A Todas por Uma anunciou na quinta-feira (29), durante o 1º Forbes Under 30 Summit Brasil, em São Paulo, seu primeiro projeto internacional de combate ao feminicídio, em parceria com a representação diplomática brasileira em Miami, nos Estados Unidos. O anúncio foi feito em primeira mão por Mateus Lima, fundador da plataforma de enfrentamento à violência contra mulheres, durante o painel Impact Is the New Currency: É possível crescer sem escolher entre impacto e resultado? A iniciativa marca um novo passo na expansão internacional da tecnologia brasileira, que, segundo o empreendedor, já opera em mais de 30 países.
O projeto foi apresentado no debate mediado por Vera Ondei, editora de Agro da Forbes Brasil, que reuniu também Juliana Martinelli, fundadora da Inova 3D House, e Carola Matarazzo, diretora-executiva do Movimento Bem Maior. O painel teve como eixo a tensão entre impacto social, escala e sustentabilidade financeira. O encontro foi realizado no JW Marriott e reuniu empreendedores, líderes e talentos que estão transformando negócios, mercados e a sociedade. O evento foi apresentado pela jornalista Fabiana Scaranzi e com patrocínio de Omoda & Jaecoo e Johnnie Walker, e parcerias oficiais de MCI e JW Marriott.
A conversa abordou como transformar soluções para problemas sociais em negócios capazes de crescer, manter a sustentabilidade financeira e comprovar resultados. No caso da Todas por Uma, o desafio passa por ampliar o acesso a ferramentas de proteção, sobretudo entre mulheres em situação de vulnerabilidade.
“Eu prometi para mim mesmo que nunca mais iria ouvir uma mulher chorar ou sofrer”, afirmou Lima ao recordar a violência doméstica que presenciou na infância e que, segundo ele, motivou a criação da iniciativa. A experiência pessoal deu origem ao desenvolvimento de uma plataforma que busca permitir que mulheres peçam ajuda sem chamar a atenção de possíveis agressores.
Dispositivo Nice amplia a estratégia de proteção

Além do aplicativo, a empresa desenvolveu a Nice, uma tecnologia de inteligência artificial associada a um dispositivo compacto, que pode ser integrado a acessórios, como brincos e colares, ou incorporado à costura de roupas. A ferramenta foi projetada para permitir o envio discreto de alertas de emergência com informações como localização, horário, contatos de emergência e registros do ambiente, incluindo áudio e imagem.
De acordo com Lima, o desenvolvimento da tecnologia levou quatro anos. O fundador afirmou que a plataforma da Todas por Uma acumula mais de 250 mil usuárias cadastradas, 15 mil vidas resguardadas e mais de 70 mil chamados de urgência administrados.
A expansão, segundo ele, depende de garantir que a solução funcione também em aparelhos mais simples. “Como uma mulher das classes C e D tem um celular que não é tão moderno, tivemos que mapear a realidade nacional e criar funcionalidades que, com um simples chacoalhar ou botão camuflado, garantam a mesma tecnologia de quem tem um aparelho de ponta”, disse.
Para ampliar o acesso ao dispositivo Nice, a empresa adota um modelo de subsídio cruzado: parte das unidades é vendida a consumidores com capacidade de pagamento ou a parceiros corporativos, e a receita ajuda a financiar a distribuição gratuita para mulheres que não podem arcar com o custo. Lima afirmou ainda que uma primeira remessa de mais de mil unidades se esgotou rapidamente, diante da demanda.
Capital de longo prazo é desafio para negócios de impacto

A experiência da Todas por Uma trouxe ao debate uma questão central para empresas que buscam aliar sustentabilidade financeira e transformação social: como financiar o crescimento sem restringir o acesso às soluções. Para Carola Matarazzo, negócios criados com a intenção de resolver problemas sociais precisam de investidores dispostos a esperar pelo amadurecimento dos resultados.
“Negócios que nascem com a intencionalidade de resolver um problema da sociedade precisam de investidores que tenham resiliência para o chamado capital catalítico, o capital paciente”, afirmou.
Matarazzo diferenciou esse modelo da filantropia tradicional, que trabalha com recursos não reembolsáveis e iniciativas cujos efeitos podem aparecer no médio e no longo prazo. Em ambos os casos, segundo ela, a avaliação dos resultados exige critérios claros e acompanhamento consistente.
“Impacto não pode virar uma buzzword. Impacto não pode virar amor ao próximo, gratidão ou qualquer coisa assim. Impacto é sério: precisa de capital paciente, resultado acumulado e métricas para ser comprovado”, disse.
Para a executiva, o impacto precisa estar incorporado à estratégia e à gestão da organização, e não ser usado apenas como argumento de comunicação. A coerência entre o discurso e a prática é, em sua avaliação, um dos primeiros critérios para distinguir iniciativas efetivas de ações voltadas somente à imagem institucional.
Construção 3D busca superar barreiras regulatórias e de crédito

Outro exemplo de negócio voltado a uma demanda social apresentado no painel foi o da Inova 3D House, de Juliana Martinelli. A empresa desenvolve soluções de impressão tridimensional para a construção civil, com foco em habitação de interesse social. A proposta é usar a tecnologia para ampliar a eficiência construtiva e reduzir custos, mas a expansão comercial ainda depende de avanços técnicos, regulatórios e financeiros.
“Hoje no Brasil temos dez empresas que trabalham com impressão 3D na construção e já temos sete casas impressas; então não é algo distante da nossa realidade”, afirmou Martinelli.
Segundo a empreendedora, a Inova 3D atua nesse mercado desde 2015 e desenvolve maquinário e materiais brasileiros. Ela estimou que a solução da empresa pode apresentar custos de 6% a 20% inferiores aos da alvenaria convencional, a depender das condições de comparação.
O principal obstáculo à expansão, porém, está na combinação entre homologação técnica e financiamento. A obtenção do Documento de Avaliação Técnica (DATec), necessário para a avaliação de sistemas construtivos inovadores em determinadas aplicações, é parte do caminho para viabilizar a adoção comercial da tecnologia e o acesso ao crédito imobiliário.
“A regulação não é apenas para construir, é para financiar a obra. Para financiar a construção ou para a pessoa comprar a casa de forma financiada, precisamos dessa regulação e do capital de investimento”, disse Martinelli. Os custos dos testes e dos processos de avaliação também exigem recursos que possam permanecer comprometidos por períodos mais longos.
Impacto precisa começar na operação

Ao encerrar o debate, Matarazzo defendeu que empresas não precisam esperar por projetos de grande escala para incorporar o impacto social à operação. Mudanças na política de contratação, nas relações com fornecedores e no vínculo com as comunidades em que atuam também podem produzir resultados concretos.
“Às vezes achamos que não é sustentável porque queremos um impacto para mudar o país inteiro de imediato, quando podemos começar transformando a própria empresa pela forma como contratamos e nos relacionamos com a comunidade”, afirmou.