A rejeição inicial do consumidor brasileiro a alimentos formulados com insetos não é um bloqueio definitivo. Evidências recentes indicam que essa resistência pode ser significativamente reduzida quando a comunicação combina informação qualificada, linguagem acessível e estímulos visuais capazes de gerar familiaridade.
Essa é a principal conclusão de uma pesquisa conduzida pela Embrapa Agroindústria de Alimentos, no Rio de Janeiro, dedicada a avaliar como diferentes estratégias de comunicação afetam a intenção de compra de produtos à base de insetos.
Pressões ambientais e a busca por novas proteínas
O estudo dialoga com um contexto global de revisão dos padrões alimentares. Relatórios conjuntos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês) têm alertado que o crescimento contínuo do consumo de carnes amplia pressões sobre recursos naturais, intensifica emissões e acelera processos de degradação ambiental.
Esse cenário vem deslocando o debate para além da eficiência produtiva, incorporando a necessidade de mudanças nos hábitos de consumo.
Nesse ambiente, fontes alternativas de proteína, como alimentos de origem vegetal e insetos comestíveis, passam a ser defendidas como opções viáveis para conciliar segurança alimentar, sustentabilidade e crescimento populacional.
Comunicação como instrumento contra a neofobia alimentar

Os resultados da pesquisa foram publicados no Journal of Sensory Studies, coordenados pela pesquisadora da Embrapa Rosires Deliza, mostram que a neofobia alimentar, caracterizada pela relutância em consumir alimentos desconhecidos, pode ser neutralizada quando o consumidor recebe informações claras sobre benefícios nutricionais, atributos sensoriais positivos e impactos ambientais, associadas a imagens que transmitam segurança.
A combinação entre estímulos textuais e visuais se mostrou especialmente eficaz para reduzir o risco percebido em relação a produtos não convencionais, criando condições para percepções mais favoráveis já no primeiro contato.
Biscoitos como estratégia de familiaridade
A investigação foi estruturada em dois experimentos. No primeiro, consumidores avaliaram biscoitos produzidos com farinha de insetos a partir de diferentes mensagens e imagens. O efeito conjunto desses elementos elevou de forma consistente a intenção de compra, sugerindo que a familiaridade com a categoria do produto atua como fator-chave na aceitação.
A escolha dos biscoitos levou em conta o padrão de consumo nacional. Dados do IBGE indicam consumo diário per capita de 3,7 gramas de biscoitos doces e 6,8 gramas de biscoitos salgados.
No mercado global, cerca de 51% dos alimentos à base de insetos são classificados como snacks, categoria que concentra maior potencial de entrada junto ao consumidor final.
Saúde e sustentabilidade como vetores de decisão

No segundo estudo, os pesquisadores analisaram se mensagens focadas em benefícios hedônicos, como sabor e textura, ou em benefícios ligados à saúde seriam capazes de reduzir o impacto da neofobia alimentar. Em ambos os casos, as mensagens foram apresentadas em conjunto com imagens do produto.
Os consumidores expostos às informações relacionadas à saúde demonstraram maior intenção de compra e passaram a perceber os biscoitos como mais sustentáveis.
O resultado sugere que atributos nutricionais funcionam como um motivador relevante, sobretudo entre consumidores atentos a questões ambientais e de bem-estar.
Subsídios para regulação e políticas públicas
Além do comportamento do consumidor, os dados levantados têm implicações regulatórias. A pesquisa pode subsidiar o Ministério da Agricultura e Pecuária na elaboração de uma legislação específica para o consumo de alimentos à base de insetos no Brasil, área ainda em construção no país.
Aspectos como produção controlada, higiene, segurança microbiológica, rotulagem e comunicação clara são apontados como determinantes para ampliar a confiança do consumidor e estruturar o mercado de forma consistente.
Impactos para estratégia e desenvolvimento de mercado
Do ponto de vista econômico, o estudo oferece subsídios relevantes para estratégias de marketing e desenvolvimento de produtos. Em um ambiente de crescente valorização da saúde e da sustentabilidade, a forma como a informação é apresentada tende a ser decisiva para ampliar a aceitação desses alimentos.
Campanhas educativas, ações de degustação e mensagens equilibradas entre prazer sensorial e benefícios funcionais surgem como instrumentos para reduzir barreiras culturais e acelerar a familiarização do consumidor brasileiro com esse tipo de produto.
Uma transição que depende de percepção
Ao identificar fatores capazes de reduzir a rejeição inicial, a pesquisa reforça que a adoção de alimentos à base de insetos não depende apenas de avanços tecnológicos ou de escala produtiva.
A aceitação passa, sobretudo, pela forma como risco, novidade e valor são percebidos em um sistema alimentar pressionado por desafios ambientais e demográficos.
Os dados indicam que a transição para novas fontes de proteína será tão comunicacional quanto produtiva, exigindo estratégias capazes de alinhar informação, confiança e contexto de consumo.