Ricardo Castellar de Faria estreou na Lista Forbes de Bilionários Brasileiros em 2025. Na edição deste ano, anunciada nesta sexta (28), Faria chegou ao primeiro lugar entre os empresários do agronegócio e à décima posição no ranking geral. Aos 51 anos, o fundador da Granja Faria possui um patrimônio estimado em R$ 35,1 bilhões. Ele encabeça um grupo de 37 bilionários ligados ao campo, donos de R$ 207,7 bilhões, 11,2% dos R$ 1,86 trilhão reunidos pelos 255 nomes da lista. Em pouco mais de dois anos, Faria comprou empresas na Europa e nos Estados Unidos, ampliou a produção brasileira e abriu o capital da Global Eggs a um dos maiores fundos de private equity do mundo.
“O objetivo é replicar o que temos no Brasil: liderar o segmento em cada país que operarmos”, afirmou Faria quando anunciou uma das aquisições internacionais do grupo. O passo de maior impacto sobre seu patrimônio ocorreu em março deste ano, quando a Warburg Pincus investiu cerca de US$ 1 bilhão (R$ 5,2 bilhões na cotação atual) na Global Eggs e ficou com uma participação minoritária na companhia. A transação avaliou a empresa em US$ 8 bilhões (R$ 41,6 bilhões) e levou a Forbes Brasil, naquele momento, a calcular em R$ 40,9 bilhões a fortuna do empresário. No fechamento da lista anual, feito segundo os critérios do levantamento, o patrimônio ficou em R$ 35,1 bilhões.

A Global Eggs concentra os negócios de ovos controlados por Faria dentro e fora do Brasil e reúne cerca de 45 milhões de aves. Para 2026, a empresa trabalha com a meta de produzir 15 bilhões de ovos. A internacionalização começou a ganhar corpo com a compra da Hillandale Farms, uma das maiores produtoras americanas do setor, por US$ 1,1 bilhão (R$ 5,7 bilhões), e avançou com a aquisição do Grupo Hevo, segundo maior produtor da Espanha, com 15 granjas, quatro milhões de aves, 500 funcionários e faturamento anual informado de 180 milhões de euros (R$ 1,1 bilhão).
Do sul do Brasil para o mundo dos memes
Antes de chegar às granjas americanas e espanholas, Faria montou sua base no Sul do Brasil. Nascido no Rio de Janeiro, mudou-se ainda criança para Criciúma (SC), quando o pai, médico, foi transferido para trabalhar na região. Aos oito anos vendia picolés na praia durante as férias. Aos 15, durante um intercâmbio na Califórnia, conheceu propriedades rurais americanas e decidiu trocar a medicina pela agronomia. Formou-se engenheiro agrônomo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e ainda no fim da graduação criou a Lavebras, uma empresa de higienização de têxteis e locação de uniformes, vendida em 2017.
A entrada definitiva na avicultura ocorreu em 2006, com a criação da Granja Faria, em Lauro Müller, também no Estado. Duas décadas depois, a companhia opera 34 unidades produtoras, emprega 2,7 mil funcionários e fornece cerca de 16 milhões de ovos por dia, além de ovos férteis e pintos de um dia. A produção está distribuída por dez estados e as exportações chegam a 17 países. No mercado nacional de ovos, a participação do grupo gira em torno de 10%.
Parte desse crescimento foi construída pela compra de concorrentes. Em março de 2023, a Granja Faria assumiu o controle das operações de ovos e fertilizantes organominerais da Katayama Alimentos, em Guararapes, no interior paulista. Era a 11ª empresa adquirida por Faria no setor avícola e a primeira em que o antigo controlador permaneceu como sócio. Gilson Katayama ficou com uma participação minoritária e passou a integrar o conselho da Granja Faria. A marca, conhecida no mercado paulista, também trouxe ao grupo uma operação exportadora com histórico de vendas para o Japão.
“Estamos namorando há cinco anos e como é uma sociedade precisou fazer sentido para as duas partes”, disse Faria na época. “Discussão de sociedade é discussão de vida.” A compra levou a produção diária da Granja Faria de 13 milhões para 16 milhões de ovos. Para aquele ano, o empresário projetava receita líquida entre R$ 2,6 bilhões e R$ 3 bilhões e Ebitda de R$ 800 milhões. As vendas externas seguiam para dez países, entre eles Japão, Chile, Arábia Saudita e Emirados Árabes, com os ovos férteis respondendo por 70% dos embarques.
Naquele momento, Faria deixava claro que a Katayama não encerraria a rodada de aquisições. “Enquanto a gente mostrar eficiência e tiver capacidade de execução, vamos para o mercado”, afirmou. Nos dois anos seguintes, o mercado no alvo passou a incluir empresas fora do Brasil. A compra da Hillandale deu ao grupo uma operação de grande porte nos Estados Unidos, enquanto a entrada na Espanha abriu outra frente na Europa. O modelo usado dentro do país, baseado em comprar produtores, aumentar escala e integrar operações, passou a ser aplicado em mercados estrangeiros.

No Brasil, a companhia também começou a explorar com mais intensidade as marcas voltadas ao consumidor. Em fevereiro deste ano, a influenciadora Gracyanne Barbosa apareceu em uma campanha do Canva que simulava o lançamento de sua própria marca de ovos. A brincadeira ganhou circulação nas redes sociais e a Iana Ovos, da Granja Faria, decidiu colocar o produto nas lojas. Nasceu a linha GracIANA, com versões Jumbo, Ômega 3, Selênio, Gourmet, Caipira, Orgânico e Extra. Hoje, é fácil encontrar esses ovos em redes como o Pão de Açúcar, por exemplo.
A história do produto começou com um hábito que já havia transformado Gracyanne em meme durante sua participação no BBB 25: o consumo de 40 ovos por dia. A Iana aproveitou a circulação do assunto para tirar a marca do ambiente digital e levá-la às gôndolas. “Nossa estratégia foi transformar a conversa orgânica das redes em uma entrega tangível e de alto valor agregado para o consumidor”, afirmou Renata Grahl, gerente de marketing da Granja Faria, à época. A campanha mostrou uma frente diferente das grandes aquisições que marcaram o crescimento do grupo, desta vez usando distribuição, marca e variedade de produtos para aumentar a presença no varejo.
Fortuna além dos ovos
O patrimônio de Faria não está concentrado apenas na produção de ovos. Ele criou a Insolo, empresa de produção agrícola de grãos e fibras, e a Fertifar, do setor de fertilizantes, além da RCF Capital, que reúne seus investimentos. Na Granja Faria, ocupa a presidência do conselho. O negócio avícola acabou ganhando maior peso ao longo dos últimos anos, principalmente depois das aquisições internacionais e da criação da Global Eggs.
A entrada da Warburg Pincus, gestora americana de private equity, com sede em Nova York, especializada em investir capital em empresas com planos de expansão, abre espaço para que essa sequência continue. Segundo Ismelon Moreira, CFO global da empresa, além do capital, o fundo possui relacionamento com empresas e investidores que podem participar da prospecção de novos negócios. Para a Global Eggs, que não possui ações negociadas em bolsa, a operação também estabeleceu um preço para a companhia e permitiu calcular com mais precisão o valor da participação de Faria. Foi a transação que colocou seu nome entre as maiores fortunas do país antes mesmo da publicação do ranking de 2026.
OBS: ENTENDA A METODOLOGIA DA LISTA FORBES
A lista Forbes Bilionários Brasileiros considera várias fontes para apontar que alguém atingiu a fortuna de R$ 1 bilhão ou mais. A informação mais importante são as ações listadas em bolsa, com base na cotação de fechamento de 30 de junho de 2026. Além de públicos, esses dados são oficiais e auditados. Uma vez que a lista considera apenas as informações públicas, os patrimônios podem estar subestimados. Na maioria dos casos não são considerados itens como imóveis, obras de arte, aviões ou embarcações, exceto se o participante da lista concordar em fornecer dados confiáveis sobre eles. Dependendo do caso, o patrimônio de irmãos ou familiares pode ser consolidado ou separado. Sugestões e observações, escreva para [email protected]