Uma flor colhida hoje no campo pode estar amanhã na casa do consumidor. Essa agilidade, que parece simples para quem recebe o produto final, é resultado de uma profunda transformação logística e tecnológica no setor de flores e plantas no Brasil.
Ao longo das últimas décadas, o que antes era uma cadeia artesanal se tornou um sistema altamente coordenado, no qual controle de temperatura, rastreabilidade e eficiência operacional passaram a definir a competitividade do negócio. O setor de flores é hoje um exemplo claro de como logística não é apenas suporte, mas estratégia.
Esse crescimento ganha ainda mais relevância quando analisamos o mercado: em 2025, o setor de flores e plantas ornamentais no Brasil movimentou um PIB de R$ 23,35 bilhões, registrando um aumento de 10% em relação ao ano anterior.
Desse total, cerca de 40% foi gerado no estado de São Paulo, que concentra aproximadamente 75% da produção nacional, números que evidenciam a dimensão, a força e a importância econômica dessa cadeia produtiva.
A floricultura brasileira
A história da floricultura brasileira começa entre as décadas de 1950 e 1960, com a chegada de imigrantes holandeses ao país. Vindos de uma Europa devastada pela Segunda Guerra Mundial, essas famílias encontraram no Brasil um ambiente desafiador para as atividades agrícolas tradicionais.
Foi a partir da introdução de bulbos de gladíolos que surgiu uma nova e promissora atividade econômica, as flores.
Durante muitos anos, a produção permaneceu regional e pouco estruturada. As flores eram comercializadas em feiras e Ceasas, sem tratamento diferenciado. A logística era improvisada, sem climatização ou padronização, o que resultava em perdas elevadas e qualidade inconsistente. Produzir bem não bastava, era impossível crescer sem uma cadeia organizada.
Mudanças de cenário para as flores
Esse cenário começou a mudar quando o setor passou a olhar além da porteira. A criação da Cooperativa Veiling Holambra, no final dos anos 1980, representou um ponto de virada. A partir dali, houve padronização de processos, desenvolvimento de embalagens adequadas, ganho de escala e profissionalização da cadeia de suprimentos.
Com a transformação digital, essa evolução se intensificou. Hoje, o mercado opera com leilões presenciais e online, automação de processos, robotização de tarefas repetitivas, sistemas de separação por comando de voz e veículos autônomos para movimentação interna. O uso de Business Intelligence permite analisar demandas, prever tendências e tomar decisões mais rápidas e embasadas.
Dentro da Cooperativa Veiling, por exemplo, dezenas de portais de RFID monitoram a movimentação de milhões de carrinhos e materiais logísticos, garantindo controle, rastreabilidade e eficiência operacional. A logística deixou de ser invisível e passou a ser um ativo estratégico.
Processo logístico essencial para a qualidade
No entanto, produzir flores de qualidade é apenas parte do desafio. Fazer com que elas cheguem frescas e bonitas ao consumidor final é tão complexo quanto, especialmente no Brasil.
Com dimensões continentais e infraestrutura desigual, o país impõe um dos maiores desafios logísticos do mundo para produtos altamente perecíveis. As diferenças climáticas entre as regiões são amplas, o que funciona no Sudeste pode não resistir ao calor do Centro-Oeste ou ao frio do Sul. Soma-se a isso o alto custo logístico, pressionado por transporte, estradas e carga tributária.
Nesse contexto, eficiência na distribuição se torna um diferencial competitivo decisivo. Flores exigem uma logística específica, rápida e precisa. Hoje, elas viajam em carretas totalmente climatizadas, operando entre 8 °C e 18 °C, com circulação de ar projetada para manter a temperatura homogênea.
O monitoramento de temperatura e umidade pode ser feito via satélite, permitindo ajustes em tempo real. Motoristas acompanham todas as informações por aplicativos integrados ao painel do veículo.
A suspensão a ar reduz impactos e preserva a integridade da carga. Cada detalhe é pensado para evitar a quebra da cadeia do frio, especialmente na etapa final da distribuição, onde muitas perdas historicamente aconteciam.
A chegada da flor ao consumidor final
Para o consumidor final, essa transformação é sentida de forma direta. Flores com maior durabilidade, melhor aparência e disponibilidade constante nos pontos de venda elevam a experiência de compra e fortalecem a relação de confiança com o produto.
Quando a logística funciona, o consumidor não percebe o esforço, percebe apenas qualidade. E isso muda hábitos, aumenta a frequência de compra, reduz a frustração com perdas precoces e amplia o espaço das flores não apenas como presente ocasional, mas como parte do dia a dia das pessoas.
Para Jorge Possato Teixeira, presidente do IBRAFLOR – Instituto Brasileiro da Floricultura, “todo esse dinamismo logístico está mudando significativamente o consumo de flores e plantas no Brasil. O maior acesso a produtos com frescor e qualidade estimula o interesse do consumidor e beneficia toda a cadeia, da produção ao cliente final”.
A experiência do setor de flores deixa uma lição clara para o agro brasileiro: logística não é custo, é valor. E ela só cumpre seu papel quando se transforma em venda, e em recorrência. Por isso, toda a cadeia precisa manter o foco no cliente.
Colocar flores frescas no mercado todos os dias da semana não é resultado de acaso. É fruto de investimento, tecnologia, cooperação e visão estratégica. O caminho das flores mostra que inovação logística é, cada vez mais, um dos caminhos mais sólidos para a competitividade no agro.
*Raquel Steltenpool é empresária do setor de Flores e Plantas Ornamentais. Filha de produtor rural, é diretora da empresa Steltenpool Flores e Plantas, e diretora de Mercado do Instituto Brasileiro de Floricultura (Ibraflor). Formada em psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e Especialistas em Funcionamento de Equipes.
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