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O Que os CEOs do Agro Estão Fazendo com IA Agora, Segundo a PwC

Dados de uma pesquisa global com recorte brasileiro mostra a tecnologia entrando na conta de receita, custo e emprego do campo ao prato

6 min

Nos últimos anos, a discussão sobre inteligência artificial no agronegócio brasileiro deixou de orbitar apenas o campo da experimentação e passou a ocupar espaço concreto nas decisões de gestão. O tema, antes associado a pilotos isolados e promessas de eficiência futura, hoje entra na conversa dos CEOs junto com receita, custo, eficiência e organização do trabalho.

Esse deslocamento aparece de forma consistente no recorte do setor na 29ª edição da CEO Survey, pesquisa global da PwC, uma das quatro maiores empresas de auditoria e consultoria do mundo, que ouviu 4.400 líderes empresariais em 95 países.

“Essa edição trouxe uma surpresa positiva. Pela primeira vez, os CEOs do agro começam a associar inteligência artificial a impacto direto em resultado, tanto em aumento de receita quanto em redução de custos”, afirmou Mayra Theis, sócia e líder de agribusiness da PwC Brasil, que faz um recorte da pesquisa global para o agro brasileiro. Segundo ela, o país é o único a realizar esse recorte, pela importância do setor na economia, envolvendo todas as cadeias produtivas do agro, do campo à mesa.

Essa mudança de percepção aparece de forma objetiva quando os dados entram em cena. Entre os CEOs do agronegócio no Brasil, 33% disseram que o uso de inteligência artificial já contribuiu para elevar a receita das empresas, enquanto outros 33% relataram ganhos de eficiência suficientes para reduzir custos operacionais. Na comparação com a média global da pesquisa, que reúne todos os setores da economia, o agro brasileiro aparece em posição relativa de avanço na captura desses efeitos.

A incorporação da inteligência artificial acontece em um momento menos favorável do que o vivido pelo setor em ciclos recentes de preços elevados e margens mais folgadas. A mesma pesquisa aponta queda no otimismo de curto prazo, custos pressionados e uma agenda executiva dominada por urgências.

“A eficiência deixou de ser uma escolha estratégica e passou a ser uma necessidade imediata. É nesse contexto que a tecnologia começa a fazer diferença”, diz Mayra.

Apesar dos avanços observados entre parte das empresas, a adoção da inteligência artificial ainda ocorre de forma desigual dentro do agronegócio brasileiro. Mais da metade dos CEOs do setor, 58%, afirmou que o uso da tecnologia ainda não alterou de maneira significativa receitas ou custos, o que está ligado a estágios iniciais de implementação, organização de dados e adaptação de processos internos.

Apenas 5% associaram a inteligência artificial a impacto negativo sobre receita, percentual residual dentro da amostra. O retrato traçado pela 29ª CEO Survey é o de um agronegócio que começa a tratar a inteligência artificial como instrumento concreto de gestão, e não mais como discurso.

Para além dos ganhos de eficiência, os dados da CEO Survey ajudam a entender uma transformação mais ampla no modelo de negócios do agronegócio brasileiro. Metade dos CEOs entrevistados afirmou que suas empresas passaram a competir em novos mercados nos últimos cinco anos, em patamar alinhado à média brasileira de todos os setores e superior ao índice global da pesquisa. A tecnologia aparece como elemento central dessa ampliação de escopo.

O Que os CEOs do Agro Estão Fazendo com IA Agora, Segundo a PwC
PwC_DivulgaçãoMyra Theys, que responde pelo agro na PwC

Para explicar como essa diversificação tem ocorrido na prática, Maíra recorreu a exemplos concretos. “O setor sucroenergético é um bom retrato desse movimento”, disse. “Saiu de açúcar e etanol, avançou para cogeração de energia, depois para biometano, fertilizantes a partir da vinhaça, leveduras. A tecnologia permite esse desdobramento do negócio.”

Essa diversificação ocorre acompanhada de maior conexão com outras indústrias, como energia, serviços financeiros e consumo, além de exigir novos fluxos de capital e estruturas de governança mais complexas. Para a PwC, trata-se de um movimento estrutural, que reposiciona o agronegócio brasileiro dentro da economia e amplia suas fontes de receita.

Além de alterar processos e modelos de negócio, a inteligência artificial começa a modificar a organização do trabalho no campo e na agroindústria. Segundo a CEO Survey, 60% dos CEOs do agronegócio no Brasil esperam reduzir a necessidade de profissionais em início de carreira nos próximos três anos. Um terço desse grupo projeta cortes superiores a 16%. Ao mesmo tempo, 23% indicam expectativa de aumento de contratações, sobretudo em funções mais qualificadas.

Para Mayra, o movimento captado pela pesquisa aponta para uma reorganização da base da força de trabalho no setor. “As funções mais operacionais tendem a encolher, enquanto cresce a demanda por profissionais capazes de interpretar dados, tomar decisões e integrar tecnologia ao negócio”, afirmou.

Cautela Econômica e Confiança no Futuro

Todo esse processo de transformação ocorre em um cenário de maior cautela econômica. A confiança dos CEOs do agronegócio no crescimento da receita nos próximos 12 meses caiu de 48% para 38%. No horizonte de três anos, o índice recuou de 66% para 55%, acompanhando o fim do ciclo de preços elevados em grãos, açúcar e café e a reentrada de uma equação de custo mais apertada.

Em um ambiente de custos mais altos e margens mais estreitas, a inflação ocupa hoje o centro das preocupações dos CEOs do agronegócio brasileiro. Trinta e cinco por cento dos entrevistados disseram estar altamente expostos ao risco inflacionário, percentual superior ao observado tanto na média brasileira quanto na média global da pesquisa. Mudanças climáticas e instabilidade macroeconômica aparecem logo na sequência, ambas citadas por 33% dos executivos.

Ao tratar dos riscos climáticos, Mayra reforçou que, no agronegócio, o clima entra diretamente na equação econômica das empresas. “Ele afeta produtividade, custo e previsibilidade. Não é uma variável acessória”, disse.

Ainda assim, mesmo em um ambiente mais tenso do ponto de vista econômico, a inovação segue posicionada no centro da estratégia do agronegócio brasileiro. Sessenta e três por cento dos CEOs do setor classificaram a inovação como componente crítico do negócio, índice superior à média global da pesquisa. A colaboração com startups, fornecedores e universidades aparece como prática recorrente, reflexo da tradição do setor em inovação aplicada.

O levantamento também mostra que a disposição para assumir risco continua limitada entre os CEOs do agronegócio. Apenas 18% afirmaram aceitar alto risco em projetos de inovação, e somente 15% das empresas contam com estruturas formais como centros de inovação ou corporate venturing. “A inovação está na estratégia, mas o desafio é sustentá-la quando o ambiente aperta”, afirmou Mayra.

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