pico anual, com recuos disseminados em lácteos, carnes, açúcar e óleos vegetais, parcialmente compensados por alta de cereais. A FAO associou a correção a três fatores principais: melhora da oferta global, desaceleração do crescimento da demanda em economias emergentes e ajustes cambiais, especialmente em países importadores líquidos de alimentos.

Os óleos vegetais foram o componente mais volátil do ano. A combinação entre demanda para biodiesel, políticas energéticas em grandes economias e oscilações na produção de palma no Sudeste Asiático e de soja nas Américas amplificou movimentos de alta no primeiro semestre e correção no segundo. Já o mercado de carnes mostrou um equilíbrio instável entre crescimento do consumo na Ásia, custos elevados de ração e limitações sanitárias, como a persistência da influenza aviária.

Por que importa:

Em 2025, o preço dos alimentos deixou de responder apenas à safra. Energia, política comercial, câmbio e sanidade animal passaram a pesar tanto como a produtividade. O resultado foi um mercado menos explosivo do que em 2022, mas estruturalmente mais sensível a decisões fora do campo, com impacto direto sobre inflação, segurança alimentar e política econômica em escala global.

5 – Cereais entram em 2025/26 com estoques recordes e comércio global aquecido

A FAO estimou que os estoques globais de cereais alcançarão 925,5 milhões de toneladas em 2025/26, alta de 6,5% e o maior volume da série histórica. A utilização mundial foi projetada em 2,93 bilhões de toneladas, enquanto o comércio internacional deve totalizar 500,6 milhões de toneladas, avanço de 3,3%, sustentado sobretudo por fluxos mais intensos de trigo e milho.

O crescimento do colchão de estoques é o resultado de boas safras em grandes produtores, recomposição estratégica em países importadores e maior previsibilidade de oferta após dois anos marcados por choques climáticos e geopolíticos. Ao mesmo tempo, o aumento do comércio indica que o mercado segue ativo, com redirecionamento de origens e maior competição entre exportadores.

Por que importa:

Estoques elevados reduzem o risco de um choque global imediato de oferta, mas não blindam o mercado. Em 2025, preços continuaram sensíveis a logística, sanidade, conflitos regionais e tarifas, mostrando que abundância física não elimina volatilidade econômica.

6 – Transparência de mercado vira ferramenta de política pública, não só de trading

Plataforma interagencial criada pelos países do G20 para acompanhar e monitorar os mercados globais de alimentos, a Agricultural Market Information System (AMIS) consolidou-se em 2025 como referência para traders, o que já vinha ocorrendo, e também para governos e formuladores de política alimentar.

Ao longo do ano, o AMIS Market Monitor indicou mercados de cereais bem supridos, ainda que com movimentos de preço assimétricos entre regiões, em meio a tarifas, conflitos e ajustes logísticos.

No relatório de outubro, o AMIS apontou trigo ancorado por ampla oferta global, milho em processo de estabilização após volatilidade no primeiro semestre e soja sob ajustes de comércio, mostrando um redirecionamento de origens e mudanças de demanda. A leitura central foi de volatilidade contida, apesar do ambiente geopolítico adverso, resultado direto de estoques mais confortáveis e maior visibilidade sobre balanços globais.

A importância do sistema ficou evidente no uso político dos dados. Em 2025, países importadores recorreram às informações do AMIS para dimensionar estoques estratégicos, calibrar compras públicas e evitar reações defensivas abruptas, como restrições à exportação. Países exportadores, por sua vez, utilizaram o monitoramento para sinalizar oferta, reduzir ruído de mercado e sustentar fluxos comerciais em meio a disputas tarifárias.

Por que importa:

Em um ano marcado por tarifas amplas e reposicionamento de fluxos globais, transparência deixou de ser ferramenta de mercado e passou a ser mecanismo de estabilidade sistêmica. Informação confiável sobre oferta, demanda e estoques reduziu decisões precipitadas, ajudou a conter picos artificiais de preço e tornou-se peça-chave da governança global da segurança alimentar.

7 – Inflação de alimentos entra no centro da segurança alimentar global

O relatório SOFI 2025, coordenado pela FAO em parceria com IFAD, UNICEF, WFP e WHO, colocou a inflação de alimentos como variável central da insegurança alimentar em 2025. O diagnóstico é que, mesmo com melhora relativa da oferta global, preços persistentemente altos continuaram a limitar o acesso a dietas adequadas, sobretudo em países importadores líquidos e economias de baixa renda.

O relatório destaca que a inflação de alimentos foi amplificada por depreciação cambial, custos elevados de energia e transporte, choques climáticos localizados e medidas comerciais defensivas, criando um descompasso entre preços internacionais e preços ao consumidor final. Em vários países, os alimentos seguiram subindo acima da inflação geral, corroendo renda real e ampliando desigualdades nutricionais.

Por que importa:

Quando o fator crítico deixa de ser disponibilidade física e passa a ser preço, a segurança alimentar sai do domínio exclusivo da agricultura. Em 2025, inflação de alimentos conectou política agrícola, política social, política monetária e comércio internacional no mesmo debate, redefinindo prioridades de governos e organismos multilaterais.

8 – Bioenergia ganha tração global e reconfigura a demanda agrícola

Em 2025, a bioenergia consolidou-se como um dos principais vetores de conexão entre política climática, segurança energética e agricultura, segundo o relatório Renewables 2025, da International Energy Agency.

A agência estimou que o crescimento da demanda global por biocombustíveis até 2030 ficará fortemente concentrado em poucos polos: Brasil (40%), Indonésia (20%), Índia (15%), União Europeia (10%) e Canadá (7%), refletindo mandatos de mistura mais elevados, metas de descarbonização e políticas industriais domésticas.

A IEA também revisou em cerca de 10% para cima sua projeção de demanda total de biocombustíveis em 2030, impulsionada não apenas por etanol e biodiesel tradicionais, mas também pela expansão de diesel renovável e combustíveis sustentáveis para aviação (SAF) em América do Norte, Europa e Ásia.

Nos Estados Unidos e na União Europeia, incentivos fiscais e mandatos regulatórios aceleraram investimentos em novas plantas, enquanto Índia e Sudeste Asiático ampliaram o uso de biocombustíveis como estratégia de redução de importações de petróleo.

Por que importa:

Ao ganhar escala global, a bioenergia passou a influenciar diretamente o mercado agrícola. Mandatos de mistura e políticas climáticas redefiniram a demanda por óleos vegetais, milho, cana e resíduos agrícolas, afetando preços, logística e uso da terra. Em 2025, energia deixou de ser variável externa e passou a disputar matéria-prima com alimentos no centro da economia do agro.

9 – União Europeia fixa a EUDR e impõe novo padrão global de rastreabilidade ao agro

A Comissão Europeia confirmou em 2025 o calendário definitivo do Regulamento Europeu de Produtos Livres de Desmatamento (EUDR): aplicação obrigatória a grandes operadores e traders a partir de 30 de dezembro de 2025 e a micro e pequenas empresas a partir de 30 de junho de 2026. A norma cobre cadeias estratégicas como soja, carne bovina, café, cacau, óleo de palma, borracha e madeira, além de derivados.

O impacto global decorre da escala do mercado europeu, um dos maiores importadores mundiais de commodities agrícolas e florestais. E mais, a Europa costuma ditar normas que o mundo aos poucos vai aderindo.

Para atender à EUDR, exportadores de América Latina, África e Ásia passaram a adaptar sistemas de geolocalização de áreas produtivas, verificação de origem, segregação logística e due diligence documental, muitas vezes estendendo esses padrões a toda a produção, e não apenas aos volumes destinados à UE.

Além disso, bancos, seguradoras e tradings globais começaram a internalizar os critérios da EUDR em políticas de crédito, seguro e compra, antecipando riscos regulatórios e reputacionais. O regulamento europeu passou, na prática, a funcionar como referência internacional de compliance ambiental.

Por que importa:

A EUDR não muda apenas o acesso ao mercado europeu. Ela redefine o padrão mínimo global de rastreabilidade e governança ambiental no agro, influenciando contratos, financiamento e fluxos comerciais muito além da União Europeia. Em 2025, origem comprovada deixou de ser diferencial e passou a ser condição de mercado.

10 – Clima consolida um novo patamar de risco estrutural para o agro global

O clima deixou de ser exceção estatística e passou a configurar um novo regime de risco para a produção de alimentos. A World Meteorological Organization indicou que 2025 deve encerrar como o segundo ou terceiro ano mais quente já registrado, com a temperatura média global entre janeiro e agosto 1,42°C ± 0,12°C acima do nível pré-industrial.

As projeções de médio prazo reforçaram o sinal de alerta. Na atualização climática para 2025–2029, a WMO estimou 86% de probabilidade de ao menos um ano ultrapassar 1,5°C acima do período 1850–1900 e 70% de chance de a média dos cinco anos exceder esse patamar.

O cenário aponta maior frequência de ondas de calor, secas, chuvas extremas e eventos compostos, com impacto direto sobre produtividade agrícola, estabilidade de safras e infraestrutura logística em diferentes continentes.

Por que importa:

Em 2025, o risco climático entrou definitivamente na conta econômica do agro. Ele passou a influenciar prêmios de seguro, condições de crédito, custos de produção, planejamento de estoques públicos e decisões de investimento ao longo das cadeias globais de alimentos. O clima deixou de ser variável ambiental e tornou-se fator central de competitividade e segurança alimentar.

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.